Ativista Gopi Shankar fala sobre bullying e seu trabalho de conscientização

Tradução do texto de Jayati Godhawat originalmente postado no Indian Woman Blog.

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Ao nos referirmos à comunidade LGBT, o real problema reside em falharmos na compreensão das diferenças entre sexo, gênero e sexualidade, conta Gopi Shankar, fundadore do Srishti Madurai.

Srishti Madurai é um coletivo que explora as inter-relações entre natureza, humanos e sociedade para celebrar todas as formas  de vida. Estão envolvidas pessoas de diversas origens, incluindo ativistas de direitos humanos, pesquisadores independentes e ativistas LGBT.

“Nós determinamos o sexo dos bebês baseado em suas genitálias e órgãos reprodutivos, mas isso não é um reflexo da identidade de gênero ou orientação sexual deles” ile conta para o Indian Woman Blog (IWB) (Como Gopi não quer conformar a sua identidade a um certo gênero, ile prefere um pronome de gênero neutro).

Pessoa intersexual, Gopi foi criade como um menino e começou a entender a diferença entre seu corpo e sua identidade da perspectiva não binária de gênero quando tinha sete ou oito anos de idade.

“Muitas crianças que nascem intersexuais passam por uma cirurgia de seleção sexual, o que viola os direitos humanos já que só passaram alguns anos desde a criança perceber que ela é diferente”, diz Gopi.

Ile conta que a primeira batalha é a auto-aceitação.

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“Eu passei por muita dor e trauma porque mesmo eu entendendo que eu era diferente dos outros, eu não conseguia compreender os meus sentimentos. Alguns dos meus primos faziam bullying comigo e ficavam perguntando como meus órgãos reprodutores eram. Na ‘desculpa’ de estarem só brincando, eles abusaram sexualmente de mim”, compartilha Gopi.

“Com 13 anos, eu comecei a me voluntariar na Missão Ramakrishna. Era um espaço bastante liberal que abraçava qualquer indivíduo além da sua religião, casta, ou qualquer outra construção social. Foi o começo da minha aprendizagem. Eu diria que foi durante o meu trabalho na Missão Ramakrishna que eu ganhei coragem para me aceitar. Depois, eu também comecei a praticar o treinamento para me tornar um monge. Porém, eu percebi que eu não me sentia atraído por mulheres, mas por um tipo particular de homens”, ile conta.

“Eu decidi me explorar e a minha verdadeira identidade. Por isso, eu pedi uma permissão escrita do presidente da organização para me afastar da prática”, continua Gopi.

Foi um psiquiatra ocidental que ajudou ile a entender o significado de gênero-fluido.

“Eu questionei o centro de todas as normas sociais que restringem uma pessoa dentro de um único quadro. Infelizmente, nós moramos em um mundo onde nós gostamos de etiquetas e tudo deve encaixar na nossa categorização. Existem muitas formas de vida que nos rodeiam, mas, ao invés de celebrá-las, nós corremos atrás de dinheiro, fama e poder”.

Relembrando a sua relação com sua avó materna, Gopi conta que “Quando minha própria família, primos, parentes e amigos faziam bullying e me humilhavam, era o apoio incondicional da minha avó que me dava confiança e coragem. Ela me dizia que ‘você é meu sangue, e nada importa. Independente de quem você seja, apenas seja. Nós todos somos diferentes um dos outros e o que realmente importa, no final, é quantas vidas você inspirou antes de morrer”.

Foi em 2011 que Gopi começou o Srishti Madurai com o objetivo de educar crianças sobre os seus corpos em cidades não metropolitanas e zonas rurais.

“Nós ensinamos às crianças sobre ciência espacial, vida além da terra, onde fica a América, etc. Mas não ensinamos para elas sobre os seus corpos” ile conta.

Porém, ser contra a comercialização de trabalhos sociais, ile não queria trabalhar em uma ONG. Começando com o dinheiro que ile juntou ensinando Yoga nos últimos 17 anos, ile começou a oferecer oficinas em escolas.

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“Nós começamos explicando sobre ciência dos nossos corpos. Existem mais de 58 identidades de gênero e começamos a explicar isso para os estudantes. Nós até mesmo criamos nomes regionais para a sigla LGBT em Tamil já que não existem palavras para traduzir a sigla nessas línguas. De ciência até religião, estruturas sociais, roupas, cores e outros temas. Nós também mostramos um power point explicando cada um dos conceitos que estamos apresentando” explica Gopi.

“Você já sofreu alguma aversão vinda da administração escolar?” Eu perguntei.

“Inicialmente, muitas escolas nos barraram. Nós eramos novos e as pessoas não acreditavam em nós. Mas, hoje nós temos uma boa rede e influências” ile responde.

Influencias?” Eu perguntei.

“Nós temos fortes conexões com políticos que apoiam a nossa visão, se uma escola particular não parece compreender o nosso trabalho, nós usamos o nosso poder para alcançar essas escolas” explica Gopi.

Eu fiquei um pouco surpresa com a maneira como ile falou de usar o poder para conseguir o que desejam, e observando a minha reação, Gopi explica “Eu acredito que nós precisamos usar as nossas influencias e poder para coisas boas. Nós não estamos preocupados com o que o diretor pensa sobre nós, nós estamos incomodados com as crianças da escola e o direito delas de saber mais sobre o próprio corpo”.

Srishti Madurai já alcançou mais de 30.000 crianças em Madurai e Gopi orgulhosamente me conta que a iniciativa que começou em esquinas hoje alcança o mundo todo.

“Ela começou sem nenhum apoio financeiro em 2011, nós procuramos o Parlamento Indiano onde eu falei sobre direitos LGBT em Rajya Sabha. Em 2016, eu ganhei o prêmio da Commonwealth por meu ativismo e em 2017 já falei no World Pride em Madri na Espanha”, ile conta.

World Pride é uma das maiores reuniões LGBT reunindo milhões de pessoas de todo o mundo em uma iniciativa conjunta da União Européia e das Nações Unidas, complementa Gopi.

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“Nós somos um dos maiores coletivos LGBT da Índia e muitas pessoas começaram as suas atividades no Sristi Madurai e hoje contribuem para a comunidade na sua própria maneira”.

“As pessoas não precisam de dinheiro, mas, somente o coração para ajudar os outros. E, eu tenho a linguagem, a voz, e o coração e eu devo sempre estar do lado da justiça” ile fala apaixonadamente e isso aquece meu coração ficando sem palavras por um minuto ou dois.

Srishti Madurai também trabalha com uma linha 24 horas de aconselhamento para membros da comunidade em necessidade. Eles também oferecem fontes, materiais de pesquisa e literatura LGBT.

“As pessoas interessadas em saber sobre a comunidade e o movimento dos direitos LGBT na Índia, e a literatura disponível sobre o tema, são bem vindas para ir até Madurai e adquirir um estágio na Srishti Madurai” contou Gopi.

Ile também contou que escrevia artigos de pesquisa sobre diversas questões LGBT e um dos artigos dile foi publicado na Universidade da Virginia como parte do currículo. Gopi também escreveu o Maraikappata Pakkangal, que significa Páginas Escondidas, o primeiro livro sobre variantes de gênero em Tamil, para conscientizar a comunidade sobre questões LGBT.

“Eu também estou trabalhando em um livro sobre a comunidade LGBT que possa servir para toda a comunidade indiana já que nenhum trabalho ainda está disponível. Você ainda pode encontrar alguns trabalhos descrevendo parte da comunidade LGBT em línguas regionais, mas eles não refletem a realidade de toda a comunidade indiana”, ile compartilha.

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Gopi fala um pouco da discriminação que ile enfrentou dentro da comunidade LGBT, “Eu sofri bullying de Hijras em um evento nacional de direitos LGBT quando eu fui requisitado que retirasse a minha calça para provar a minha identidade. É muito doloroso ver diferentes grupos dentro da nossa comunidade não conseguirem entender que existem sub-grupos dentro da nossa comunidade. Se nós não aceitarmos e abraçarmos uns aos outros pelo que somos, como esperamos que os outros nos aceitem”.

Gopi também aponta para que questões de gêneros e direitos LGBT não sejam politizados.

“Outro problema que eu enfrentei e observei é o fato de pessoas categorizarem alguns partidos políticos como não apoiadores dos nossos direitos. Isso não é verdade. Poucos políticos não apoiam os direitos LGBT mas isso não significa que todo o partido é contra. Para conseguirmos espalhar a nossa mensagem, precisamos trabalhar juntos e para sermos capazes de fazer isso não podemos politizar a questão e focar no trabalho de adquirir os nossos direitos e espalhar conscientização”.

No final, Gopi conclui essa conversa com o seu maior desejo na vida.

“Eu me inspiro e me celebro através da compreensão do meu corpo e dos meus sentimentos. Porém, eu sempre desejei ter nascido como uma mulher, ter filhos e abraçar a maternidade”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Activist Gopi Shankar On Ruthless Bullying Within The LGBTQ+ Community

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