Sobre fuga, solidão e linguagem: Entrevista com Paty Baik sobre a sua participação na exposição Textão

“A palavra textão é uma expressão comumente utilizada pelas comunidades negras, feministas e LGBTQIA+ brasileiras. O artifício do textão costuma ser acionado quando pessoas dessas comunidades sofrem algum tipo de agressão. Nesse momento é sentida a necessidade de uma tomada de posição frente a um determinado fator social gerador de opressão. Essa fala ou texto são normalmente endereçados a pessoas cisgêneras, majoritariamente homens, brancos, heterossexuais e com alto poder aquisitivo, para lembrá-los de seus privilégios e da posição específica que ocupam dentro de um sistema colonial violento, pautado em marcações de classe, raça, gênero e sexualidade”.

São com essas palavras que a curadoria descreve a exposição “Textão” realizada no Museu da Diversidade em São Paulo, fruto da colaboração entre artistas e coletivos brasileiros de diferentes localidades. Conversamos com Paty Baik, artista brasileira queer de ascendência coreana que participou da exposição com a sua obra “Onde – Por Enquanto”, e falou um pouco do seu processo criativo e das questões envolvendo a arte no universo LGBT.

 

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Asiáticos Pela Diversidade: As exposições de arte são centradas em artistas cis-héteros e brancos. Essa exposição é um marco para artistas que divergem dessa identidade normalizada. Para você, qual a importância de fazer parte dessa seleção de artistas LGBT.

Paty Baik: No começo eu cai nessa exposição meio que do nada, desavisada, só depois que eu percebi o quão grande isso era. Mas, meus primeiros pensamentos foram o quanto era bom que eu esteja participando disso agora. Porque, pra mim, é muito simbólico justamente pelo fato de eu ser bissexual, ter ascendência coreana e não ter saído do armário. E mesmo assim poder vocalizar quem eu sou junto de artistas que não são o foco tanto da academia quanto do mercado e do mundo da arte. É muito transgressor o fato de que existam, nessa exposição, uma maioria de pessoas negras e de pessoas trans. É muito forte para mim poder participar ao lado de todos esses artistas.

Parece que de um tempo para cá tem acontecido muito mais eventos como esses. Mas, mesmo assim ainda é muito pouco. Então, poder participar desse pouco, é muito importante para mim. Além disso, essa exposição existe no centro da cidade, do lado do metrô e está em um lugar onde várias pessoas passam, querendo ou não ela está exposta. E eu estar junta, exposta aqui e agora, é muito significativo.

ApD: Para essa exposição você trouxe imagens da sua zine “Onde”. Conte mais sobre a concepção e a realização desse seu trabalho.

PB: Meu primeiro trabalho saiu pelos quadrinhos, só que eu abandonei esse formato por achar que não fosse uma linguagem validada pelo mercado, pela academia, e então o “Onde” foi uma primeira tentativa de voltar a esse meio, esse modo de comunicação de imagens que possuem seguimento. Só que meu processo de fazer esse quadrinho inteiro não foi nada linear, eu comecei ele por imagens de devaneio, que é a parte que eu chamo de “brisa do quadrinho”, que é a parte colorida dele, e eu comecei por eles, só criando esses desenhos, e eu aí eu fui só seguindo o que eu queria fazer. Na época eu estava muito muito presa, muito sufocada.

O nome desse quadrinho é “Onde – por enquanto”, e esse “por enquanto”, na verdade, era só pra ser um parêntesis, um titulo provisório. Mas,  eu achei que combinou muito, porque, no final, esse quadrinho é muito sobre partir e ir. Só que  ir para um lugar que você não sabe onde. Para mim, foi muito querer ir para um lugar que só não sei onde é, só querer ir por me sentir muito presa. Só que, no final, eu senti que eram emoções de querer fugir e não  só de partir. E por não saber onde, acabei falando também um pouco de solidão. Eu tento sempre falar que não sou eu o personagem principal mas ele é claramente eu, não tem nem como fingir que não é. Basicamente foi eu querendo sair de onde eu estou e querendo ir pra frente, mas o que é frente nesse sentido? Partir para não me sentir presa, não me sentir sozinha.

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ApD: E quais foram as suas referências para esse trabalho em específico

PB: Uma grande influência foi um quadro de três metros que eu estava fazendo. Era de um tigre e tinha umas estrelas muito grandes nele, e tudo o que eu estava pintando estava centrando nessas estrelas. Um dia que eu sentei na frente desse quadro e não via mais porquê fazer ele, e comecei a escrever por ele, o que é essa estrela? por que eu sempre sigo esse padrão de estrela? por que eu sempre faço o padrão de linhas seguir esse padrão de estrelas? E eu fiquei pensando que essas estrelas podiam significar algum lugar que eu queria chegar, só que um lugar que eu não sabia muito, e toda essa tensão de eu querer ir atrás dessas estrelas. Então a ideia do quadrinho partiu de eu reconhecer no meu trabalho essa simbologia.

ApD: Fale mais um pouco sobre o desafio de trabalhar com a linguagem de quadrinhos e como foi esse trabalho.

PB: O quadrinho é um desafio porque você tem que contar muitas coisas, e por você querer contar muitas coisas, você tem o trabalho de fazer essas tantas coisas aparecerem. Você quer um entendimento do leitor mas você não quer um entendimento completo. Então a linguagem dos quadrinhos foi interessante por isso. Poder fazer uma continuidade, poder explorar profundamente a narrativa. Algo que eu normalmente tento deixar em uma imagem, eu tive que espalhar em várias. E eu sinto que todas as imagens que eu fiz receberam muita carga, muitos símbolos em cima delas.

WhatsApp Image 2018-11-13 at 11.09.37 (1)ApD: Um detalhe que chama muita a atenção do seu trabalho é a mistura do português com o coreano, você poderia falar um pouco mais dessa escolha.

PB: Eu já estava brincando um pouco de misturar o português e o coreano porque eu e os meus amigos coreanos sempre escrevemos a fonética coreana em utilizando do alfabeto português. Muitos dos brasileiros-coreanos não sabem digitar em coreano e esse era um modo da gente se comunicar de um jeito que não dava para traduzir. Então, era algo muito nosso.

O sistema de escrita coreano foi inventado por uma pessoa, e todas as suas formas representam algum movimento da língua, como é o formato dos lábios ou como o som sai da boca. A primeira língua que aprendi foi o coreano e o português foi a língua que aprendi fora de casa. Cada alfabeto virou uma representação de cada cultura que eu sempre acabei mesclando. Eu fiquei pensando em como esse quadrinho seria um dialogo que eu teria com a minha mãe, uma pessoa que não consigo me comunicar direito porque ela só fala coreano, e quando ela precisa falar algo muito importante para mim, ela não fala com a voz, ela me manda alguma mensagem escrita. Ver essas letras ao invés de estarem no ar é marcante para mim. Como que o coreano, no final, quando está na sua forma escrita era muito mais vulnerável, mostrava muito mais sensibilidade de quando era falado.

ApD: E como você acredita que a sua obra dialoga hoje com a atualidade?

PB: Eu acho que é sempre importante lembrar que obras são feitas por artistas, o valor que a gente dá para a obra é o valor que você tinha do artista.

A importância de estar nessa exposição é o próprio fato da minha existência como artista LGBT que não saiu do armário e que tem ascendência coreana, ocupando esse espaço e podendo participar ao lado de outros artistas. Se eu acho meu quadrinho importante é porque ele está no lugar que ele ocupa, um lugar que, no final, eu ocupo também.

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ApD: Você tem alguns projetos futuros?

PB: Agora estou focando no meu TCC que também é sobre diálogos internos. Eu li que essa necessidade da criatividade se impor é mais comum no ser humano se configurando, se existindo, e também se transformando e botando sentido na vida. Então meu TCC acaba falando muito sobre como meu processo de trabalho funciona como minha criatividade vem, minha relação com os materiais. Um estudo do porquê eu produzo o que produzo, do porque eu sou assim. Esse trabalho partiu de uma iniciativa muito existencialista de afirmar quem eu sou. Até no quadrinho tudo o que eu faço é muito confuso, eles falam de uma confusão que eu acredito fazer sentido nessa ideia de tentar procurar quem eu realmente sou e onde eu realmente ocupo.

Eu nunca tenho um projeto que eu planejei com muito tempo de antecedência. São sempre urgências, é um trabalho presente. Meus trabalhos usam muito de memórias passadas, mas são muito presentes, são sobre sentimentos que eu sinto na hora. Mas, além do meu TCC, estou também com o “Selo Pólvora”, um grupo feminista asiático, e o projeto do Mitchossó, que é um grupo de meninas coreanas que recentemente realizou uma roda de meninas LBT coreanas. Por meio desses dois grupos vão nascer outros projetos de publicação, cuja principal característica vai ser a de disseminação de conteúdo.

Você pode ler o quadrinho “Onde – Por enquato” clicando aqui.

A exposição “Textão” foi aberta no dia 06 de Novembro de 2018 e ficará em cartaz até o dia 12 de Janeiro de 2019 no Museu da Diversidade, dentro da Estação República do Metrô (Linha 3 – Vermelha). A entrada é gratuita e pode ser visitada de terça a domingo das 10h às 18h.

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Links relacionados:

Página da exposição “Textão” no site do Museu da Diversidade

Instagram da Paty Baik: @roledabaik

Facebook da Paty Baik: Rolê de Baik

Instagram do Selo Pólvora: @selopolvora

Instagram do Mitchossó: @mitchosso

Artista resgata a memória LGBT com o projeto “No meu tempo não tinha disso” – Entrevista com Daniel Wu

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