Essa artista filipina captura vulnerabilidade em quartos e banheiros

Tradução do texto de Chris Thomas originalmente postado na Out.

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“Sempre foi sobre o rosto”

Telefonando de sua casa em Manila, Regine David tentava explicar a sua abordagem de fotografia. “O corpo e as roupas são secundárias. Eu sempre estive interessada na emoção que eles podem dar”. É uma abordagem que serviu para a artista filipina desde que começou a compartilhar o seu trabalho nas redes sociais.

As fotos que ela criou nos últimos anos são ao mesmo tempo voyeuristas e vulneráveis; seus objetos despidos olhando para a câmera dentro de banheiras e quartos de hotéis. Não é de assustar que, durante a nossa conversa, nomes como Steven Klein e Matt Lambert apareceram como influências. Esses fotógrafos também desenvolveram um olho para capturar a vulnerabilidade emocional, mas a jornada de David seguiu um caminho diferente.

Depois de ter crescido nas Filipinas, ela abandonou o país conservador e católico para entrar na Escola de Arte e Design de Savannah. Estudando fotografia, ela começou a viajar de Hong Kong para a França e para Nova York, usando os campi da escola para expandir o seu trabalho. Depois de se formar, ela se mudou permanentemente para Nova York, trabalhando para a Dazed e Urban Outfitter até a Apple e Vogue Hommes.

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James-Marlon

Foi nessa cidade, longe da “superficial beleza comercial” das Filipinas, que ela encontrou um grupo de amigos para experimentar sobre auto-imagem e sexualidade incentivando a ela encontrar a vulnerabilidade de seus fotografados. “Começou como um monte de seções teste”, ela se lembra. “É a personalidade que importa para mim. Um menino bonito não é nada se ele não tem personalidade”.

Dois anos atrás, David se mudou do ritmo alucinante da cidade para voltar para as Filipinas e se fixar em Manila. Ela foi testemunha do crescimento da comunidade queer da cidade, e também, que culminou com a exposição intitulada “Swoon”, na galeria Tarzeer Pictures. Escolhida como uma dos oito fotógrafos filipinos a mostrarem o seu trabalho na casa, o retrato cru de David conseguiu sair da internet até as paredes da galeria.

Nós conversamos com ela sobre as suas imagens favoritas, o clima criativo de Manila e sobre lágrimas de crocodilos.

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Mackenzie. 

OUT: Você participou de uma nova exibição na Tarzeer Pictures chamada “Swoon” em Manila. Como você se envolveu com isso?

Regina David: Tarzeer Pictures é uma casa de produção nova nas Filipinas, e muitos dos envolvidos costumavam trabalhar nos Estados Unidos. Um deles, Dinesh Mohnani, trabalhava na MATTE Projects e ele decidiu fazer algo parecido nas Filipinas.

É muito legal porque nós não temos uma comunidade de fotógrafos fortes aqui e ter o nosso trabalho exibido nesse contexto é muito impressionante. Ninguém tinha os patrocínios ou a apreciação para esse tipo de trabalho. Nós tivemos essa oportunidade e foi uma grande transformação. Algumas pessoas, me incluindo, vendemos alguns de nossos trabalhos, o que é algo incrível. Eu não esperava que o meu trabalho vendesse aqui nas Filipinas.

OUT: Como é o clima criativa aí nesse momento?

RD: Assim como qualquer outra comunidade criativa, é difícil. É muito mais dura comparada com lugares como os Estados Unidos, ou Europa ou até mesmo o Japão. Nós temos muitos artistas frustrados – eu mesma incluída. Essa galeria é uma porta importante para nós mostrarmos o nosso trabalho pessoal que poderia ser visto por qualquer um. É um ponto de mudança para muitos de nós.

OUT: Você acha que as pessoas tendem a ignorar artistas asiáticos na cultura ocidental?

RD: Eu diria que sim. Eu percebi em diversas exibições e exposições que somos ignorados. Eu me considero uma artista queer asiática e toda vez que eu vejo uma lista de mulheres fotógrafas ou até mesmo de fotógrafos, nós não temos muita exposição. Não mudava muito eu estar trabalhando em Nova York ou fora de lá. Nós não recebemos muita atenção – ou se recebemos é porque está focada somente em cultura asiática. Nós podemos trabalhar sem obrigatoriamente estar sob a influência asiática.

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Dane.

OUT: Como é o cenário queer em Manila e nas Filipinas?

RD: É mais excitante agora do que costumava ser. Aceitação queer não era muito forte quando eu estava crescendo. Nós finalmente temos publicações que focam na comunidade LGBT e temos projetos de lei que apoiam os direitos LGBT, que são direitos que ainda estamos lutando para conseguir. Sim, ainda existem problemas, mas ao mesmo tempo, nós estamos tendo muito mais visibilidade.

OUT: Há quanto tempo você está em Manila?

RD: Eu me mudei para cá em maio de 2016. Eu cresci nas Filipinas mas me mudei para estudar na Escola de Arte e Design de Savanna em 2010. Nós tínhamos campi ao redor do mundo então eu me mudei várias vezes e morei em Hong Kong, Georgia, França e Nova York. Eu tinha uma bolsa de estudos então era muito fácil fazer isso – eu não iria conseguir fazer isso sem a bolsa. Quando eu me mudei de volta pra cá com certeza foi um choque cultural.

OUT: Conte-me mais sobre as pessoas nas fotos. Como você os escolheu para fotografar?

RD:  Eu comecei com várias seções de fotografia. É a personalidade que conta para mim. Um menino bonito não é nada se ele não tem personalidade. A maioria deles eram pessoas que eu já havia fotografado uma ou duas vezes e então nos tornamos muito amigos. Pessoas como Dane Bell, eu fotografei uma vez e então nós nos tornamos bons amigos, especialmente quando nos reconectamos em Tóquio. Eu amo ele. Ele é o melhor.

A maioria eram pessoas com quem eu já tinha trabalhado, e por isso já tínhamos uma boa relação e decidimos fazer um trabalho mais íntimo fota do contexto da moda ou do contexto de trabalho.

OUT: A foto de Turner na banheira se tornou uma das suas imagens mais famosas. Como você chegou até essa foto?

RD: Eu já fotografei Turner nos últimos dois anos. A maioria dessas fotos foram somente comigo e o modelo. Então, para essa seção, eu não havia visto ele ou meu amigo August há anos. Essa foto foi tirada em Tóquio no ano passado e nós compramos uma garrafa de vinho e estávamos nos divertindo. Tocamos algumas músicas. Era um ambiente tão sem controles que nós decidimos retirar essas fotos. Não havia ninguém ditando como as coisas deveriam ser feitas.

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Turner.

OUT: Existe algum artista ou fotógrafo que te fez querer estudar essa foma de arte quando você era mais nova?

RD: Eu não consigo pensar em nenhum agora. Existem diversas pessoas que eu realmente admiro mas isso muda conforme a época da minha vida. Tinha um tempo que eu realmente me sentia apaixonada pelo trabalho de Steven Klein e Robert Mapplethorpe. Você não vê esse tipo de trabalho nas minhas fotos mas a inspiração está lá. E, com certeza, existe muita influência contemporânea como Matt Lambert que eu admiro muito.

Eu fotografei muitos homens porque eu cresci em um país católico conservador, então os homens estavavm sempre em um padrão de beleza comercial, mas quando eu fui para Nova York, onde as pessoas são mais abertas sobre quem são e sobre as suas sexualidades. Foi isso que me incentivou a fotografar pessoas que são muito mais vulneráveis.

OUT: As suas fotos parecem uma espiada entre portas fechadas. Nós vemos esses meninos de uma maneira que eles querem ser vistos, mas que não podem se expressar em público.

RD: Sim, Eu sempre considerei como eles iriam se sentir com essas imagens. Você sabe como muitos fotógrafos são egoístas e querem uma imagem específica? Existe muito controle na maneira como eles são fotografados. Essa é a maneira que Ren Hang costumava fotografar. Ele posicionava os modelos de uma maneira que eles fossem a sua tela.

Para mim, eu sempre tentei conhecer a pessoa antes de fotografá-la. Quando eu tirava as fotos, nós tirávamos uma hora para tomar café e conversar. Ainda é a minha projeção mas eu quero que apareça a personalidade deles no trabalho.

OUT: Sim, senão você poderia estar fotografando qualquer pessoa para as mesmas imagens.

RD: Exatamente.

OUT: Você tem um jeito específico de fotografar. Você tem algumas linhas guias que você tenta seguir?

RD: Sempre foi sobre o rosto. O corpo e as roupas são secundárias. Eu sempre me interessei pelas emoções que ele pode me dar. Eu amo como essa vulnerabilidade e vê-los confortáveis em sua sexualidade e identidade de gênero.

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Vin.

Out: Tenho curiosidade de saber se você se sente pressionada em criar novos trabalhos dada a velocidade que a sociedade tem tomado com as redes sociais e a internet.

RD: Eu costumava. Quando eu estava em Nova York, sim, absolutamente. Tinham tantas coisas acontecendo e eu tinha certeza que você se sentiu a mesma coisa quando morava lá. Se você não fotografasse ou não saia, você estava sendo deixado para trás. Essa ansiedade estava em todos os lugares, mas agora que eu moro aqui, a pressão não é mais forte e eu já me acostumei com isso.

Como as Filipinas não são necessariamente o lugar mais aberto do mundo, eu acho bastante difícil encontrar pessoas que aceitam ser fotografadas da mesma maneira que eu encontrei em Nova York. Com certeza existem pessoas incríveis que eu encontrei aqui mas elas eram poucas. O que eu faço muito aqui é simplesmente existir e trabalhar e ficar em casa assistindo Netflix, então quando eu viajo, é quando eu realmente fotografo milhões de coisas. Eu tenho um arquivo enorme de trabalhos que eu ainda não postei que eu irei publicar quando fo a hora certa.

OUT: É muito diferente morar em lugares como Nova York e depois se mudar para outro lugar como Manila ou Berlim. Você percebe que a pressão é insana e não é saudável para o ambiente artístico, especialmente se você se sente competindo com todos.

RD: Eu não quero sentir essa pressão de ter terminado algo e ela ter que ser divulgada imediatamente. Eu quero poder ter o meu próprio tempo para reavaliar o meu trabalho e ver o que eu gosto nele. Esse é o tipo de liberdade que você pode ter em lugares fora de Nova York.

OUT: Você tem alguma imagem favorita que tenha tirado?

RD: Ai meu Deus, isso é muito difícil. Isso sempre muda. Eu adoro a imagem de Reid chorando. É uma das fotografias em close-up. Eu estava fazendo a série de lágrimas por cinco anos e eu sempre achei engraçado fazer lágrimas de crocodilos. É essa fantástica lágrima exagerada. Ela tem uma proposta dupla – ela parece gozo para mim. Eu amo essa.

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Reid.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): This Filipino Artist is Capturing Raw Vulnerability in Bedrooms & Bathtubs

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