Artista resgata a memória LGBT com o projeto “No meu tempo não tinha disso” – Entrevista com Daniel Wu

Quantas vezes você já não escutou que “no passado não tinha disso de homem com homem ou mulher com mulher”? Ou talvez que ser LGBT é “mais uma dessas modinhas que criaram por aí”? Narrativas que colocam a sexualidade e identidade de gêneros queer como sendo só mais uma “invenção moderna”.

Daniel Wu, que em suas palavras se define como “paulistano, fã de pizza e chocolate, neto de chineses e indigenas, gay, casado de papel passado e ilustrador” e que trabalha com games, animações, publicidade, workshops e, principalmente, mercado editorial, com foco infantil e infanto-juvenil, dedicou as suas atividades do InkTober, um desafio onde artistas do mundo inteiro se dedicam a produzir desenhos à tinta durante todo o mês de outrubro,  para resgatar a memória LGBT e lembrar que nós sempre existimos e sempre existiremos.

foto_wuAsiáticos pela Diversidade: Durante as atividades do Inktober você escolheu o tema “No meu tempo não tinha disso”, reproduzindo fotos vintage que registraram a existência de pessoas LGBT do passado. Como que você chegou até essa ideia?

Daniel Wu: Na verdade não é uma história tão linda: eu tive uma crise de ansiedade TENSA quando vi aquele vídeo do estádio de futebol inteiro gritando que ia “matar viado”. Me afetou de uma forma que me surpreendi. Me senti dentro do Coliseu, com pessoas que me conheciam a vida inteira batendo palma para os leões. Passei a noite inteira acordado e o dia inteiro tremendo, com falta de ar, sem conseguir me concentrar em nada, só pensando em quão absurdo a situação havia chegado. E numa hora dessas (acho que todos aqui já passamos por isso), você fica tentando entender o que se passa na cabeça de uma pessoa que acha que isso não é natural, que é algum tipo de escolha consciente, um clube que você escolhe entrar, que é uma birra que escolhemos fazer só para se opor ao sistema. Então eu ficava lembrando dessa galera que diz que “No meu tempo não tinha disso”, reforçando a ideia de que a homossexualidade é alguma coisa nova, inventada. E fiquei em pânico que a ignorância destas pessoas acabasse me matando só por eu ser quem eu sou. Eu já tinha visto algumas coleções de fotos de casais gays vintage e pensei em usa-las de inspiração para ficar ilustrando e lembrando a mim mesmo de como nossa sexualidade é uma coisa que sempre existiu e de como pessoas como nós sempre existiram e resistiram no mundo todo.

ApD: Para esse projeto foi necessário um resgate de imagens de vários países e de diversas épocas, como foi o processo de pesquisa e também quais foram as dificuldades e as descobertas que você teve durante esse projeto.

DW: Fotos achei muitas, mas nas pesquisas descobri que as mais antigas poderiam ser dúbias pois a relação de afetividade não era a mesma que temos hoje. Um homem sentado no colo do outro no início do século XX não necessariamente é a prova de que eles são gays. Preferi por fotos inquestionáveis, onde há uma relação amorosa clara seja através de beijos, afagos ou olhares. Me surpreendi com o teor bastante explícito de algumas antiquíssimas, que não pude colocar no projeto, mas são muito divertidas! Infelizmente também não encontrei muitas fotos dos primeiros anos com diversidade étnica. Não sei ao certo, mas suspeito que seja por quê a fotografia foi por muito tempo coisa da elite europeia, então restringiu bastante.

ApD: E como foi o feedback desse seu trabalho?

DW: Primeiro: eu consegui manter minha sanidade e não surtar. Segundo: fui percebendo que as pessoas se identificaram tanto quanto eu. Não só gays, mas qualquer pessoa que queria se lembrar, no meio desse caos, que sempre houve amor, e que o amor sempre continuou independente de ter permissão ou não. Era como ter um abracinho coletivo no início do dia.

ApD: Para você, qual a maior importância da representatividade LGBT dentro da mídia e das artes?

DW: Acho que é impossibilitar que alguém consiga se esconder da diversidade. Enquanto esta discussão esteve restrita a grupos militantes, muita gente dizia que “no meu tempo não tinha disso”. Trazendo para a mídia não só empodera os LGBTs mas também leva a discussão aos héteros. Seja com personagens que discutem questões sobre sexualidade e homofobia ou com personagens que naturalizam o fato causalmente sendo gays, isso obriga as pessoas a lidarem com a diversidade. É mostrar que não existe mais armário e os homossexuais não aparecem só para deboche, que você vai ter sim que explicar para seu filho ou só deixar que ele absorva de forma natural, mas, de qualquer forma, ele vai crescer em um mundo onde a diversidade não se esconde e isso você não tem como evitar.

ApD: E como pessoa asiática, você já chegou a questionar a respeito da representatividade de pessoas asiáticas dentro do universo LGBT?

DW: Essa é meio complexa para mim por vários motivos. O primeiro é por quê, casualmente, eu não nasci com fenótipos muito orientais, então as pessoas nunca me trataram realmente como um “estrangeiro”, uma “pessoa asiática” (como sei que acontece com alguns mestiços com mais “cara de oriental”), então, como não carrego esse estereótipo de forma tão pesada, acho que seria injusto eu dizer que me sinto tão pouco representado quanto alguém mais “asiático” que eu. Segundo: percebo que, por conta do pós-guerra, o ponto de vista ocidental sobre as pessoas leste-asiáticas (no quesito sexualidade) é a mulher-fetiche e o homem-emasculado. Tanto hétero quanto gays, homens leste-asiáticos nunca têm muita sexualidade no geral na mídia ocidental. Acho que tratar o asiático só como fetiche ou nulo me incomoda mais do que não ter representatividade asiática gay especificamente, o que me leva para o último ponto: acho complicado eu exigir por mais dessa representatividade sexual na mídia universal sendo q a relação dos asiáticos com a sexualidade é bem diferente da nossa. Não sei se cabe a mim demandar por uma maior representatividade de chineses gays, por exemplo, sendo que eles lidam com a homossexualidade de uma outra forma (esse lance de “não apoio, não incentivo, não proíbo”). O que me sinto mais à vontade de fazer é demandar por representatividade de LGBTs asiáticos/descendentes dentro da mídia brasileira/ocidental

ApD: Por final, você gostaria de deixar uma mensagem para as pessoas LGBT e pessoas asiáticas que se sentem desalentados na atual realidade política do Brasil?

DW: Acho que a melhor coisa, por mais surreal que possa parecer, é: não está tão ruim assim. Não me entenda errado: está bem ruim, mas não está tão ruim assim. Faz um tempo que estou resignado com essa eleição, então estou analisando a situação com um pouso mais de calma. 74% dos brasileiros acha que a homossexualidade deve ser aceita. Acho que acabamos de passar pelo olho do furacão, onde todo mundo se polarizou e ficou furioso. Acho que agora a bola vai baixar e precisamos estar prontos para conversar com as pessoas, lembrando que a maioria delas não é maluca. Existem homofóbicos xenofobicos sim e esses precisamos evitar ou deter, mas a maioria não é. E é com esses que, quando tudo começar a bagunçar (por que vai bagunçar), precisamos estar bem para conversarmos e explicarmos nosso lado com calma e argumentos. Temos que fazer com que essas pessoas tenham empatia com a gente, não que nos vejam como inimigos. Assim, quando precisarmos, acho que eles nos ajudarão. Sou bem pessimista, mas acredito nisso.

Veja abaixo os trabalhos da série “No meu tempo não tinha disso” de Daniel Wu. 

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#inktober NO MEU TEMPO NAO TINHA DISSO ❤❤

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<<TEXTAO ALERT>> (mas provalmente o ultimo pq acabou o inktober) NO MEU TEMPO NAO TINHA DISSO ❤ ❤ MEU CASAMENTOOOO ❤ ❤ Esse inktober me tirou de uma crise de ansiedade e me manteve são porque me lembrou pontualmente de duas coisas: 1) todas estas pessoas q desenhei lutatam muito pra q eu pudesse me casar. Esta é a minha história e de todo LGBT, goste dela ou não. Por mais diferentes que sejamos: é a nossa gente. Somos nós em outro ano. Olhando tanta foto antiga me achei muito garotinho mimado achando que JUSTO AGORA a gente não vai aguentar. Elas passaram por coisa MUITO pior pra que a gente pudesse andar de mãos dadas. Então, por respeito a elas, ninguem solta a mão de ninguém. E daqui a gente que continua. Cada um do seu jeito, fazendo o q dá, mas continua; 2) a gente não tá mais sozinho. A gente se fala, a gente se liga, a gente é esperta AND a gente tem uns heteros. A gente esquece da pessoa que está TIRANDO a foto, que está ajudando a preservar aquele momento. O melhor retorno do projeto acho que foi esse: ver q não são só LGBTs que se importam e solidarizam com a causa. Teve gente que não foi surpresa, mas teve gente que foi. Fiquei confuso. Por incrivel q pareça, neste momento 74% do povo acha q homossexuais devem ser aceitos. Pessoas são complexas. Existe gente maluca sim que precisa ser detida sim, mas pelo jeito tb existe gente q não é. Qnd a raiva passar, acho que precisamos conversar. Por isso lembrei do meu casamento: lá tinha gente que eu nem conhecia, gente que discorda de quase tudo q defendo, mas q tava lá comemorando. Foi mais que um momento particular, foi um momento social, um conquista social. E a gente se importa com eles tb. Enfim, acho que esse inktober me deu mta coisa q ainda preciso digerir. Mas uma certeza foi que a história não para. Q toda essa galera vai continuar existindo sim, conversando sim, resistindo sim e se amando sim. E se alguém tem algum problema com isso, melhor ja ir se acostumando. Brigado pelo apoio ❤ agora voltamos com os desenhos FOFINEOS ❤❤

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