O que é “Taiwan Perversa”? Uma entrevista com Howard Chiang

Tradução do texto de Jane Tien, Tiffany Kao e Daigengna Duoer originalmente postada no The Taiwan Gazette.

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A comunidade LGBT de Taiwan ganhou a atenção internacional no ano passado: Taipei recebeu a maior parada do orgulho da Ásia, o premier de Taiwan designou uma pessoa trans para um cargo no gabinete, e a suprema corte decidiu em favor da criação de uma legislação do casamento igualitário.

Isso tornou o novo livro de Howard Chiang “Taiwan Perversa” (Ainda inédito no Brasil) ainda mais relevante para o momento. O livro é uma coleção de ensaios escritos a partir de uma perspectiva interdisciplinar, e detalha a ascensão e transformação da cultura queer de Taiwan nos últimos 70 anos.

A Gazette teve a chance de se reunir com Chiang, que compartilhou as suas visões sobre as questões LGBT de Taiwan, e conversou sobre a sua inspiração para escrever e compilar “Taiwan Perversa”.

Gazzette: O que te inspirou a escrever e compilar “Taiwan Perversa”? Você poderia comentar sobre a escolha do título?

Chiang: “Taiwan Perversa” surgiu de uma colaboração com um amigos meu, Wang Ying (王穎), que leciona na Universidade Nacional Cheng Kung, e é a primeira antologia desse gênero ao mostrar uma nova onda de pesquisadores que estão se assumindo dentro desse campo, e buscam uma leitura inter-disciplinar.

O volume inclui o trabalho de pesquisadores como Chi Ta-wei (紀大偉), que também é um autor queer. Outra pesquisadora é Hu Yu-ying (胡郁盈), que originalmente trabalhava com estudo de gêneros, mas está tendo treinamento em sociologia. Nós também temos um psicólogo especializado em performance musical envolvido no livro. Então ele demonstra um amplo ramo de abordagens, e eu acho que isso é importante para conseguir capturar um panorama de como o campo está atualmente.

Eu também não queria chamar a coletânea de “Queer Taiwan”, porque já existem outros pesquisadores que já começaram a dividir o mapa da Ásia. Existe um volume sobre Queer Cingapura, Queer Bangkok, etc. Existem muitos “Queer alguma coisa”. Quando eu falei sobre essa minha preocupação com Wang Yin, nós decidimos que o nome precisava ser diferente. “Taiwan Perversa” foi uma boa maneira de apontar o que estávamos fazendo, mas também não nos conformarmos com a crescente multiplicação de livros sobre estudos regionais queer.

A palavra “perversa” também é interessante porque funciona da mesma maneira que “queer”. A palavra “queer” pode ser consideradamente de maneira genérica como algo estranho ou fora da norma, enquanto que “perversa” sugere que algo está doente. Ela tem uma carga de vergonha acoplada no conceito. Ao mesmo tempo, nós sentimos que ela é na realidade um bom ponto de transição para discutir não somente a dimensão efetiva da comunidade queer e de suas experiências em Taiwan, mas também sua relação com diferentes campos dos estudos queer e dos estudos taiwaneses.

Por exemplo, os estudos taiwaneses são um campo dominado por cientistas sociais e pesquisadores de literatura. No livro “Taiwan Perversa”, nós primeiro estabelecemos uma relação com Taiwan como um objeto de estudo e essas diferentes abordagens como o método de pesquisa, tornando-o naturalmente plural e múltiplo. Então “perversa” carrega essa conotação também. Você também irá ver que muitos contribuidores são de Taiwan. Eu achei muito importante que o trabalho fosse publicado em língua inglesa para que fosse acessível para não falantes de mandarim.

G: Quando falamos sobre a aceitação de diversos tipos de identidades de gênero na Ásia, qual o posicionamento de Taiwan? Taiwan é mais progressiva?

C: Com esse tipo de pergunta aparecem certos tipos de pressuposições porque agora nós estamos separando Taiwan de uma grande região que podemos chamar de Leste Asiático, ou Ásia. Eu acredito que existem paralelos e promessas nessa afirmação. Esse tipo de questionamento também cruza com o exemplo do casamento igualitário que nós iremos voltar a discutir depois.

Antes de mais nada, a ideia de “progressividade” é na realidade algo que alguns pesquisadores tem tentado problematizar. Então, mesmo que nós vejamos um certo grau de abertura e flexibilidade dentro de Taiwan quando o tema são minorias de gênero e minorias sexuais, nós também sabemos que o estado é muito fechado ao lidar com outros assuntos e grupos marginalizados.

