O ambiente hostil para refugiados LGBT na Alemanha

Tradução do texto de Charlotte Hauswedell originalmente postado na Deutsche Welle.

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A Rainbow Refugees Frankfurt é uma iniciativa que oferece ajuda para refugiados LGBT. Eles oferecem ajuda nos diferentes passos do procedimento de pedido de asilo.  Mas também organizam sessões abertas onde as pessoas podem se reunir, criar contatos e construir redes sociais. Ela começou em 2015. Desde então, a iniciativa que depende totalmente de doações conseguiu ajudar cerca de 200 pessoas. O membro da diretoria Knud Wechterstein explica que tipos de problemas refugiados LGBT sofrem na Alemanha.

DW: A Alemanha recentemente legalizou o casamento homoafetivo. O que refugiados homossexuais tem a ganhar com isso?

Knud Wechterstein: Por um lado, gays e lésbicas podem agora casar e isso trás um reconhecimento governamental de suas relações. Esse foi um passo importante em direção da igualdade. Mas ao mesmo tempo, a Alemanha não garante asilo para refugiados homossexuais e transsexuais que fugiram de seu país por causa da perseguição que sofriam. Nós ainda temos que trabalhar em cima desse problema.

DW: Que tipo de desafios os refugiados LGBT enfrentam?

KW: Pessoas LGBT que fogem para a Alemanha costumam chegar em ambientes igualmente LGBTfóbicos. É uma continuação de sua situação. Existe abuso verbal, violência e marginalização realizada por outros refugiados, especialmente dentro dos abrigos. O processo de asilo também apresenta um grande desafio: nós percebemos que refugiados gays não estão sendo escutados e as razões de suas fugas tem recebido pouca atenção. Pedidos de asilo de refugiados LGBT tem sido rejeitados mesmo existindo a perseguição de pessoas LGBT em seus países de origem. Mesmo que na Alemanha exista o direito de asilo para pessoas que sofrem esse tipo de perseguição.

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Existem muitos casos de abuso físico e verbal contra refugiados LGBT dentro dos abrigos

DW: Como os refugiados lidam com a sua sexualidade?

KW: Alguns refugiados vem com uma intenção clara: viver livres e ter a sua sexualidade completamente assumida. Mas existem muitos outros refugiados que ainda estão no processo de auto-aceitação da sua própria orientação sexual. Eles podem chegar na Alemanha ainda seguindo ideias religiosas que não permitem a homossexualidade. Esses sofrem muito mais durante o processo de pedido de asilo. E durante as auditorias, erros acontecem frequentemente.

DW: O que exatamente acontece de errado nesses processos de asilo?

KW: Eles não estão acostumados a falar sobre as suas sexualidades. Durante as auditorias, eles tem que explicar tudo em um curto período de tempo. Isso geralmente não funciona. Além disso, muitas vezes os intérpretes vem do mesmo contexto cultural dos entrevistados onde a homossexualidade é rejeitada. Os refugiados percebem isso e ficam hesitantes em conversar abertamente. Eles não conseguem vocalizar as razões reais da fuga.

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Knud Wechterstein da Rainbow Refugees Frankfurt

Mas existem decisões incorretas tomadas pelo Escritório Federal de Migração e Refugiados (EFMR). Por exemplo, o EFMR frequentemente afirma que refugiados gays podem encontrar segurança em outras áreas da sua região, como o Paquistão, por exemplo. Nós não concordamos com isso.

Nós presumimos que durante os procedimentos de asilo, muita atenção está nos números. Um determinado número de decisões precisam ser tomadas em um dia. As histórias pessoais de sofrimento estão em um contexto secundário.

Outro problema é a falta de comunicação: Na realidade existem pessoas treinadas para lidar com essas questões LGBT. Refugiados podem pedir para ter uma auditoria com eles. Esse fato, porém, não é muito conhecido porque a EFMR não divulga essa informação.

Nós tentamos chamar a atenção para decisões incorretas tomadas; nós estamos em contato com políticos e enviamos os protocolos dos pedidos de asilos para esclarecer as razões para tais rejeições.

DW: Quem são os mais afetados?

KW: Gays e trans do Paquistão normalmente são vitimas desses problemas. A homossexualidade é criminalizada lá e a sentença mínima pode ser de até dez anos de prisão. Pessoas LGBT são ostracizadas e perseguidas pela sociedade. Muitos dos refugiados LGBT do Paquistão foram expulsos pela própria família e já sofreram ataques violentos. Mas, a EFMR aparentemente rejeita pedidos de asilo de paquistaneses por questões de princípios, mesmo se os refugiados atestarem a sua sexualidade e afirmarem que essa é a razão de sua fuga.

Mas pessoas da Tunísia, Marrocos e Algéria também são afetados. Esses são considerados países seguros. Mas, homossexuais são perseguidos, e direitos humanos são desrespeitados. Mesmo que o número de pessoas vindo para a Alemanha tenha diminuído, a situação ainda é deprimente para esses refugiados.

DW: Porque a situação está piorando?

KW: Hoje em dia, refugiados desses países são primeiramente enviados para abrigos de recepção. Eles costumavam ser distribuídos em diferentes comunidades onde eles pudessem criar uma rede de apoio e contatar inciativas como a Rainbow Refugees. Isso já não acontece mais, e por isso as chances de conseguirem asilo diminuíam.

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Difícil processo de asilo: “Existem muitas decisões incorretas sendo tomadas”

DW: Como está a situação nesses abrigos de recepção?

KW: Nós já ouvimos sobre abusos verbais e até físicos contra pessoas LGBT. Geralmente vem de pessoas que vieram do mesmo contexto cultural reproduzindo LGBTfobia.

DW: Como que a aceitação de outros refugiados pode ser melhorada?

KW: A Rainbow Refugees tem como objetivo explicar como é viver juntos em uma sociedade liberal. Por exemplo, nós visitamos cursos de língua alemã para refugiados e conversamos sobre os direitos de pessoas LGBT na Alemanha, mas também sobre os direitos das mulheres e a liberdade de religião.

Nós também estamos planejando oferecer o treinamento de voluntários e assistentes sociais que estão trabalhando constantemente com refugiados LGBT.

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Matéria original (Em inglês): Hostile environment for homosexual refugees

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