Curadora Rhea Tuli fala sobre a exposição “Corpos x Fronteiras” realizada em 2018

Tradução do texto originalmente postado no SOAS University of London

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Rhea Tuli, curadora da exibição de arte da Queer Asia “Corpos x Fronteiras”, discute algumas dos trabalhos expostos no SOAS Universidade de Londres em 2018.

Ryudai Takano e censura

A exibição “Corpos x Fronteiras” celebra artistas asiáticos que exploram temas relacionados à diversidade sexual e de gênero. Esses temas não são normalmente trabalhados na Ásia contemporânea, com muitos artistas lutando contra a sensibilidade dos espaços profissionais de arte, a falta de conscientização do público e até mesmo da censura.

Ryudai Takano, um dos artistas apresentados na exposição “Corpos x Fronteiras”, encontrou tais restrições quatro anos atrás quando ele apresentou uma série de nus intitulado “Comigo” no Museu de Arte da Província de Aichi, na cidade de Nagoya, Japão. A série consistia de fotos de Takano posando junto com modelos masculinos e femininos, porém as fotografias do artista com modelos masculinos causou uma controvérsia considerável por causa da apresentação da genitália masculina sem nenhum tipo de censura. Essas fotografias foram acusadas de serem “obscenas”, como definidas pelo código penal japonês, e a polícia ameaçou prender os funcionários do museu se eles se recusassem a remover as fotografias da exposição. Takano acredita que o motivo da interferência policial não foi por suas fotos mostrarem a genitália masculina mas porque apresentavam dois homens se tocando totalmente nus. Seguir as demandas da polícia e remover as fotos marcadas seria equivalente a se render para uma lei invisível. Takano então cobriu a parte inferior das fotografias com um tecido para que o seu trabalho continuasse sendo exposto no museu e também demonstrar a censura que sofreu. A experiência de Takano com a polícia influenciou a sua crença de que o governo japonês está controlando a consciência sexual através de controle administrativo sobre o corpos das pessoas.

Relações sexuais entre homens nunca foram considerados um tabu na sociedade pré-moderna japonesa.

De acordo com Takano, a modernização do Japão não somente introduziu os valores do mundo ocidental mas também o senso de discriminação contra a homossexualidade. As fotos que foram censuradas no Museu de Arte da Província de Aichi foram expostas na exibição “Corpos x Fronteiras”. Takano espera que o seu trabalho ofereça a oportunidade que os espectadores debatam sobre países que restringem os debates sobre sexualidade. Ao conscientizar sobre esses tópicos importantes, porém negligenciados, a exibição tentou desafiar as maneiras tradicionais nas quais a sexualidade é expressa.

A arte de Heezy Yang

“Sobre Homens Gays e Calças”, do artista e ativista queer coreano Heezy Yang, aponta que as roupas íntimas são um meio ótimo para homens gays se relacionarem com a sua sexualidade. Enquanto criava essa série, Yang se encontrou e entrevistou diversos homens em clubes noturnos da Coréia. Quando questionado de porque ele realizou essa entrevista em clubes noturnos, Yang explicou que a vida noturna é uma realidade importante para homens gays porque o queer não é visível no dia a dia sul-coreano. Para o artista, as cuecas apresentam um olhar em como homens gays expressam a sua sexualidade e oferecem um olhar íntimo em suas vidas e experiências privadas.

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Identidade de gênero no trabalho de Kannagi Khanna

“Corpos x Fronteiras” também exibiu trabalhos que exploram como sociedades asiáticas lidam com temas relacionados à identidade de gênero. “Leela” de Kannagi Khana explora como a religião no Norte da Índia age como um meio pelo qual a comunidade trans abraça as suas identidades. Apesar da legislação que reconhece os direitos da comunidade trans e a introdução de uma lei contra a discriminação ainda estar sendo revisada pelo parlamento indiano , a realidade é que a comunidade trans vive marginalizada da sociedade. A série de Khanna revela como eventos religiosos oferecem a essas comunidades a oportunidade de se vestirem e expressarem a sua identidade de gênero sem medo de sofrerem qualquer forma de assédio.

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Teoria Queer e sua relação com o feminismo

A exibição também é feminista em sua atenção para as estruturas de identidade e discriminação. Apesar das relações entre a teoria queer e o feminismo ser um debate polêmico entre artistas e pesquisadores, “Corpos x Fronteiras” mostrou que eles compartilham as mesmas fundações e objetivos. Em uma era onde uma nova onda de militância feminista está se estabelecendo no panorama político, “Corpos x Fronteiras” explora como a mulher asiática está tentando redefinir sua cultura e identidade política fora das construções sociais opressivas e dominações patriarcais.

As pinturas de Alqumit Alhamad

Artistas asiáticos mergulham nos temas de identidade de gênero e sexualidade são um grupo marginalizado que normalmente são excluídos do discurso central da arte contemporânea. Essa exibição tentou tentou abordar essa premissa e de algum modo mostrar que a exclusão também oferece um senso de inclusão. Por causa da sua exclusão, grupos marginalizados podem se relacionar e oferecer perspectivas dinâmicas para outros temas marginalizados. Através da exploração da sexualidade e da identidade de gênero na Ásia, os trabalhos de arte exibidos em “Corpos x Fronteiras”  também levam em consideração tópicos relacionados aso obstáculos que refugiados asiáticos estão enfrentando no momento.

As pinturas do artista Alqumit Alhamad se esforça em retratar as suas experiências não só como homossexual mas também como refugiado

A arte, para Alhamad, foi uma ferramenta importante para a expressão da sua sexualidade como homem gay na Síria. Porém, depois que o Daesh tomou a sua cidade natal de Raqqa, seu trabalho tomou uma dimensão mais profunda. O surrealismo escuro de Alhamad, e até mesmo apocalípticas, aborda tanto a sua vida pessoal como política. Sobre esse ponto, o seu trabalho apresenta espaços binariamente opostos que cercam a estar ostracizado vs pertencer em uma sociedade; prisão vs liberdade; e finalmente corpos feridos vs superando fronteiras.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): “Queer” Asia 2018: Art Exibition

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