Comunidade LGBT do Camboja: Abandonada nas periferias

Tradução do texto de Sheila Yuan Jiahuan originalmente postado no Khmer Times.

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Ouk Chan Dara estava sentada em um café em Phnom Penh, usando uma sombra azul marinho e um batom vermelho brilhante. Muitos transeuntes olhavam curiosos.

“Eu me acostumei com isso” explica Ouk, “Eu normalmente sou insultada e algumas vezes assediada quando caminhava pelas ruas”.

Por quase 40 anos, Ouk vive uma complicada vida como mulher, uma identidade que trouxe diversos desafios para ela.

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No Camboja a orientação sexual e identidade de gênero são considerados há muito tempo como um tema polêmico.

“Quando eu tinha seis anos de idade, eu senti que eu era diferente dos outros meninos da vila”, Ouk se lembra. “Eu amava me vestir com saias, ter cabelos longos e brincar com brinquedos de pelúcia”.

Em 1979, Ouk se assumiu trans. Na época a comunidade LGBTIQ ainda estava relativamente invisível no Camboja. Orientações sexuais e identidades de gênero são consideradas há muito tempo como um tema polêmico. E as relações LGBTIQ eram vistas como sendo contra a cultura tradicional e contradizentes à ordem social do estado.

“Minha mãe me insultou e me bateu muito, e disse que eu não era o filho dela. Ela disse para eu ficar longe de casa”, conta Ouk.

Com apenas 17 anos, Ouk teve que sair de casa. Como uma adolescente sem nenhuma habilidade, ela não tinha acesso à um serviço decente na época. Por dez anos, ela dormiu na rua e trabalhou como ajudante de limpeza.

As mudanças surgem lentamente

Três décadas depois, risadas enchem o ar; bandeiras do arco-íris balançam nos tuk-tuks, Phnom Penh imerge em um mar de cores durante o Festival do Orgulho. Essas cenas podem facilmente fazer com que as pessoas achem que a comunidade LGBTIQ é abertamente aceita no Camboja.

Mas, isso ainda está longe da realidade.

“Mais e mais pessoas estão saindo do armário, mas a sociedade cambojana ainda não dá para essas pessoas o suporte e compreensão que eles merecem” conta Thida Kuy, especialista LGBTIQ da Nações Unidas Mulher do Camboja.

De acordo com o Relatório Revele o Arco-Íris das Nações Unidas sobre comportamento sexual desde o ano de 1990, incentivado pela epidemia global de HIV, ocorreu um aumento na conscientização e no debate sobre orientações sexuais e identidades de gênero.

O primeiro evento do Orgulho foi celebrado em 2003. Um ano depois, o rei Norodom Sihanouk, antigo rei do Camboja, fez um anúncio público apoiando os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo em 2004. A declaração real se manteve imutável sob o regimento do atual rei, que publicou um editorial no Phnom Penh Post em 2012 intitulado “Ser gay não é errado”. Também, em 2012, o primeiro ministro Hun Sen, realizou um discurso demandando que os cambojanos sejam mais receptivos em relação a homossexualidade.

Desde então, o país observou uma crescente visibilidade da comunidade LGBTIQ e um aumento de organizações e atividades sociais.

Mas, apesar de todo o apoio da família real e de algumas figuras públicas, legislações contra a descriminação ainda estão para serem escritas e aqueles que violam os direitos de pessoas LGBTIQ permanecem impunes. Sem proteção legal, a maioria das pessoas LGBTIQ vivem confrontando abusos psicológicos e físicos na família, nas escolas e nos lugares de trabalho.

Em 2017, um consórcio das Nações Unidas lançou um projeto com o objetivo de reforçar as relações entre organizações sociais do Camboja que trabalham com questões LGBTIQ e o governo Cambojano. Espera-se que isso levará à uma reforma legal e o aumento da proteção dos direitos LGBTIQ.

Fora da jaula tradicional

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“Quando eu me assumi um homem trans, minha família ficou muito brava comigo”, disse Trika*, um ativista LGBTIQ de 28 anos. “Minha mãe pediu para eu tomar uma decisão: ou eu escolhia ser quem eu era [um homem trans] ou permanecer na família. Se eu seguisse as expectativas dela, ela continuaria me amando e me apoiando”.

Valores da família “tradicional” tomam um papel importante no dia a dia da vida dos cambojanos. Esperasse que jovens se casem em relacionamentos heterossexuais e comecem uma nova família, que é considerada parte do reforçamento das normas sociais. Enquanto isso, enquanto eles descobrem suas orientações sexuais e identidades de gênero, muitos sofrem ameaças e pressões de suas famílias.

Trika tinha 23 anos quando foi expulsa de casa pelos pais. Felizmente, Trika recebeu o apoio de organizações não-governamentais e conseguiu ficar em um abrigo por meio mês.

De acordo com um relatório de 2014 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, muitos pais deserdam seus filhos LGBTIQ porque eles acham que isso trará vergonha e desonra para a família.

“Eu escolhi ser verdadeira comigo mesma. Minha mãe disse que ela não tinha uma filha que ama mulheres. Ela não podia aceitar isso”, disse Trika.

Atualmente, ele está morando com os seus pais, mas ainda enfrenta violência física e emocional.

“Já se passaram cinco anos. Meu pai ainda não me aceita”, ele conta.

An Chou* é a namorada de Trika, as duas estão juntas já a quase três anos. An é formada em direito pela Universidade Real de Direito e Economia em Phnom Penh, e conta que ela sempre sofre discriminação indiretamente de colegas de classe e professores.

“Meu professor disse durante a aula que se um dia nós nos tornarmos advogados, não deveríamos lutar a favor da legalização do casamento homoafetivo”.

Trika visita a casa de An algumas vezes, e foi ele que persuadiu a mãe de An a deixar que a filha continuasse estudando direito na universidade. Na visão da mãe de An, Trika é como outra filha, uma irmã mais velha de An.

“Eu tenho que estar preparado, um dia quando a família dela descobrir a verdade, eu posso ser atacada fisicamente. Mas eu amo ela. Eu tenho que protege-la, e permitir que eles façam isso comigo”, contra Trika.

Pessoas LGBTIQ, em especial jovens, são vulneráveis a ataques homofóbicos e abusos dentro da comunidade que eles moram, normalmente de pessoas próximas deles, como familiares e vizinhos, de acordo com o relatório das Nações Unidas.

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“Minha mãe nunca olhou para o meu rosto ou falou comigo desde que eu me assumi, mas eu nunca me arrependi. Eu só quero poder ser eu mesma”

Eu sou quem eu sou.

Hoje, com 53 anos, Ouk já tem se prostituído a mais de 20 anos.

Ela já recebeu muitas cicatrizes durante a sua vida enquanto explorava a sua identidade de gênero. Em 1991, ela foi presa por dois anos por prostituição, e hoje ainda encara assédios verbais diariamente. Mas as cicatrizes que mais doem foram feitas pela sua família.

“Minha mãe nunca mais olhou para a minha cara ou falou comigo desde que eu me assumi, mas eu não me arrependo” ela coloca sua mão em seus olhos úmidos e conta “eu só quero ser eu mesma”.

As Nações Unidas da Camboja tomou passos cruciais em 2017 ao organizar diversos eventos que elevaram a voz da comunidade LGBTIQ até o governo. Em uma consultoria organizada pela Nações Unidas Mulher, representantes LGBTIQ levantaram três áreas prioritárias onde mudanças políticas poderiam fazer a diferença em suas vidas: Aceitação social das comunidades e familiares, trabalho, e parâmetro legal, que inclui identidade de gênero, casamento e direitos parentais.

Ouk tem esperado por proteção legal e aceitação da família por quase três décadas. Ela gostaria de ver as gerações LGBTIQ mais novas crescerem em um espaço seguro, onde eles poderiam exercer os seus direitos sem sofrerem discriminação ou violência.

“Um dia, a sociedade irá aceitar que nós estamos certos, somos verdadeiros e amamos. Eu tenho essa esperança, é por isso que eu me mantenho de pé”, conclui Trika.

*Nomes alterados para proteger a identidade dos entrevistados.

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Links relacionadas:

Matéria original (Em inglês): Cambodia’s LGBTIQ Community Adrift in the Divide

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