“Sair do Armário” não é tão fácil quando você é uma pessoa racializada

Tradução do texto de Rohit Dasgupta originalmente postado no The Independent.

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Já se passaram 50 anos desde a descriminalização da homossexualidade no reino unido. Nós presenciamos grandes avanços para os direitos LGBT+ – desde a revogação da seção 28 até o ato o casamento igualitário, leis de adoção e o ato de reconhecimento de gênero de 2004. Na realidade, nas últimas eleições de 2017 vimos a eleição de 45 membros LGBT no parlamentares na Câmara dos Comuns do Reino Unido.

Mas enquanto o Reino Unido celebra ser um dos países mais progressivos do mundo, é importante entender como o nosso país pode melhorar em apoiar a diversidade para muitas pessoas LGBT ao redor do mundo.

O Reino Unido pode ter se livrado do infame Ato de Sodomia – que criminalizava “atos sexuais não naturais” – mas vestígios dele ainda existem (ou existiam) em antigas colônias, incluindo o meu país de nascença, a Índia, onde a Seção 377, criminalizava atos sexuais sem fins de procriação, criando uma cultura de homofobia e exclusão social de muitas pessoas LGBT+.

Exemplos semelhantes existem em outros países da Ásia e da África. Enquanto muitos indivíduos LGBT+ desses países continuam fugindo de opressões, buscando asilo e refúgio no Reino Unido, é irônico ver que o governo não só assedia e intimida pessoas queer que buscam asilo mas também envia centenas de volta para países que os ameaçam de morte ou violência física (Veja o caso da ativista Kelechi Chioba, por exemplo).

Pessoas LGBT+ do Sul Asiático com quem eu conversei também reclamaram sobre as humilhações que muitos enfrentaram quando foram agressivamente questionados pelo Ministério do Interior a respeito dos seus pedidos de asilo.

Além desse cenário, existe um corte enorme de servições LGBT+ – o fechamento do serviço de saúde mental Pace em 2016, o encerramento da única linha de ajuda contra violência doméstica dedicada ao público LGBT+ do Reino Unido, e um aumento no número de pessoas LGBT+ em situação de rua. A situação se tornou particularmente dura para pessoas Queer racializadas que enfrentam condições de vulnerabilidade, especialmente se elas são imigrantes ou estão em busca de auxílios.

Um estudo conduzido pelo Centro de Caridade em 2012 relatou que apesar da receita total do setor de voluntariado LGBT+ é de £5.5 mil, a média da renda de organizações LGBT+ de pessoas Negras, Asiáticas e Minorias Éticas é somente de £9.627.

Engajamento e representação política tem sido bastante irregular quando falamos de pessoas racializadas LGBT+. Quando eu estive no parlamento em 2017 – como a única pessoa queer racializada naquele ano – eu fiquei chocado que apesar de tanto progresso, o nosso sistema político permanece rígido quando falamos de representação interseccional. Na realidade, com exceção de Waheed Alli não existe nenhum político negros LGBT de alto perfil.

Um dos argumentos mais ouvidos é a dificuldade de se alcançar pessoas queer racializadas nesse país e me assusta que alguns dos trabalhos mais interessantes e radicais feitas por caridades como o Naz Project London e o Imaan ainda permanecem marginalizados.

Na minha própria pesquisa que foca em homens queer do Sul Asiático, eu descobri que muitos dos participantes da minha pesquisa são duplamente marginalizados – encarando racismo (e islamofobia) dentro de espaços majoritariamente LGBT branco e homofobia dentro de espaços seguros para pessoas racializadas. Nossas identidades não são mutuamente excludentes mas elas são indissociáveis – a questão é porque pessoas racializadas LGBT estão sendo esquecidas nos dias de hoje?

A resposta se encontra nas políticas de assimilação queer onde o progresso social é medido pelo alcance dos direitos matrimoniais e de adoção ao mesmo tempo que apagando problemas de opressão e injustiça social sofrido por pessoas LGBT racializadas e por aqueles que são pobres.

Existe muito mais potencial para politicas de coalizão. Como Audre Lorde afirmou, não existe uma hierarquia de opressões. Mas para que isso funcione, as pessoas tem que entender que as realidades vividas pelas pessoas são diferentes e as limitações de políticas criadas para realidades individuais não irão diminuir as desigualdades que o movimento LGBT vem encarando.

Ativistas queer clamando por visibilidade e o ato de “sair do armário” precisa reconhecer que as políticas de visibilidade são baseados na criação de um “modelo” de indivíduos gay/lésbica/trans. A pressão de “ser visível” pode ferir disproporcionalmente pessoas queer racializadas ou aqueles com limitados privilégios econômicos. O desafio de sair do armário envolve privilégios – raciais, sociais, econômicos – que não estão disponíveis para todas as pessoas.

A limitada expressão queer de pessoas brancas, corporativas, normatizantes não representam e não conseguem representar as necessidades e interesses de toda a comunidade LGBT, e, na realidade, ela investe em tornar o movimento mais palatável justamente para aqueles que são contra nós. Em um momento que encaramos ataques terríveis no nosso sistema de saúde, empregos e educação, nós não podemos deixar ninguém para trás e voltar para o potencial das políticas queer de justiça social. É um momento de argumentar não somente a mera inclusão mas transformações interseccionais positivas.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Coming out isn’t as easy as you think for a LGBT+ person of colour

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