Onde o Queer se encontra com o Islã: Por dentro da maior mesquita LGBT do mundo

Tradução do texto de Shawn Ahmed originalmente postado no Queerty.

_________________________________

“Eu sou completo. Deus ama todos nós”, respondeu El-Farouk Khaki com um sorriso. Nós dois estávamos sentados em uma mesa nos fundos da livraria Glad Day em Toronto. Aqui na mais antiga livraria LGBT, no meio das comemorações do orgulho, durante o mês sagrado do Ramadan, dois muçulmanos gays conversavam juntos. Essa foi a minha entrevista com ele para saber o que muçulmanos LGBT tem a falar para o mundo.

Enquanto El-Farouk agradecia a água gelada que a garçonete trouxe nesse dia extremamente quente, eu pude ver a sua exaustão. El-Farouk, imã e co-fundador da Mesquita Unida de Toronto, tinha acabado de terminar as orações de sua congregação. A Mesquita Unida tem sido minha casa e a sua congregação tem sido minha família nos últimos dois anos. É uma família que continua a crescer de diversas maneiras – incluindo o nascimento do filho de El-Farouk e de seu marido que hoje já tem 1 ano de idade.

El-Farouk se tornou um nome conhecido entre jornalistas que desejam escrever sobre a história de muçulmanos LGBTQ. Apesar de cansado, e já ter passado por isso diversas vezes, El-Farouk ainda estava disponível para ser entrevistado. “Quando nós começamos em 2009”, conta El-Farouk, “nós da Mesquita Unida eramos o único espaço que se declarava abertamente como muçulmano e queer que conduzia orações e providenciava serviços religiosos para pessoas queer de fé muçulmana”. Desde então, junto com outras mesquitas inclusivas criadas por outros muçulmanos queer, El-Faroul começou a criar mais mesquitas em outras cidades do Canada e nos Estados Unidos. Esse crescimento transformou a Mesquita Unida de Toronto em um marco da causa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

“Nós somos os únicos que se reúnem todas as sextas nos últimos nove anos”, El-Farouk comenta. “Em média o nosso público é de 20 à 50 pessoas. Graças ao meu apoio técnico e voluntários dentro da Mesquita Unida de Toronto, aqueles que moram muito longe ou não tem meios seguros de vir à mesquita agora podem participar virtualmente através de uma linha privada de streaming. Pelas minhas estimativas, isso torna a Mesquita Unidad de Toronto a maior mesquita LGBT do mundo. Mas eu acho que essa afirmação pode ser contestada”, conta El-Farouk – o seu histórico como advogado o deixa relutante em abraçar o título de imã da maior mesquita LGBT do mundo. Mas, ele conta que “isso é um problema luxuoso”.

Para mim, reconhecer a Mesquita Unida de Toronto como a minha casa e família adotiva tem causado mais estranhamentos com a minha família biológica. Meu pai, que resolveu tentar me curar com um casamento arranjado com uma mulher quando eu me assumi, se recusa a entrar na Mesquita Unida. Convites com meus pais para partilhar o pão e quebrar o jejum no Iftar da Paz (um jantar anual durante o Ramadã aberto para todas as pessoas, independente de sua religião ou orientação sexual organizado por um grupo de muçulmanos incluindo El-Farouk Khaki) foram veementemente rejeitados. Para os meus pais muçulmanos de Bangladesh, esses espaços, pelo filtro de suas interpretações whahhabistas e conservadoras do Islã, não são espaços legitimamente islâmicos.

“Eu não tenho nada a dizer para eles”, disse El-Farouk encolhendo os ombros quando eu perguntei a ele o que eu deveria dizer para muçulmanos conservadores como a minha família que não enxergam a Mesquita Unida de Toronto como um espaço legítimo. Eu dou uma risada porque, em outras ocasiões, eu já vi El-Farouk ficar profundamente triste e até mesmo irritado quando eu e outros da Mesquita Unida contamos sobre a intolerância dentro das nossas famílias biológicas. O dia que eu vi El-Farouk mais bravo foi quando ele ouviu que meu pai me disse que, aos olhos de Allah, casais gays criando uma criança nunca serão vistos como pais de verdade. “Bem, eu diria”, começou El-Farouk tremendo um pouco – talvez por se lembrar de um momento de fúria – “onde está o amor em sua mesquita?”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

“Cada verso do Corão com exceção de um, começa com ‘no nome de Deus, o ternamente compassivo, o infinitamente misericordioso’. Onde está a compaixão e a misericórdia na sua mesquita?” pergunta El-Farouk antes de olhar para mim e dizer “Você entende?”. Apesar dele estar pregando para o público com essa questão, eu não pude deixar de me sentir triste por isso. Essa pergunta me trouxe memórias da última vez que eu entrei na mesquita de meu pai. “Se eles souberem o que você é, eles irão te desprezar” foi o que meu pai me disse. Talvez eu estivesse somente projetando, mas eu conseguia sentir uma dor semelhante na fala de El-Farouk.

“Eu tinha cerca de 12 ou 13 anos quando eu percebi que era sexualmente atraído por outros homens”, explica El-Farouk. El-Farouk pausava a cada palavra como se estivesse pensando em cada palavra. “Chegar na aceitação”, conta ele, foi “uma jornada de muitos anos”. Como ele explicou, essa foi uma jornada que envolveu momentos de esperanças que esse sentimento fosse embora, para o sentimento que ele fosse bissexual (e pudesse um dia se sentir atraído pelo sexo oposto), para finalmente aceitar a sua homossexualidade. Moldando essa jornada, estavam sempre os seus pais muçulmanos”.

“Eu não posso dizer que eles estavam felizes”, conta El-Farouk sobre a “primeira” vez que ele se assumiu para os seus pais aos 16 anos. “Eles não gritaram ou berraram mas o que eles realmente fizeram foi que era normal meninos passarem por esse período de questionamento mas que era somente uma fase e que a minha fé e orações iriam me ajudar nesses momentos de fraqueza”. Essa reação dos seus pais mandaram El-Farouk de volta ao armário por mais de uma década.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

“Eu me assumi novamente quando tinha cerca de 30 anos e nessa época não existia mais ‘reze pela cura gay’ como no passado. Foi mais difícil para eles”. Como eu percebi que ele estava evitando falar sobre os próprios sentimentos, ele começou a falar sem pausa – talvez inconscientemente para prevenir que eu o interrompesse. “Eu era filho único , e isso era um complicante”, disse El-Farouk logo entrando em uma análise acadêmica sobre as reações de uma típica família muçulmana – efetivamente se distanciando emocionalmente da conversa. Na primeira pausa eu perguntei: Qual foi a parte mais difícil de se assumir?

“Essa é uma pergunta multi-facetada”, disse ele com uma pausa para pensar. “Eu acho que por trás de tudo isso existia um medo real de desapontar a minha família e machucá-los”, explicou. Ele se lembra de como o seu pai se aproximou dele depois de se assumir pela segunda vez. “Ele veio e me contou como eu machuquei a minha mãe  e se eu poderia simplesmente tentar… se eu podia tentar”, e enquanto ele contava a trajetória do seu pai tentando fazer ele se sentir culpado e para isso rezar para deixar de ser gay, eu não sentia raiva em sua voz – mas culpa. “Eu tinha noção da posição do meu pai dentro da comunidade muçulmana e eu sempre me preocupei de como a minha homossexualidade iria afetar meus pais dentro da comunidade que moravam”.

A culpa foi composta nesse momento da sua segunda saída do armário. “Meu primeiro relacionamento terminou com a morte do meu parceiro”, explica El-Farouk. “Meu parceiro na época, Guy, ele descobriu ser portador de HIV logo depois que eu me assumi para os meus pais. Então eles estavam lidando com uma situação duplamente complicada”. “Isso pesou muito para mim” ele conta “Eu fiz eles passarem por muitas situações”. Guy faleceu em 2004.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Enquanto eu checava se meu telefone estava captando o áudio dessa entrevista, eu sabia que ela seria difícil de transcrever. Muito da história de El-Farouk é dolorosa (por falta de uma palavra melhor). Eu sei como é se sentir culpado pela angústia dos seus pais porque você não deseja viver em segredo. Como sou uma pessoa que se assumiu gay e suicida depois de um relacionamento abusivo, eu sei o que é fazer seus pais ficarem em uma situação “duplamente complicada”. Se eu tivesse rezado pela cura gay, eu teria feito somente para livrar o sofrimento dos meus pais. E é por isso que, assim como El-Farouk, eu só me assumi depois dos 30.

A diferença entre mim e El-Farouk, além das décadas que separam as nossas histórias, é que eu não estava sozinho na minha luta. “Foi uma época muito diferente até mesmo no Canada em questão da visibilidade da comunidade LGBT”, explica El-Farouk sobre ser um adolescente gay na década de 80. “Não existia um espaço para pessoas com 16 anos. Exceto se você conseguisse entrar nos bares e clubes”. Eu não estava sozinho como um muçulmano gay porque existem hoje organizações e espaços que El-Farouk ajudou a criar.

Para mim, a Mesquita Unida de Toronto é um lugar onde eu posso me curar do El-Farouk se refere como “traumas espirituais”. Onde muçulmanos queer como eu podem se ajoelhar e rezar para Deus sem ouvir que Deus não os ama – ou que a nossa fé não é forte o suficiente – simplesmente por causa da nossa identidade sexual. É também onde nós podemos nos libertar dos sentimentos de culpa criados pelas LGBTfobia existente dentro de nossas famílias biológicas e onde nós podemos adorar Deus fora do que El-Faroul chama de “cultura dominante” islâmica determinada pela escola de pensamento Wahhabista conservadora da Arábia Saudita.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Infelizmente, em comparação com muitos outros que entram para a Mesquita Unida de Toronto, El-Farouk e eu estamos entre os mais privilegiados. Porém, são pessoas com El-Farouk e eu que somos chamados para representar a comunidade muçulmana queer. E é por isso que nós estávamos sentados na livraria LGBQ mais antiga de Toronto conversando sobra a maior mesquita LGBT do mundo; Essa entrevista é a primeira de uma série onde membros da Mesquita Unida de Toronto – muitos bem menos privilegiados como nós – poderão compartilhar as suas histórias e contar ao mundo o que é ser muçulmano queer.

Eu terminei a minha estrevista com uma pergunta: Qual é a coisa que ele mais desejava que o mundo soubesse sobre muçulmanos queer? El-Farouk sorriu e olhou dentro dos meus olhos dizendo “Somos completos”, ele disse “E Deus nos ama”.

_________________________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Where queerness meets Islam: An exclusive look inside the world’s largest LGBTQ mosque

O ambiente hostil para refugiados LGBT na Alemanha

Como eu aprendi a aceitar a minha sexualidade como mulher muçulmana

Como um muçulmano marrom e descendente de imigrantes paquistaneses se revelou uma estrela de ‘Queer Eye’

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: