Leslie Cheung: Culposamente belo

Tradução do texto de Lori Morimoto originalmente postado na VCinema.

_______________________________

Leslie Cheung era uma mente brilhante em quase todos os critérios, postumamente declarado o terceiro cantor  mais icônico do mundo de acordo com a CNN em 2010 (Seguido de Michael Jackson e dos Beatles) [1]. Porém, apesar de ter passado a minha infância nos anos 70 e 80 em Hong Kong, o meu primeiro encontro com ele só aconteceu em 2005, e de todos os lugares aconteceu no Japão. Ele teve um destaque no mercado de vídeos japonês desde os finais dos anos 80 em filmes como Alvo Duplo (1986) de John Woo e Uma História Chinesa de Fantasmas (1987) produzida por Tsui Hark. Mas foi a sua aparição no filme Dias Selvagens (1990) de Wong Kar-wai e Adeus, Minha Concubina (1993) de Chen Kaige que cimentaram a sua popularidade no Japão, aclamado pela sua beleza requintada e meticulosidade profissional não somente pela crescente fama entre as mulheres, mas também pelo ícone cultural japonês de onnagata (impressionista feminino) do kabuki Bando Tamasaburo e da Figurinista Emi Wada. Até mesmo o crítico de cinema Richard Corliss escreveu uma rapsódia sobre ele, em uma prosa que se parece mais como uma paixão do que um registro jornalístico:

Cheung poderia se qualificar para um monumento para estourar sua longevidade se ele não estivesse no seu brilhante primor, e se ele não estivesse ainda tão maravilhoso. Qualquer um que visitar Hong Kong e mencionar o seu nome para algum residente irá ouvir a mesma frase: “Adivinhe quantos anos ele tem” (como se ele mantivesse um retrato apodrecido dele mesmo no sótão). Cheung tem 44 anos, e se ele mudou alguma coisa durante esses anos ao olhar do público, foi para se tornar mais astuto luxuoso e cativante na sua sedução. Ele simultaneamente seduz e recebe flertes e os proibições. Ele é a provocação mais sedutora no entretenimento asiático. [2]

Em termos mais acadêmicos, Leslie encorporou tanto nos filmes como nos palcos aquela “estado de ser visto” que ativa o olhar masculino de Laura Mulvey, “Simultaneamente observado e posto, com a sua aparência codificada, para um forte impacto erótico visual”. Ele estava disponível para o consumo de fãs tanto nos filmes e concertos que apresentaram a sua beleza andrógena.

Cheung-2

E foi a sua disponibilidade para ser visto e desejado que nós podemos dizer que constituiu a tensão central de seu estrelado. A comerciabilidade de uma estrela – da sua vida – é predicada na sua habilidade de atrair a atenção do público, e por isso, quanto mais habilidosos eles são, mais eles sofrem com o risco de atrair atenção de mais, ou interesse, ou desejo. Por toda sua carreira, Leslie trabalhou para aliviar o desejo dos fãs através de fotos, entrevistas, concertos, e eventos centrados para fãs, tudo isso enquanto tentava criar um cordão de segurança para um pequeno espaço só para ele. Mesmo assim, quando os tabloides de Hong Kong começaram a vasculhar documentos governamentais como evidência de que Leslie estava, de fato, morando com o seu parceiro (assim confirmando o sua sexualidade) os fãs clamaram por eles. Tudo o que estava para ser oferecido foram alguns detalhes sobre a relação que Leslie estava escondendo, mas a tentadora promessa de saber um pouco mais sobre ele – e o senso indiscritível de proximidade e intimidade que tão conhecimento trazia – foi um poderoso atrativo para olhar além daquilo que nos era oferecido nas telas e nos palcos. Mesmo eu sucumbi  na compra de um desses tabloides em mercado de cultura pop chinesa em Osaka, descobrindo ao folhear que Leslie e eu fomos vizinhos assincrônicos, a sua cobertura ficava diretamente ao lado do complexo que eu morei quando criança (e, assim, aprofundando meu senso pessoal de intimidade com ele).

15bx603pn

Eu acordei em Tóquio na manhã do dia 2 de abril de 2003 com a notícia que Leslie tinha pulado para a sua morte na noite anterior do 24º andar do Hotel Mandarin de Hong Kong – um ponto de referência da minha infância em Hong Kong. As poucas pessoas que conheciam o meu amor por ele – incluindo o meu então orientador de PhD – me enviou um e-mail para ver se eu estava bem, entendendo que, para mim, a sua morte era pessoal. Leslie deixou uma nota dizendo que estava cansado de lutar com a depressão (em seguida, foi revelado que ele já havia tentando suicídio no ano anterior), mas tudo o que eu conseguia pensar, da minha perspectiva de fã, era que ele se foi – sua carreira foi escrita – e que eu esperava que ele fosse pelas suas próprias decisões. Foi como a grande atriz chinesa se foi, e eu queria ver como a canção do cisne de uma diva, do que realmente foi: a última atitude de um homem desesperado.

Eu não acho que ele foi reprimido até a morte, e eu acredito que existia uma parte dele que desejava a atenção que ele merecia como estrela. E eu acredito que, no final, foi mais sobre a sua experiência pessoal com a depressão do que qualquer outra coisa que o levou ao suicídio. Entretanto, eu fico pensando sobre a minha própria culpa sobre a sua morte – Teria eu (ou os fãs) ido longe demais? Nós chegamos perto demais, fomos invasivos?

Ou, como Corlis edificou em seu obituário de Leslie, seria ele a vítima de sua própria beleza?

Nós sabemos o que era ver Leslie – sentir o seu charme, a sua beleza petulante e perigosa – mas não o que era ser Leslie. Ele parecia muito bem ali, no mundo fantástico de Cheung, mas ele pode ter sentido que seu castelo estava desmoronando, que a sua matéria era incansável… e talvez o espelho dizia a ele que ele não era o mais fantástico de todos. [3]

Quanto que ele estava investido no “estado de ser visto” de Leslie? O colapso do estrelato sem o puxa e empurra do público e privado, mas existem poucas regras que governam essa tenção. Eu não me sinto (sempre) culpada em ver isso, mas de vez em quando eu imagino se algumas estrelas não estão no limite, implorando para nós olharmos para elas e oferecendo demais quando nós olhamos para eles.

Abaixo deixo o meu vídeo (estudo) da celebridade, pessoa, e o olhar do público sobre Leslie Cheung ao som de sua canção “Blamfully Beautiful” (Áudio em inglês, sem legenda).

Notas

[1] Autor desconhecido, “Michael Jackson: Your number one music icon”, CNN, http://edition.cnn.com/2010/SHOWBIZ/Music/08/24/music.icon.gallery/.

[2] Corliss, Richard (2003), “To Fall from a Great Height”, TIME, http://content.time.com/time/magazine/article/0,9171,108021,00.html.

[3] Idid.

_______________________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Leslie Cheung: Blamefully Beautiful

Ator Jake Choi e a redefinição da sua sexualidade “Caramba, eu me sinto atraído por todos”

12 Artistas LGBT+ Brasileiros com ascendência leste-asiática para você seguir no Instagram

A narrativa lésbica na série Runnaway da Marvel

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: