“Esse é o novo Camboja, inclusivo, compassivo e corajoso” – A trupe gay de dança clássica Apsara

Tradução do texto de Marissa Carruthers originalmente postado no South China Morning Post.

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Uma silhueta magra aparece no palco. Cabelos pretos enfeitados com brotos de flores formando um arco. Jóias brilham nos pulsos e nos braços, os dedos gentilmente curvam-se para trás em um gesto que é sinônimo da dança clássica cambojana. Os Ching (címbalos de dedos) soam conforme o dançarino começa os movimentos graciosos que uma vez hipnotizaram reis de Angkor.

Essa é uma dança que tem sido performada por mais de mil anos. Uma arte considerada em sua forma mais nobre, performada por mulheres que entretinham a nobreza em Angkor, a antiga cidade templo cambojana. Uma luz foca no dançarino, destacando lábios vermelhos, olhos esfumados, uma coroa de jóias e uma vestimenta de seda.

Conforme a figura flutua pelo palco, algo começa a ficar claro. A faixa de seda jogada sobre o torso nu revela que essa trupe tem tomado a tradição e transformado ela para o mundo moderna. Essa é a primeira companhia de dança gay do Camboja – um grupo de seis jovens que se chamam Prumsodun Ok & Natyarasa, cujos membros estão quebrando barreiras com os seus trabalhos.

“Nós queremos dar uma nova vida para as tradições antigas ao preservar o que nos foi dado e reimaginando essa tradição, criando novos trabalhos, novas vestimentas, novas danças”, diz o líder do grupo, o estados-unidense de ascendência cambojana Prumsodun Ok, ou somente Prum.

“Nesse processo, criamos uma nova face do Camboja; um que vai além do genocídio, além da pobreza e da tragédia. Sim, essa história ainda afeta os khmer, mas isso não tudo o que somos”, ele conta.

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A dança clássica cambojana – também conhecida como dança apsara – é uma das mais respeitadas formas de arte do país, com uma história que começa no século VII. Mais de 1.800 imagens dos dançarinos decoram as paredes do templo de Angkor.

Na cultura Hindu, uma apsara era um espírito feminino das nuvens e da água; uma ninfa celestial que transitava entre o céu e a terra e tão deslumbrante que ela poderia seduzir mortais com a sua beleza. Tradicionalmente, na dança elas são representadas por mulheres e meninas. Prum suspendeu a tradição quando abriu a sua companhia em 2016.

“Existem estudos que mostram que o stress pós-traumático pode ser passado geneticamente”, afirma. “Se o trauma pode ser passado, porque não o conhecimento e amor, beleza, esperança e resiliência? Porque essa não pode ser a narrativa do Camboja?”.

“Quando nós performamos internacionalmente, nós mostramos às pessoas a beleza do Camboja e a resiliência do nosso povo. Esse é o novo Camboja, o futuro do Camboja, e o futuro dele é inclusivo, compassivo e corajoso”.

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Prum nasceu na California de pais cambojanas que fugiram do regime genocida do Khmer Vermelho que governou o país entre 19875 e 1979 onde quase um quarto da população morreu ou foi assassinada. Com quatro anos, ele foi apresentado à dança clássica cambojana quando o seu pai o levou para um templo em Long Beach – lar de uma grande diáspora Khimer – durante um festival.

Cativado pela graça das dançarinas, Prum assistiu videos em casa, colocando os vestidos de sua irmã e começou a imitar a dança. Mas o bullying logo terminou com a sua brincadeira.

“Por 12 anos, eu me afastei da dança porque ela era uma marca da minha feminilidade”, ele conta. “As crianças costumavam me chamar de bixa e coisas desse tipo, então para a minha própria sanidade e segurança eu tive que me proteger”.

Com 16 anos, a sua irmã começou a ter aulas de dança, com Prum assistindo ela por um ano até tomar coragem de se unir a ela. Ele rapidamente se tornou o melhor da classe. “Eu assistia a classe e meu amor pela dança transbordava por todo o meu corpo”, ele conta.

Em 2015, ele recebeu apoio financeiro para desenvolver um trabalho no Camboja chamado Beloved, que se tornou a inspiração para o Prumsodun Ok & Natyarasa. Desejando formar um elenco de homens gays para a peça, baseada em uma lenda do século XIII onde um rei se relaciona amorosamente com uma naga, uma serpente mítica de várias cabeças, Prum abriu um teste de elenco no seu próprio apartamento na capital cambojana, Phnom Penh, que hoje também é o estúdio da companhia.

Ele ficou impressionado com a resposta. Doze homens apareceram, e cinco foram selecionados. Hoje, dois deles ainda continuam na companhia.

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Prum recrutou mais quatro dançarinos, desenhou as roupas e reimaginou a dança tradicional através da coreografia de maneira que tornasse a arte clássica relevante para o Camboja de hoje. Por exemplo, dançarinos deslizam elegantemente através do palco performando os movimentos ao som da música contemporânea Lay Me Down de Sam Smith, poesia experimental, e outros sons que servem de fundo para a lenda khmer. Outros contos são recontados ao som de música tradicional.

“Quando você olha para alguns dos dançarinos, eles parecem tradicionais, mas o que fazemos é extremamente radical porque que já foi considerado o reflexo mais nobre da beleza e ordem na sociedade khmer”, diz Prum. “É um espelho dos céus, e o céu é a expressão mais altiva da ordem social. Então tornar a imagem do amor gay nessa arte é realmente um gesto muito forte”.

No verão de 2016, Prumsodun Ok & Natyarasa realizou a sua estréia no Departamento de Artes Performáticas de Phnom Penh para uma platéia cheia. “Os dançarinos estavam estavam nervosos de subir ao palco abertamente como gays. Mas quando nós performamos, e as pessoas viram a qualidade das vestimentas, danças e coreografias, eles perceberam que existem novas possibilidades para essa forma de dança. Isso demostrou que existe uma ansiedade para ver coisas novas e que verdadeiramente refletem o Camboja de hoje”, contra Prum.

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Porém, a companhia recebe críticas também; ela tem sido acusada de destruir a cultura khmer ao colocar homens – e homens gays – em papéis tradicionalmente femininos.

“Existem muitas pessoas que não nos entendem ou o que estamos fazendo, e usa o argumento de que isso não é khmer, e está quebrando as tradições”, diz Prum. “Eles não percebem que a tradição está sempre evoluindo. As pessoas dizem que estamos destruindo isso ou aquelo, mas é fácil mudar esse pensamento. Nós não estamos sendo corajosos ao fazermos isso? E o Camboja não é uma sociedade compassiva ao permitir que um grupo como o nosso exista?

Sopharoth Morn passou a sua infância sonhando em subir ao palco como um dançarino clássico. “Eu amava a dança clássica desde jovem”, ele conta. Ele se lembra de ter ficado hipnotizado pela dança na televisão e arrebatado pelas roupas e jóias.

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“Normalmente essa forma de arte é apenas aberta para meninas e você tem que iniciar muito jovem. Era praticamente impossível para mim praticar essa dança profissionalmente”.

Em setembro de 2017, o seu sonho se tornou realidade quando Prum percebeu a sua paixão e talento e o convidou para entrar na companhia. Desde então, Sopharoth Morn viajou para a Índia para se apresentar, e a Prumsodum Ok & Natyarasa firmou uma residência no Java Creative Cafe em Phnom Penh, onde realiza performances duas vezes por semana.

“Eu estou orgulhoso de ser o primeiro dançarino de apsara nesse país. Tradição é tradição, mas a arte não fica em somente um lugar. Ela tem que se desenvolver e envolver, e nós estamos criando uma forma de arte contemporânea”, conta Sopharoth Morn.

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“As pessoas nos criticam porque nós somos homens performando uma dança clássica que é somente para mulheres. Eu não tenho nada a dizer para eles, mas eu trabalho duro e pratico muito para mostra que eu posso dançar graciosamente e que está tudo bem dançar esse tipo de arte”.

Pichoudom Phun é mais novo membro da trupe. Seguindo os passos de sua avó e suas antecessoras, que performavam a dança clássica no palácio real do Camboja – o jovem de 22 anos diz que está orgulhoso de fazer parte dessa arte e de promover os direitos LGBT.

“Eu amo fazer parte desse movimento porque nós, pessoas queer, temos nossa própria voz manifestada na forma de dança e outros tipos de ativismo”, ele diz. “Eu tenho orgulho de estar participando de algo em um novo espaço em nome de todas as pessoas queer do Camboja”.

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“A geração mais nova, a minha geração, é bem mais aberta, mas as gerações mais velhas ainda precisam de tempo para entender. Nós queremos mostrar o que o Camboja moderno é ao mesmo tempo que preservamos as tradições”.

Com a crescente popularidade da trupe, os dançarinos permanecem comprometidos com a sua causa. Apesar dos apoios financeiros serem poucos, Prum está determinado a continuar com o seu projeto de lutar pela comunidade LGBT ao redor do mundo ao mesmo tempo que assegura que uma das mais respeitadas artes do Camboja se mantenha viva e relevante.

“Eu posso pagar aos meus dançarinos um salário apropriado, oferecendo para eles recursos para viverem, pensarem e se apresentarem com liberdade, dignidade, orgulho e independência”, ele conta. “Eu posso transformar meus dançarinos em artistas, capazes de ensinar e embaixadores da tradição, de pessoas LGBT, do Camboja e de um mundo mais inclusivo.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Sam Smith meets sacred in gay troupe’s apsara dance – ‘This is the new Cambodia, inclusive, compassionate and brave’

Comunidade LGBT do Camboja: Abandonada nas periferias

Homens cambojanos revivem dança tradicional originalmente para mulheres

Recapitulando: Como foi o Dia Contra a LGBTfobia de 2018 ao redor da Ásia

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