Transsexuais e Interssexuais no Líbano: Uma história de coragem e determinação

Tradução do texto de Federica Marsi publicado originalmente em Middle East Eye.

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Ivy foi designada homem ao nascer, cresceu sonhando em ser uma ‘linda mulher’. Assim como lagartas viram borboletas, sua mentalidade infantil não enxergava porque seu sonho parecia num primeiro momento tão impossível.

Sua família conservadora não apoiava sua obsessão por joias, sapatos e bolsas. Sempre que ela gastava seu dinheiro com algum acessório feminino seu pai – ou ditador, como se refere a ele – xingava a deus e explodia de raiva.

“Ele nunca deixou eu ser quem sou, então passei minha infância fingindo ser algo que não era”, ela conta. Somente quando seus pais se divorciaram e Ivy foi mandada para a casa de sua avó para morar que foi possível baixar a guarda.

A grande transformação veio com a entrada na universidade. “Eu me tornei amiga de um grupo de gays e íamos a clubes”, ela se recorda. “Eles me tratavam como uma mulher e pela primeira vez pude ser quem realmente sou. Pude mostrar minhas verdadeiras cores”.

Hoje, Ivy evita o olhar dos outros nas ruas de um dos quarteirões de Beirute, onde mora. Sua estrutura masculina, escondida sob camadas de maquiagem e roupas femininas, às vezes atrai atenção não desejada. Sua aparência é mal vista quando procura trabalho no campo de formação. “Eu parei de tentar há dois anos, ninguém me leva à sério”, ela diz.

À noite, no meio da multidão de boates gays de Beirute, ela encontra um breve acalento.

Mas ela não se sente bem-vinda nem dentro da comunidade gay, composta tipicamente por pessoas que preferem ser discretas se conformando às normas sociais – pelo menos durante o dia.

Enquanto esconde o rosto por baixo dos longos cabelos, a realidade ainda a pega sempre que se olha no espelho. “Não consigo aceitar o meu e não quero me sentir perdida para sempre”, ela diz, “Quero me sentir uma mulher completa.”

O dinheiro compra (quase) tudo no Líbano.

A cirurgia de mudança de sexo é acessível no Líbano para aqueles que podem arcar com os custos – geralmente em torno de US$20,000 (cerca de R$76 mil). Como muitas pessoas, Ivy não tem dinheiro para pagar a cirurgia e sente falta de uma rede de apoio necessária para passar pelo período de recuperação.

Aqueles com condições de completar o processo cirúrgico podem se submeter aos procedimentos legais para mudar o gênero na documentação. No meio de janeiro de 2016 a juíza Janet Hanna do Tribunal de Apelação de Beirute assegurou (às mulheres trans) o direito de mudar de gênero e então passarem pelo processo cirúrgico.

As regras de outros tribunais têm sido mais rígidas exigindo provas de que a mudança sexual seja completa e irreversível. Porém, conseguir liberação no Líbano é frequentemente uma questão de sorte e poder aquisitivo, mais do que de direito.

“No Líbano, as regras da corte não estabelecem um precedente”, diz Bertho Makso, diretor executivo da organização por direitos LGBTs Proud Lebanon. “Tudo depende da sorte com o tribunal e quanto dinheiro você pode gastar com a apelação”.

Uma vez que começa o processo de transição e a mudança de visual não bate com as fotos das documentações, as pessoas acabam por frequentemente ficarem num limbo em que viajar ou cruzar vários pontos de verificação do Líbano se torna algo perigoso.

Quando o exército suspeita que uma pessoa é gay, eles revistam seu telefone em busca de imagens ou de aplicativos de paquera”, diz Makso, “Uma vez levados à polícia frequentemente são intimidados e forçados a assumir sua orientação sexual”.

O artigo 534 da constituição libanesa proíbe relações sexuais que “contradizem as leis da natureza”. Tal como explicado por Hasna Abd el-Rida, uma advogada do Centro Libanês de Direitos Humanos, ninguém deveria ser preso à menos que pego no ato, mas essa regra não é seguida. “Uma confissão é suficiente para condenar alguém com o artigo 534, o que frequentemente tem o aval de um policial que faz perguntas pessoais de forma agressiva e que eles não têm o direito de perguntar”, diz Rida.

Junto do Proud Lebanon, ela trabalha pelo desenvolvimento de consciência de direito no meio da comunidade LGBT. “Aqueles que sabem as coisas certas a serem ditas são liberados em questão de horas, outros são mantidos por dias ou semanas em detenção arbitrária”, diz Rida. A liberação também depende das condições de pagar fiança, em torno de 125 a 250 dólares- o que particularmente é difícil para refugiados sírios.

Ivy se recorda dessa experiência com uma mistura de orgulho e vergonha. “Eles tentaram cortar o meu cabelo como forma de depravar minha identidade feminina, mas eu lhes disse que se encostassem um dedo em mim eu iria denunciá-los” ela conta. “Antes de partir, um deles me passou seu número. Irônico né?”

O Líbano é como um queijo suíço.

Enquanto a sociedade libanesa ainda luta por equidade – para gays, mulheres, trabalhadores estrangeiros ou minorias religiosas –  as condições são melhores que de muitos países vizinhos.

“O Líbano não é uniforme” conta o membro do Proud Lebanon, Bertho Makso, “é como um queijo suíço com áreas mais mente abertas e outras mais conservadoras”.

Mas o governo libanês provou ser relativamente para frente desde 1997, quando cobriu  o custo da primeira cirurgia de transgenitalização. Hoje, a beneficiária, dançarina do ventre Antonella é uma celebridade aclamada internacionalmente. Shows de dança do ventre e festas drags – menos comuns ainda – têm se tornado mais recorrentes nos subúrbios de distritos centrais do Líbano.

Bares gays e boates são permitidos e tolerados por autoridades, embora as localizações são compartilhadas somente dentro da comunidade LGBT para proteger a identidade dos frequentadores. Quando um local “vaza” – se torna conhecido pelo público geral – é fechado e um outro local emerge em algum local na cidade.

Sasha Elijah, uma modelo libanesa trans, diz que para ela tem sido relativamente fácil ser aceita na indústria de shows de Beirute. “Eu estava com um amigo que trabalhava na TV e ele me disse que eu poderia ser uma modelo”, ela se recorda. “Eu lhe disse que era impossível por conta de eu ser trans, mas ele insistiu e eu posei com um vestido de noiva.. você consegue imaginar?”, ela ri.

Ela admite, porém, que sua vida é mais fácil que de outros pois é interssexual. “Nasci com corpo masculino e desenvolvi seios quando cheguei à adolescência” ela diz. “Meus professores não sabiam o que fazer comigo. Eu era vista como um menino e de repente me ‘tornei’ uma menina. Meus pais ficaram preocupados com o que a vizinhança pensaria e acabamos nos mudando para outra cidade”.

Seus traços cromossômicos permitiram com que adquirisse um fenótipo que desejava com o avançar da idade, mas ainda assim os desafios continuaram existindo. Ela foi vítima de cyber bullying por membros da comunidade gay que – invejosos da sua feminilidade, conforme ela explica – desenhavam bigodes em suas fotos do Instagram.

Alta taxa de suicídio

Alguns homens gays escolhem tomar pílulas anticoncepcionais para adquirirem traços femininos através da ingestão de hormônios, à despeito do fato de se saber que isso desencadeia severa depressão. Porém, mulheres trans são as que mais tem risco de se suicidarem conforme apontado por um estudo publicado no Jornal Internacional de Transgêneros em abril de 2016.

Segundo Elijah, o problema por trás do comportamento destrutivo é o sentimento de rejeição. “Transsexuais lidam com o estigma da prostituição”, ela diz, acrescentando que ela frequentemente ouve perguntarem o quanto cobra ao revelar que é trans.

Aqueles que se voltam ao Proud Lebanon pedindo ajuda mencionam a falta de autoestima causada pelo estigma gerado com a falta de oportunidades- razão pela qual a profecia autorrealizadora se confirma.

Em suas aparições na TV, Elijah tenta usar a posição de relativa aceitação para sensibilizar a opinião pública para os desafios travados pelos transexuais, mas ela se recusa a se colocar como vítima. “É verdade que passamos por dificuldades, mas eu não quero que nossa história seja triste”, ela diz. “É uma história de coragem e determinação”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Transgender in Lebanon: ‘A story of courage and determination’

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