Reflexões sobre corpos, fronteiras e bactérias durante o evento Queer Asia de 2018

Tradução do texto de Heather Jaber originalmente postado no Queer Asia.

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O trabalho que mais me inspirou cria conexões inconvencionais entre contexto social, períodos históricos, e diversas disciplinas. O trabalho de William Connolly (2008), por exemplo, encontra paralelos entre discursos de evangelistas e o capitalismo estados-unidense. The Security Archipelago (2013) de Paul Amar olha para o Cairo e para o Rio de Janeiro e encontra discursos de segurança semelhantes que se impõe sobre sujeitos marcados por gênero e classe. Donovan Schaefer (2018) explora a afetividade do secularismo, complicando a divisão que existe entre o fervor religioso e o desapego científico.

Minha experiência no Queer Asia 2018 provocou questionamentos similares. Durante o painel de abertura, Geeta Patel fez isso ao trazer a noção de bactéria dentro da conferência cujo tema era corpos e fronteiras. Evocando as bio-políticas de Foucault, ela questionou como transformamos sujeira em limpeza e exterminamos, usando não somente a linguagem, mas literalmente. Ela se referia a uma visita a um hospital onde as conexões se tornaram mais ressonantes, discutindo o mecanismo automático e as lógicas que nos tornou em uma pomada bactericida que remove as bacterias ruins e apoia as boas.

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Essa metáfora de enfermeiras compulsivamente desinfetando as suas mãos se tornou uma representação do cotidiano dos projetos políticos. Patel também lembrou ao público que a palavra “normativa” é um termo estático, e encorajou que nós pensemos sobre o que significa usar esse temo como descritor. Eu acredito que a experiência de Patel como cientista parcialmente provocou esse tipo de metáforas que conectam linhas tridimensionais em quadros que imaginamos separados. Isso me lembrou da orientação curiosa e graciosa de Eve Sedgwick, cujo trabalho sobre afeto teve grandes contribuições para a teoria queer.

Essa metáfora de enfermeiras compulsivamente desinfetando as suas mãos se tornou uma representação do cotidiano dos projetos políticos.

A teoria do afeto, para mim, se tornou uma maneira de falar sobre, como apontado por Deborah Gould,  o que é “normalmente experimentado durante os primeiros anos de contato semântico”. Schaefer também apontou que “o projeto da teoria do afeto é questionar a extremamente fechada relação entre linguagem e poder”. É uma maneira de pensar sobre isso que é ligada à cognição e linguagem, mas que não temos ainda palavras precisas para isso.

Eve Sedgwick foi inspirada pelo trabalho do psicólogo (e por uma curiosidade interdisciplinar) Silvan Tomkins que escreveu dentro de um leque de disciplinas para formar a sua teoria do afeto e posteriormente a sua tese. Na Universidade da Pensilvânia, ele estudou roteiro, psicologia e filosofia, e realizou uma série de experimentos sobre expressões faciais que deixariam as humanidades e as ciências sociais de hoje completamente intrigadas. Mas o que ele produziu desse experimentos foi uma ideia libertadora. Ao invés de uma infinidade de afetos, ou algum tipo de estados binários como afeto/não-afeto, seus experimentos o levaram a formar uma estrutura de nove afetos.

Sedgwick depois pegou esse trabalho e o usou para intervir em uma época onde as tradições das humanidades estavam questionando se as ciências poderiam realmente fazer o que prometiam. Ela levantou uma bandeira branca a respeito dos que precederam ela e questionou o que aconteceria se todas as perspectivas se encontrassem. Colocando de lado se realmente existiam nove afetos (ou mais, ou menos), Sedgwick defendeu a habilidade de pensar entre o infinito e o binário, tornando-o um importante componente não só da teoria queer, mas para todas as outras disciplinas.

Ela entendeu o quão difícil é “despensar” um binarismo paralizado (liberdade/opressão, hegemonia/contra-hegemonia, público/privado, normativo/não-normativo) e sugeriu que nós entremos em outras disciplinas para ver o que é possível encontrar. Isso foi o que ela chamou de operar dentro das categorias médias de ação – existindo em um espaço onde existe menos conhecimento ou declarações de certezas, e até mesmo os desafiando. Parece algo simples, mas o que isso fez foi nos dar algo palpável com o que trabalhar. Ter um número finito de elementos, mas ainda mais do que um botão de liga/desliga, nos deslocou da paralisia que comumente encontramos quando pensamos sobre poder, especialmente nos tempos contemporâneos. Eu acredito que isso pode aliviar o que sentimos como paralisia hoje.

Isso é algo que eu pensei sobre o meu próprio trabalho durante a conferência. Antes do meu painel, eu entrei em uma discussão sobre a minha pesquisa sobre as repressões que rodeavam a banda libanesa Mashrou Leila no Egito e na Jordânia nos últimos anos. A banda tem sido proibida de performar nesses espaços devido controvérsias e um pânico em sima da sexualidade do vocalista (que é abertamente queer). Eu estava curiosa não somente como a banda tem sido celebrada pelos meios de comunicação ocidental como revolucionária, ao mesmo tempo que eles são barrados em diversos espaços do mundo árabe. Eu observava não somente como o discurso dominante no Egito e na Jordânia construíam a homossexualidade como inautêntica na região (porque essa não é uma narrativa nova), mas como ela tem se tornado uma questão de segurança nacional. Ao mesmo tempo, esses corpos minoritários tem sido saudados como um símbolo de orgulho na região, mas também provocadores de ansiedade, ambos com conexões ao universo “global”.

Eu estava curiosa não somente como a banda tem sido celebrada pelos meios de comunicação ocidental como revolucionária, ao mesmo tempo que eles são barrados em diversos espaços do mundo árabe.

Um dos participantes perguntou se essas pessoas na comunidade egípcia se identificam como queer ou homossexuais. Ou se eles se identificam de outra forma? Questionamentos sobre linguagem são extremamente importantes, e são especialmente críticas para entender as nuances da formação de identidades particulares e os efeitos materiais que eles tem sobre a maneira que nós vivemos e experienciamos o mundo. Mas pensando em como responder, eu também pensei no que Chris Nickell chamou de “o absurdo de falar por (e para) uma região inteira sendo o sujeito alvo e aquele que descreve” (p.9). Ele estava se referindo à fala do vocalista da Mashrou Leila, Hamed Sinno, fez durante um concerto nos estados unidos depois do tiroteio no clube Pulse de Orlando, quando ele chamou a atenção sobre a impossibilidade de pessoas marginalizadas ocuparem espaços: “Isso é a aparência de um terrorista e de um viado”.

“Isso é a aparência de um terrorista e de um viado” – Hamed Sinno

Eu hoje percebo porque os meus questionamentos iniciais de que um espaço queer estaria se abrindo através da globalização dessa banda e dos locais onde eles estavam performando era algo que eu me sentia confortável em responder, e que eu não estava realmente responder. O que significaria eu dizer sim ou não? Talvez seja uma questão importante para alguém responder, mas dizer que egípcios autenticamente se identificam usando palavras como queer, homossexual, gay ou mithaliyin, ou se esses espaços são queer ou não, me parece cair em uma armadilha que eu estou tentando evitar.

Ao reconhecer as disparidades e os desiquilíbrios de poder intensificados pelo colonialismo, a teoria pós-colonial nos deu ferramentas vitais para nominar essas dinâmicas e tentar destacar, entender, reverter, arquivar, lutar, e superar elas. E enquanto é importante reconhecer esses diferenciais, é ainda mais importante que nós não as reafirmemos. Eu penso aqui em um trabalho que, na sua busca de desvendar os legados, termine com as construções de colonial e colonizado como parte de um binarismo global/local, autêntico/inautêntico, através do qual todos que se identificam dentro de coletividades mais amplas sofram com a possibilidade de serem classificados como estrangeiros, desviantes, ou o resultado de projetos imperialistas. Observando a recente opressão na região árabe, eu me lembro que existe uma grande violência associada com esse tipo de postura.

Então, enquanto estamos examinando essas disparidades, nós podemos ao mesmo tempo reconhecer nossas convergências, realidades compartilhadas, e as interconexões dentro do fenômeno global que estamos vivendo. Eu estou pensando no recente trabalho de Marwan Kraidy que chama a atenção para essas interconexões, e eu adicionaria que talvez seja na atenção dos afetos que conseguiremos realizar isso. Existem outras maneiras de processar conhecimento daquilo que consideramos importantes, e eu acho que elas podem ser descobertas através do intercambio de conhecimento entre historiadores, estaticistas, roteiristas, neurocientistas, economistas,  psicólogos, artistas, e outras teorias e práticas.

Para todos nós que nos encontramos em algum lugar entre as humanidades e as ciências sociais, eu diria que isso talvez seja o lugar mais produtivo que nós podemos estar agora. Como Schaefer apontou, nós iriamos bem considerando a maneira como a produção de conhecimento está, não só para acadêmicos, mas no nosso dia a dia como humanos. Eu ainda não tenho uma resposta sólida do que isso significa para a minha pesquisa, ou quais lugares não convencionais eu acabe indo, mas imagino que isso é algo que levará tempo e esforço para cultivar. E muita curiosidade.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Feelings for knowledge: Reflecting on Bodies, Bordersm and Bacteria at Queer Asia 2018

Curadora Rhea Tuli fala sobre a exposição “Corpos x Fronteiras” realizada em 2018

Recapitulando: Como foi o Dia Contra a LGBTfobia de 2018 ao redor da Ásia

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