Queer demais para ser muçulmana, muçulmana demais para ser queer

Tradução do texto de Hafsa Qureshi originalmente postado no Openly.

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Uma mulher muçulmana é quieta. Ela é pura. Ela é uma boa esposa para o seu marido, e uma boa mãe para os seus filhos. Essa é a mensagem que eu ouvi de meus colegas, e vi moldada nos adultos que me rodeavam. É era o que eu me esforçava em ser quando criança.

Só existia um problema. Eu não era hétero.

Os problemas começaram quando todas as minhas amigas começaram a se apaixonar por homens. Aquele menino tinha cílios bonitos; aquele tinha um sorriso fofo. Eu somente acenava e concordava, pensando em como minha paixão usava o cabelo dela de maneira diferente naquele dia. Eu era uma aberração. Talvez eu aprendesse a ser hétero quando crescesse. De que maneira eu iria me casar e ter filhos, como é esperado de toda mulher da minha comunidade?

Não existem Muçulmanos LGBT. Pelo menos, era isso que eu ouvia quando era pequena. Pessoas marrons queer não existiam. Se existiam, a terra deveria tê-los engolido assim que se assumiram, porque eu nunca tinha encontrado nenhum deles. Sim, existia aquele cara na escola que agia de maneira afeminada, ou aquela menina que ficara olhando para as outras meninas se trocando na aula de educação física. Talvez eles fosse héteros, talvez não. Mas na realidade, não poderiam existir tais anomalias.

Eu sempre amei a minha religião. Eu amava aprender sobre o Islã, rezar, usar o hijab. Eu não queria abandonar uma parte essencial de quem eu era somente porque eu gostava de meninas. Então eu fiz a minha pesquisa, e lá estavam mulheres poderosas na história do Islã. Existiam mulheres de negócio, mulheres que lideraram exércitos… então porque me mandavam permanecer quieta? Isso me pareceu que isso era mais uma expectativa cultural do que religiosa.

E dessa maneira, eu me senti menos forçada a ser um arquétipo específico da mulher muçulmana. Eu decidi que eu queria explorar a minha sexualidade.

A primeira vez que eu sai para um encontro com uma mulher, eu elogiei o batom dela. Ela me elogiou dizendo que estava feliz de eu não ser “igual o resto deles”. Eu deveria ter perguntado o que “deles” significava.

Mas, eu pedi uma entrada ao invés de perguntar.

Esse foi o começo de um perturbador padrão que eu percebia no começo da minha jornada queer. Um padrão que me colocava como “diferente”, por ser “corajosa” e por “quebrar esteriótipos”. Repentinamente, minha sexualidade tinha se tornado em algo político. Foi menos uma expressão da minha sexualidade, e mais sobre me libertar do que as pessoas esperam de uma muçulmana. Aos 18 anos isso não era algo que eu estava pronta a enfrentar. Porque eu não poderia namorar como as outras pessoas?

Em círculos LGBT, as pessoas me perguntavam sobre a minha religião. Eles me perguntavam sobre minhas opiniões sobre o Islã e a homossexualidade; eles questionavam se eu era realmente religiosa ou não. Eles me julgavam quando eu não saia para beber ou ir em clubes, afirmando que ninguém estava me julgando e que eu poderia “ser eu mesma”. Mas eu estava sendo eu mesma, mas isso não encaixava na percepção do que eles achavam que a cultura queer deveria ser.

Eu tinha expandido minha visão de quem eu poderia ser como mulher muçulmana, mas parecia que o resto do mundo ainda não tinha entendido.

A minha sexualidade como mulher muçulmana sempre seria uma anormalidade, seja dentro dos círculos LGBT ou dentro da minha comunidade sul-asiática. Eu tinha decidido tomar o poder e usá-los, armá-la para aumentar a visibilidade de pessoas como eu, apesar de sempre existirmos.

Organizações como a Hidayah, Imaan LGBTQI e Naz and Matt Foundation tem trabalhado por anos para atacar a percepção de muçulmanos queer. E eu sempre fiz com que a minha missão fosse de desmantelar esses preconceitos.

Como a ativista lésbica negra Audre Lorde disse: “Sobrevivência não é uma habilidade aprendida na escola. É aprender a se manter de pé sozinha, impopular e algumas vezes insultada, e como fazer disso uma causa com aqueles que se encontram fora da estrutura de maneira a definir e buscar um mundo onde todos nós possamos florescer”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Too queer to be Muslim, too Muslim to be queer

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