Então, eu pensei sobre o papel que trabalhadores do sexo interpretam nessa dinâmica, usuários de drogas, travestis, a comunidade fetichista, e assim em diante. Quando nós tentamos normalizar gays e lésbicas, ao mesmo tempo, existe uma tendência de marginalizar ainda mais outros grupos marginalizados. Existe um perigo nisso. Eu penso que em comparação com outras partes da Ásia, Taiwan é mais progressiva. Mas as suas políticas neoliberais algumas vezes fortalecem um certo tipo de opressão implícita em outros sujeitos mais marginalizados.

De volta ao exemplo do casamento igualitário. Legalizar o casamento igualitário é um tópico fortemente debatido dentro da comunidade de estudos queer, e dentro até mesmo da comunidade queer. É algo que realmente queremos, e quais são as implicações? O casamento igualitário realmente é um marco na determinação se uma nação é sexualmente progressiva ou não? Se você está abrindo o casamento para gays e lésbicas, você não está tentando normalizá-los de alguma forma?

É compreensível porque algumas pessoas tem ressalvas sobre o tipo de respeitabilidade e tons morais que nós tendemos a colocar sobre a instituição matrimonial.

Eu acredito que alguns dos nossos amigos da comunidade LGBT iriam sugerir que “sim, isso é exatamente o que queremos, nós queremos ser considerados normais”. Então eu sempre tive um sentimento ambíguo sobre isso.

O meu posicionamento sobre o casamento igualitário sempre flutuou dependendo do público com quem estou falando. Se são aqueles grupos religiosos ultra-conservadores que tem motivações retrógradas de porque o casamento homoafetivo não pode ser legalizado, então eu sou totalmente a favor de usar o casamento como forma de subverter o status quo.  Mas se eu estou conversando, por exemplo, com a comunidade queer, que argumenta que o casamento igualitário é uma batalha a ser lutada porque ela irá ajudar a comunidade LGBT a ser mais respeitável, moral, e normal, então eu tenho algumas problematizações a respeito disso. Se você parar para pensar, o que o reconhecimento estatal irá trazer para você? De um lado, ele te oferece algum tipo de reconhecimento e direitos legais acoplados, mas é também possível conseguir esses direitos de outras formas.

Foi muito interessante quando Taiwan propôs a ideia de uma “estrutura familiar diversificada” (多元成家) em 2013. Uma estrutura de família diversificada realmente nos direciona a noção de família e talvez de relacionamento do que o próprio casamento. Então de alguma forma, eu acredito que existem muitos potenciais radicais que foram completamente perdidos, ou reduzidos, para o que falamos sobre a questão do casamento homoafetivo.

Eu trouxe isso porque, se Taiwan legalizar o casamento igualitário ou se tornar a primeira a nação ou estado do Leste Asiático a legalizar o casamento homoafetivo, o que isso implicará? Eu acho que isso tem tanto consequências positivas como negativas e na realidade eu acho que as consequências negativas não recebem tanta visibilidade como eu gostaria de ver.

G: Que tipo de consequências negativas você pode pensar que podem surgir?

C: Por exemplo, eu consigo pensar em pessoas dentro da comunidade queer que não querem formar um relacionamento monógamo sancionado pelo estado. Então, para essas pessoas, isso significa que os direitos delas estão fora de cogitação, porque eles somente conseguirão reconhecimento legal se participarem desses rituais matrimoniais.

Nós podemos pensar que isso é só uma questão de opinião, de dar para as pessoas que querem se casar a opção de conseguir isso. Mas o que não estamos vendo, é que ela implicitamente impõe um certo tipo de mentalidade. Uma mentalidade que diz que pessoas que se casam, são melhores. Ou no mínimo, elas tem mais direitos do que aqueles que não se casam. Então nessa questão, eu sou muito hesitante. Existe  um potencial de marginalizar ainda mais pessoas que não vem o casamento como a meta final de conquistas.

G: Essa é uma perspectiva interessante. Muitas pessoas em Taiwan são muito positivas a respeito dessa lei. Nós não escutamos sobre a comunidade LGBT de Taiwan recusando essa legislação por medo de marginalização.

C: Sim, ela cria uma certa hierarquia entre grupos marginalizados. Eu queria tocar nesse assunto e problematizá-lo. Mas isso significa que Taiwan é “progressiva”? Isso significa que Taiwan é um lugar melhor para pessoas queer do que outros? Eu acho que isso é contestável.

Eu sou totalmente a favor do casamento igualitário se os envolvidos nessa instituição a reconhecem como um efeito moralizante e normalizante, e reconheçam que existam outros tipos de desejos que precisam ser respeitados também. Espero que pessoas participem de uma maneira que transforme a tradição e as instituições existentes, sem ter que se conformar ou assimilar a heteronormatividade.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): What Is “Perverse Taiwan”? An Interview With Howard Chiang

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