Comunidade LGBT do Paquistão cria esperança depois de decisão da corte indiana

Tradução do texto de Kunwar Khuldune Shahid originalmente postado no Asian Times.

_______________________________

O veredito histórico da suprema corte da Índia de descriminalizar o sexo gay gerou uma onda de celebrações entre a comunidade LGBT do Paquistão.

Porém, a comunidade LGBT paquistanesa ainda continuará vivendo sob a seção 377, a lei britânica da época colonial com mais de 157 anos que criminaliza a homossexualidade dentro do código penal paquistanês.

Diferentemente dos seus vizinhos, a comunidade LGBT paquistanesa tem enfrentado uma forte oposição contra a sua própria existência. Isso por causa da existências de leis da Sharia no formato dos ordenamentos Hudood que foram adicionados ao código penal sob o governo ditatorial do islâmico Zia-ul-Hag em 1977.

Sob as leis de Hudood a punição da homossexualidade é o apedrejamento até a morte. Isso é porque quase todos os membros LGBT mantêm a sua sexualidade um segredo e normalmente se conectam com outros homossexuais pela internet, onde a maioria usa pseudônimos para esconder as suas identidades.

Em uma entrevista com a Asia Times, pessoas LGBT expressaram a felicidade sobre o veredito da suprema corte, afirmando que a decisão permite aos movimentos locais a “ousarem a sonhar”.

“Nós sabemos que estamos anos atrasados para conseguir ter a nossa existência reconhecida, e quem dirá sermos aceitos por quem somos, mas decisões como a da Suprema Corte da Índia descriminalizou a homossexualidade ou o reconhecimento do casamento igualitário pela Suprema Corte dos Estados Unidos nos dá esperança”, conta Ayesha, uma profissional da comunicação que vive com a sua parceira em Lahore nos últimos cinco anos.

“Ironicamente, é mais fácil para nós morarmos juntas do que um casal heterossexual que não é casado, mas o fato de que o nosso amor não é reconhecido ainda machuca muito. Mas ações como a da Índia nos permite ousar em sonhar que um dia, esperamos, o Paquistão legalize o casamento homoafetivo também”.

A resistência paquistanesa contra a homossexualidade não é só uma questão doméstica. A nação tem se oposto em todos os movimentos das Nações Unidas em reconhecer os direitos LGBT.

Em 2003, o Paquistão estava entre os cinco países muçulmanos que descarrilhou a proposta das Nações Unidas de criar uma resolução sobre os direitos LGBT. Em 2008, um bloco de 57 nações que incluíam membros da Organização de Cooperação Islâmica se opuseram à resolução.

Em 2011, quando a primeira resolução sobre direitos LGBT foram aprovadas por 23 votos contra 19, o Paquistão estava entre aqueles que votaram “não”. A nação também votou contra os direitos LGBT em 2015.

“Essas resoluções buscavam o reconhecimento básico de direitos LGBT, e não a legalização do casamento igualitário”, comenta Asim, um professor universitário que somente se assumiu gay para alguns amigos de confiança.

“O voto do Paquistão contra as resoluções das Nações Unidas basicamente são uma recusa de reconhecer pessoas LGBT como seres humanos. Isso acontece porque muitos na população carrega uma imagem venenosa contra nós”, ele adiciona.

Uma pesquisa de 2013 revelou que 87% dos paquistaneses querem punições duras contra a homossexualidade. Ativistas LGBT apontam que esses sentimentos, incentivados pela divulgação islâmica, significam que levaria muito tempo para que a comunidade consiga superar essa inércia radical.

“Nós estamos décadas atrasados em relação ao desenvolvimento em comparação com a crescente radicalização. Nós não temos nem um movimento LGBT estabelecido. Nós não temos campanhas públicas e ativas contra a seção 377, nós temos que nos focar nos abusos contra os direitos humanos”, diz Salman, um jornalista e ativista de Karachi.

Salman também conta que o movimento LGBT paquistanês foi estabelecido com a ajuda de seus companheiros indianos. “Eu vi os ativistas indianos e os seus sacrifícios. O movimento contra a seção 377 tem décadas de idade. A coisa mais bonita sobre isso foi que ela foi liderada pela comunidade LGBT e apoiada por aliados”.

Ativistas apontam que fissuras dentro da comunidade LGBT estão prejudicando a causa. Isso ficou mais proeminente depois que a lei de direitos trans foi aprovada em Maio. E apesar disso, a discussão sobre a homossexualidade ainda se mantêm como um tabu.

“Nós temos veteranas do ativismo trans como Almas Bobby aparecendo na televisão e nos criticando e dizendo que os gays estão usando o movimento deles para se destacarem. Infelizmente, existem pessoas dentro do movimento trans que são contra os direitos de pessoas homossexuais”, conta Salman.

Porém, existem ativistas importantes clamando para que a comunidade LGBT se mantenha unida e retirem força dos outros. Entre elas está Aradhiya Khan que aponta que as leis de direitos trans deveriam ser um pontapé para a conquista de gays e lésbicas no Paquistão.

“Nós deveríamos manter a paz entre nós e não permitir que outros nos abalem. Nós não podemos discriminar outras pessoas dentro da comunidade LGBTQI, só por causa da sua idade, cor, raça, classe ou religião. Nós não podemos impor restrições e expulsar aqueles que nós pensamos que não pertencem ao grupo”, ela conta para o Asia Times.

“Para a comunidade LGBTQI do Paquistão essa é a hora para sermos quem somos e resistirmos contra as forças que estão lá fora contra o nosso amor e nossa existência” ela adiciona.

*Alguns nomes foram alterados para a proteção dos indivíduos.

_______________________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Pakistani LGBT community dares to dream after India ruling

Curta metragem paquistanês estrelando a atriz trans Kami Sid, tem estréia em festivais internacionais

Filme gay considerado muito sensual pela censura finalmente estreia na Índia

“Eu sonho em realizar uma marcha do orgulho na Caxemira” Aijaz Ahmad Bund

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: