Tan France oferece a representação que asiáticos queer nunca tiveram

Tradução do texto de Daniel Megarry originalmente postado no Gay Times.

_______________________

É muita pressão, como ele rapidamente admite, e isso somente se intensifica pelo fato de que ele é uma das poucas pessoas representando todas as comunidade que ele faz dentro de uma plataforma tão grande quanto a Netflix. “Foi o que mais me preocupou ao entrar no programa” ele admite. “Nós sabemos que existiram homens gay asiáticos na televisão no Reino Unido, mas homens gays asiáticos em um seriado global, isso ainda não tinha sido feito, então eu não somente represento asiáticos para um público britânico, eu represento asiáticos globalmente nesse ponto, e isso é muita pressão para somente uma pessoa”. Apesar de existirem pedidos para mais diversidade e representação na mídia – e deveria ter – é importante lembrar que minorias que conseguem destaque inevitavelmente sofrem com o peso da responsabilidade e um nível muito alto de críticas, algo que precisa ser difícil de lidar.

“Eu não acho que alguém deseje realmente ser o primeiro em algo como isso”, continua Tan, “porque existe tanta pressão para você ser perfeito em diversas maneiras, e isso é paralisante. Eu sou lembrado disso todos os dias. Todas as vezes que faço algo, a imprensa irá relatar como se eu falasse por todos os asiáticos, ou todos os gays, ou todas as pessoas marrons, ou todos os imigrantes. É frustrante, porque eu não falo por todos. Eu falo por mim mesmo. Mas eu amo poder representar as comunidades marginalizadas, porque eu estou constantemente tentando fazer o melhor para ter certeza que eu represento minha comunidade da melhor maneira possível”.

QEYE_307_Unit_00355Rweb

Como um menino asiático gay crescendo em South Yorkshire, Tan alguma vez sentiu que ele tinha um exemplo em quem se espelhar? “Não. A resposta curta é não”, ele responde rapidamente. “Eu esperava por isso, mas eu não achava que iria ver isso na minha vida, uma versão de mim em uma plataforma global. Eu nunca achei que existiria essa oportunidade. Eu não achava que existiria dentro das interações do Queer Eye original que existiria um asiático gay no programa, foi sempre o caso de “vamos compartilhar essa história branca, ou talvez essa história negra”, mas eu também não vejo a representação de leste asiáticos suficiente. Eu simplesmente não imaginava que existiria um dia que as pessoas diriam ‘espera, a gente deveria representar essas pessoas’. Então eu ainda estou chocado em estar nesse programa”.

Foi essa contínua falta de representatividade que o inspirou não somente aceitar o lugar no Fab Five, mas também em escrever as suas memórias, Naturally Tan, que será lançado no meio desse anos. Ele admite, porém, que no início ele tinha recusado a oferta de publicar um livro. “Quando a editora me contatou e perguntou se eu gostaria de escrever um livro a minha resposta foi ‘Com certeza não, eu não tenho uma história'”, ele se lembra. “Eles retornaram e disseram que ‘você entrou para o Queer Eye porque você tinha uma história, e você quer lutar pela representatividade de pessoas como você’, e eu pensei “caramba, você está certo, eu provavelmente tenho uma história para contar’. E eu constantemente me lembrava disso todos os dias em que escrevia o livro”.

O produto final levou um ano para ser escrito, e ele escavou algumas das mais “incrivelmente pessoais” experiências da sua vida, incluindo a discriminação que ele sofreu. “Eu falo sobre o fato de que pessoas foram hediondas, racistas e homofóbicas contra mim, mas eu encontrei uma maneira de colocar uma nova luz sobre isso e tornar tudo em um livro mais digerível. Eu estou muito orgulhoso de tudo o que eu alcancei até agora, especialmente com o Queer Eye, mas o livro é algo que eu mais me orgulho. E não é um livro somente para asiáticos, é claro que eu quero que eles leiam e eu acho que eles possam se sentir representados enquanto leem, mas eu também quero que pessoas cis-hétero brancas também o leiam. Os gays e as meninas são o primeiro público, eu espero que eles leiam o livro porque me conhecem do show, mas eu também quero que homens cis-hétero brancos leiam e pensem “Eu não deveria chamar alguém de Paki desgraçado nunca mais”.

Tan-France-web

Enquanto o livro possa ser o projeto mais íntimo que ele já tenha lançado, ele hesita em revelar qualquer coisa sobre a sua vida pessoal. “Se você já viu o show, você sabe que eu sou o que tem mais barreiras, e sou o que menos compartilha a vida pessoal”, ele conta. Quando comparado com personalidades extrovertidas como Jonathan van Ness e Antoni Porowski, Tan com certeza é o mais reservado do Fab Five, mas pessoalmente ele é incrivelmente acolhedor e amigável – o tipo de homem que você realmente seria amigo na vida real. “Eu compartilho mais coisas do que você já tenha ouvido no show, mas ainda existem  certas partes de mim que eu não compartilho no livro. Existem muitos detalhes íntimos sobre as minhas amizades, ou meu casamento, ou minha família. Eu nunca me exponho completamente para o público, eu nunca faria isso, eu gosto de manter algumas coisas para mim mesmo porque eu gosto de sentir que eu ainda sou o Tan que meu marido conhece, não o Tan que o mundo conhece”.

Em apenas um ano, a remontagem da Netflix do seriado de reality dos anos 2000, Queer Eye, se tornou um sucesso inesperado, na medida que o viciante show de transformação e seu elenco formado por Tan, Karamo, Jonathan, Antoni e Bobby ganharam os corações de pessoas ao redor do mundo. É difícil pensar em outro show que tenha ganhado tantos seguidores em um período tão curto de tempo. “Eu acho que o fato de ser tão positivo é um choque no sistema”, Tan explica sobre a popularidade do show. “Porque até onde a televisão de reality é construída, estamos acostumados em vermos personalidades insípidas e vilanizadas na tela que estão constantemente brigando, que são constantemente agressivas, que mostram uma versão do mundo que eu não quero que seja real. Nós já vemos isso, e chamamos elas de noticiários, infelizmente”.

Tan fala sobre a decisão do Brexit no Reino Unido, e a eleição de um presidente intolerante nos Estados Unidos, , como exemplos dessa negatividade e ódio que estão deixando os telespectadores exaustos e ansiosos por algo saudável. “Nós vemos tanto ódio na mídia, e por isso que eu acho que o nosso show ajuda a contra-balançar isso, e mostra as pessoas que nós somos na realidade muito mais parecidos do que diferentes. Eu acho que o momento foi perfeito. Mas também, eu acho que as pessoas estão entendendo o quão gentis eu e meus meninos somos uns com os outros. É muito bom ver cinco homens gays que se apoiam, e não estão tentando um derrubar o outro”.

Enquanto a série original de 2000, Queer Eye for the Straight Guy, era relativamente limitado tanto nos “heróis” apresentados e as suas representações do que significava ser queer, a versão reimaginada da Netflix tem se comprometido em explorar todos os aspectos da comunidade. Além dos homens héteros, o show ofereceu transformações para homens gays, mulheres e um homem trans. Sem se prender nas suas conquistas, a terceira temporada oferece ainda mais representação, apresentando uma mulher lésbica pela primeira vez, e também uma transformação dupla nas irmãs Deborah e Mary, que se tornaram as favoritas do show.

“Eu somente quero continuar a promover a diversidade em todos os sentidos, não somente dentro da comunidade LGBT”, conta Tan. “Eu quero compartilhar histórias que você ainda não tenha ouvido”. Tanto a heroína lésbica, Jess, e a heroína do primeiro episódio, uma apaixonada por armas que somente veste camuflagem, desafiam os esteriótipos do que uma mulher deveria ser ou parecer, e em um mundo que está lentamente se tornando mais aberto a entender que tanto a sexualidade e o gênero não estão restringidos ao tradicional binarismo como gay ou hétero, masculino ou feminino. “Eu não quero somente apresentar o lado masculino de mim mesmo, existe também o meu lado feminino, e todos nós temos isso, seja você hétero ou gay. Nós tentamos encorajar todos com quem trabalhamos no programa para que expressem quem realmente são”.

QEYE_303_Unit_00809R2web

Assim como encorajar a diversidade, Tan revela que o Fab Five usam o show como uma maneira de criar conversas sobre vários direitos humanos e questões políticas dentro das casas dos espectadores. No primeiro episódio da terceira temporada, Tan conversa com Jodie sobre o seu amor por caça e armas, e os dois encontram um meio caminho no que é um dos assuntos que mais divide os Estados Unidos, ambos pedindo por leis mais severas de posse de armas. “O que vocês não vem no programa é que, nos bastidores, nós estamos constantemente lutando por coisas que queremos que sejam debatidas”, ele conta. “Nós recebemos uma planilha sobre a pessoa com uma semana de antecedência, e é dessa maneira que nós conseguimos decidir onde nós queremos levá-la, mas quando nos encontramos com elas nós realmente descobrimos quem elas realmente são. Do encontro inicial, que nós chamamos de ‘descoberta’ ou ‘emboscada’, nós cinco vamos até a casa da pessoa, fazemos algumas perguntas, e a partir do que conseguimos conversar nós individualmente discutimos sobre o que gostaríamos de falar”.

“Eu realmente bati o pé para conseguir falar sobre armas” ele continua. “Existiam armas por toda a casa de Jodie, não é algo que nós temos em nossas casas na Inglaterra, eu eu gostaria de conversar sobre as diferenças entre as leis entre o Reino Unido e nos Estados Unidos porque as leis estados-unidense são bastante particulares, e isso é um programa global. Eu queria falar sobre o quão bizarro isso parecia para o resto do mundo ver pessoas carregando armas, você não precisa de uma licença, você pode entrar em uma loja de armas nos Estados Unidos e não precisa mostrar uma identidade ou esperar para conseguir uma arma, você simplesmente consegue elas. Então era realmente importante para mim conversar sobre esse tema, e pelo menos ter um primeiro diálogo”.

Hoje, Tan está em um lugar onde ele pode ser confiante de si mesmo e feliz com a sua vida e carreira. Assim como muitas pessoas queer, que quase nunca são protagonistas, e que cresceram gay e asiáticos em um período que tinha muito menos tolerância do que temos hoje,  foi realmente uma batalha – mas, Tan é a prova vida de que tudo irá ficar melhor. Para encerrar essa entrevista, ele tinha uma mensagem para o seu eu mais jovem.

“Isso pode ser brega, mas eu morei nos Estados Unidos por muito tempo”, ele começa. “Eu diria: Seja o seu próprio sistema de apoio, seja o seu próprio modelo, faça tudo o que você puder para certificar que você está fazendo aquilo que te faz feliz. Você não precisa olhar para outras pessoas para se descobrir, ou para encontrar o seu valor. Eu estou muito, muito feliz que eu possa oferecer isso para as pessoas hoje, fazer com que as pessoas possam ver esse show em um pequeno vilarejo na Índia ou Paquistão e pensarem, ‘Aquela pessoa se parece comigo, ele vem do mesmo lugar que eu, e ele conseguiu alcançar isso, ele conseguiu encontrar alguém para amar, e estar em um casamento feliz’. Eu amo poder estar aqui agora, e que eu posso oferecer isso apra as pessoas. Mas, voltando para a minha infância, eu desejaria essa força existisse no passado para que eu dissesse ‘Você não precisa necessariamente disso, você pode se encontrar dentro de você mesmo'”. Seja para o seu passado ou para qualquer criança queer sofrendo em 2019, esse é um ótimo conselho.

_______________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Tan France is giving queer Asians the representation he never had

Como um muçulmano marrom e descendente de imigrantes paquistaneses se revelou uma estrela de ‘Queer Eye’

Por que Queer Eye é um Reality Show diferenciado?

Onde o Queer se encontra com o Islã: Por dentro da maior mesquita LGBT do mundo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: