O homem por trás do primeiro filme Queer a ser exibido no Oriente Médio

Tradução do texto de Tre’vell Anderson originalmente postado na OUT.

_______________________________

O diretor e roteirista Sam Abbas sabe como é ter conflitos de identidade. Nascido em Alexandria, Egito, ele cresceu em uma casa estritamente muçulmana, onde ser qualquer coisa além de hétero já era o suficiente para ser olhado com desprezo.

“Eu fui impregnado com diversas ideias tradicionais sobre sexualidade, sexo antes do casamento, beber álcool, e coisas desse tipo”, contou ele para a OUT. “Eu tinha essa luta interna enorme de como a cultura e as regras religiosas me afetavam, mesmo eu não sendo uma pessoa religiosa”.

Ele conta que quando saiu da faculdade e começou a ter experiências sexuais e a descobrir que tipo de pessoa que ele queria ser, um sentimento de culpa tomou ele (Que hoje ele vê como um sentimento desnecessário). E é por isso que ele queria fazer a estréia do seu filme, The Wedding (“O casamento”, ainda inédito no Brasil), sobre os sofrimentos que as pessoas as vezes  passam por tentar agradar tanto os seus desejos como as expectativas que são colocadas sobre eles.

The Wedding é protagonizado por Abbas como Rami, um homem muçulmano que está se preparando para o seu casamento com Sara, interpretada por Nikohl Boosheri. Mas o casal ainda não decidiu a data – para o desgosto da mãe de Rami – porque Rami ainda está dentro do armário, e tendo relações sexuais com homens escondido de todos.

Abbas revelou para a OUT como foi realizar exibições secretas do seu filme no Egito, Turquia, Tunísia e Líbano, países onde filmes como esse são banidos.

Em algum momento você se sentiu inseguro sobre contar uma história sobre um homem que supostamente se casaria com uma mulher mas mantém relações sexuais secretas com outros homens?

Não, porque eu achei que essa foi a maneira perfeita de demonstrar a repressão de Rami. O tipo de filme que eu queria fazer era um filme observacional onde você observa esses personagens em um tempo e espaço sem saber muito sobre as histórias deles, mas a maneira como eles reagem faz com que você assuma certas coisas sobre eles. Para mim, Rami claramente vem de uma cultura de repressão, tão opressora que eu acho que nem ele sabe o que quer. Ele sabe que ele tem de se casar para agradar a sua família, para sentir que ele está fazendo a coisa certa. Mas ao mesmo tempo ele está tendo relação com homens. É uma confusão. É sobre frustração sexual, e não sobre rebelião, por não saber de nada, não ter uma educação sexual apropriada.

O mesmo com Sara. Ela também está condenada nesse casamento porque ela também não é religiosa, mas ela cresceu acreditando que ela deve fazer sexo anal e não vaginal para se manter pura. Então, para ela, o casamento tem o mesmo sentido que para Rami, um momento de salvação onde eles podem dar o que a cultura espera deles e então, em segredo, eles poderão fazer o que querem.

Esse foi o primeiro filme LGBTQ a ser exibido no Oriente Médio, mas foi feito em segredo. Porque? Existem leis de censura?

No Oriente Médio, ele não é permitido. No Egito por exemplo, só o fato de você ser um aliado ou amigo de alguém da comunidade LGBTQ, você será severamente assediado. Não é crime ser gay, mas eles irão colocar você na cadeia através da lei de devassidão. Existem diversas maneiras de te prenderem por ser gay, usando outras justificativas.

E não é somente o governo que é contra a comunidade LGBTQ. São as pessoas também. Uma recente pesquisa apontou que cerca de 98% dos egípcios disseram que eles não concordam com isso, disseram que eles não querem a existência de pessoas gays por lá. É muito estrito, muito assustador. Esse provavelmente foi o que mais me estressou na vida, aquelas duas semanas. Por esse motivo que existiram certas regras para a exibição dos filmes.

Quais eram algumas dessas regras?

Primeiro, eu não podia participar. Isso foi pela minha segurança e a segurança de outros. Como esse filme ganhou muito destaque na imprensa, meus representantes e co-produtores não queriam arriscar de eu ser seguido. Outra coisa era que, se você fosse convidado, o que era um processo rigoroso, você precisaria assinar um acordo de confidenciabilidade e apresentar uma cópia do seu documento de identidade. Ao oferecer uma cópia do seu documento de identidade, essencialmente garantia que as pessoas não falassem sobre a exibição porque a partir desse momento você seria parte dessa atividade. Nós precisávamos ter certeza de que ninguém falaria do filme.

Não existia nenhum jornalista. Nós tínhamos medo de que até pequenos detalhes acabassem vazando. Nós não poderíamos arriscar que os teatros, as pessoas que participaram da exibição ou os organizadores fossem identificados. Você não podia trazer um convidado. Não era permitido o uso de celulares ou câmeras. Você era revistado na hora de entrar no teatro e tinham duas pessoas de pé assegurando que ninguém utilizaria algum eletrônico. Essas eram algumas das regras. Algumas podem parecer extremas, mas eram a única maneira de assegura a segurança das pessoas ou elas poderiam ser expostas, presas ou severamente assediadas.

Qual foi a importância de exibir o seu filme no Oriente Médio?

Eu nasci no Oriente Médio e foi por esse motivo que abrimos a companhia de produção, ArabQ, no Festival de Filme de Berlim e colocamos a sede em Alexandria. É lá que eu nasci e eu quero ter laços com a cidade ao mesmo tempo que eu quero encorajar que pessoas queer contem as suas histórias.

Qual o conselho que você dá a outros cineastas dessa região que querem contar histórias queer mas estão hesitantes? 

Você precisa fazer isso. Nós precisamos de mais histórias étnicas, mais histórias dentro da comunidade LGBTQ. Eu mesmo estou cansado de assistir a mesma coisa repetidas vezes. A beleza de exibir o meu filme no Oriente Médio foi ter pessoas da minha comunidade sentada assistindo um filme onde ela possa se sentir representada.

Com a estréia nos Estados Unidos, o que você espera que o público estado-unidense absorva desse filme?

Eu espero que o público estado-unidense fique mais consciente das opressões que muitos indivíduos queer racializados ainda sofrem. Eu acho que avançamos muito a ponto de pessoas conseguirem se assumir, mas ao mesmo tempo existe um grande número de pessoas que não podem se assumir por causa das opressões e tudo o que sofreram enquanto cresciam. No final, para ser honesto, eu esperava fazer um filme que fosse verdadeiro para mim, para aquilo que eu sentia, e ao fazer isso, eu esperava aliviar um peso dos meus ombros. Nesse momento eu só espero mostrar o meu filme para o maior número de pessoas e esperar que elas se identifiquem com essa história.

Abaixo você pode assistir o trailer em inglês do filme “The Wedding” de Sam Abbas

_______________________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): The Man Behind the First Queer Film Ever Screened in the Middle East

Filme gay considerado muito sensual pela censura finalmente estreia na Índia

Malásia censura cenas gays do filme Bohemian Rhapsody

Curta metragem paquistanês estrelando a atriz trans Kami Sid, tem estréia em festivais internacionais

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: