O que eles disseram? LGBTfobia domina no atual partido governante do Japão

Tradução do texto de Jake Adelstein e Mari Yamamoto originalmente postado no Daily Beast.

_________________________________

“O dinheiro de impostos não deve ser desperdiçado em casais gays… Eles não conseguem se reproduzir e por isso são ‘improdutivos'” – Mio Sugita, legisladora do Partido Democrática Liberal (LDP)

“Não existe a necessidade de legalizar o casamento gay… a homossexualidade é como um hobby” – Tomohide Tanigawa, legislador do LDP

“É melhor não falarmos sobre essas coisas” – Toshihiro Nikai, Secretário Geral do LDP

O Partido Liberal Democrático do Japão, que não é nem muito liberal nem muito democrático, tem tido problemas com o discurso de ódio desde que o líder do partido, Shinzo Abe, se tornou o primeiro ministro em 2012.

Por muitos anos, todos os problemas do Japão foram atribuídos à um pequeno grupo de coreanos-japoneses (zainichi). Mas recentemente um novo bode expiatório emergiu dos problemas sociais do Japão com a queda de natalidade: A comunidade LGBT.

A atual corrente começou no final de Julho com a Mio Sugita, que supostamente foi recrutada para se unir ao LDP no ano passado pelo próprio Abe. Ela já flertava com visões extremistas antes. Nenhuma surpresa até aí. Mas agora ela declarou que o dinheiro dos impostos não deveriam ser gastos em casai gays porque eles não se reproduzem. Então um vídeo dela voltou a tona onde ela ri enquanto discute os altos índices de suicídio de pessoas LGBT no Japão.

Por semanas, o partido de Sugita pareceu tolerar as visões dela. Mas, os japoneses e até mesmo a mídia não permitiu que isso passasse em branco, e agora até mesmo dentro do LDP surgiram exclamações de raiva e desgosto.

Mas a lição foi aprendida?

Ser LGBT no Japão

Atualmente, cerca de 8% da população se identifica como LGBT. Enquanto que o Japão não reconhece legalmente o casamento homoafetivo nacionalmente, governos locais, incluindo os distritos de Shibuya e Setagaya de Tóquio, se utilizaram de ordenanças para reconhecer parcerias civis homoafetivas. Outras prefeituras estão tomando medidas similares.

A cervejaria Kirin, a loja on-line Rakuten, e algumas outras corporações japonesas estão tomando a frente com políticas que oferecem os mesmo afastamentos remunerados para casamento, nascimento/adoção de filhos, e outros eventos da vida para casais do mesmo sexo. (Note que mesmo as corporações mais pesadas são capazes de perceber algo que os políticos do LDP não conseguem: sim, casais homoafetivos podem ter filhos).

Apesar do progresso que o Japão teve em algumas áreas, ainda não é nada fácil ser LGBT em um país onde a conformidade é a lei. A Anistia Internacional resume a situação sucintamente. “No Japão, pessoas LGBT ainda encaram discriminação em casa pelos familiares, no trabalho, na educação, e no acesso a serviços de saúde. Apesar de indivíduos poderem oficialmente alterar o seu gênero no Japão, eles não conseguem se casar e precisam passar por um processo de esterilização, assim como uma cirurgia de transgenitalização. Alguns políticos e autoridades governamentais até mesmo fazem declarações explicitamente homofóbicas em público”.

A protegida de Abe

Sugita acendeu o fogo ao contribuir um artigo intitulado “Apoio para LGBTs foi longe demais!” na edição de agosto da SHINCHO 45, uma revista mensal conservadora, que foi publicada no dia 24 de Julho. O título da edição era “Como o Jornal Asahi está destruindo o Japão”.

O Jornal Asahi é um dos jornais mais liberais do país e tem sido comparado com o New York Times. O Asahi é antagonizado pelo primeiro ministro Abe, que tem publicamente atacado o jornal, e que em seu encontro com o president Donald Trump disse que “Eu espero que você dome o New York Times assim como eu domei o Asahi”. Muito tempo antes de Trump declarar que a imprensa de “inimigos do povo”, Abe já estava fazendo uso efetivo dessa tática. (Quando Steve Bannon chamou Abe de “Trump antes de Trump”, ele não estava muito errado).

Em seu artigo, Sugita elaborou uma teoria de que as matérias excessivas do Asahi sobre as temáticas LGBT tem tornado o tema popular a ponto de apoiar campanhas de políticos, e por isso ganhando apoio e atenção. Ela declara que o Japão sempre foi tolerante à homossexualidade, diferente de outras culturas religiosas, e afirma que a população LGBT do Japão não sofre nenhuma discriminação.

“Nós teremos irmãos casando uns com os outros, pais se casando com seus filhos, talvez até mesmo se casando com animais, ou casamentos com máquinas. No exterior, existem esse tipo de pessoas aparecendo” – Mio Sugita, legisladora do Partido Democrático Liberal (LDP)

Existe um pouco de verdade sobre pessoas LGBT raramente encararem perseguição religiosa no Japão, mas afirmar que não existe discriminação contra eles vai totalmente contra a razão e os fatos.

De acordo com Sugita, se existe qualquer tipo de discriminação ela não é um problema sistemático mas um problema pessoal entre indivíduos e familiares. Ela ainda argumenta que ela mesmo não tem problemas com indivíduos LGBT e por isso ela fala por todo o povo japonês.

Depois de falhar em reconhecer qualquer existência de problemas, ela afirma que “pessoas LGBT não se reproduzem então nós devemos gastar dinheiro dos impostos com eles”. Ela continua expressando o seu medo que essa tendência de permitir e reconhecer preferencias sexuais “anormais” continue e que isso poderia ser o fim da nação japonesa.

E então ela fala isso:

“Se nós permitirmos e reconhecermos muitas preferências sexuais, as coisas não vão parar no casamento gay. Por exemplo, nós teremos irmãos casando entre si, pais casando com seus filhos, talvez até mesmo casamentos com animais, ou casamento com máquinas. No exterior, existem pessoas desse tipo aparecendo”.

Assim que a revista chegou nas prateleiras, a internet se encheu de raiva no lado liberal, enquanto um apoio forte surgiu de apoiadores conservadores do LDP e da netto-uyo (Uma brigada de trolls da internet direitista japonesa)

O secretário geral do LDP no começo se recusou a condenar o artigo de Sugita. “As pessoas tem direito as suas próprias opiniões”, ele disse. Sugita colocou mais lenha na fogueira ao tweetar que ela recebeu o apoio de membros do partido no “gabinete de ministros”, mas depois deletou o seu tweet.

Sugita está vendendo o seu ponto de vista há já muitos anos e depois que o artigo saiu, um vídeo do programa “Da terra do sol nascente” emergiu na internet com legendas traduzidas. No vídeo, Sugita aparece rindo da alta taxa de suicídios na comunidade LGBT, afirmando que isso não significa que o governa precisa priorizar o seu apoio.

Mio Sugita, que não estava disponível para comentar, assim como muitos outros legisladores do LDP, uma direitista extremamente leal à Abe. Isso é muito importante entender orque ela é um microcosmo das poucas mulheres que conseguiram ganhar poder dentro do LDP, que tem governado o Japão desde a sua criação em 1955. Mesmo quando a legisladora é do sexo feminino, elas raramente são feministas e normalmente reproduzem o sexismo e as visões extremistas do Nippon Kaigi, um culto xintoísta da extrema direita. Esse grupo ajudou Abe a realizar o seu retorno depois da sua desastrosa saida em 2007; a maior parte dos membros do gabinete pertencem a esse grupo.

Sugita tem negado o uso de escravas sexuais pelos militares japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, dizendo que é um mito criado pela esquerda promovido pelos coreanos já que “eles espalham mentiras ao redor do mundo”.

Ela também causou a ira de muitos dentro e fora do Japão depois de aparecer no documentário da BBC “A vergonha secreta do Japão” que conta a história da jornalista e vítima de estupro Shiori Ito. O filme é uma dolorosa porém empoderadora visão da realidade que Ito encarou depois de lutar não só contra o seu estuprador, que era um amigo íntimo do primeiro ministro, mas contra o sistema – que desencoraja as mulheres de até mesmo registrar acusações.

Enquanto muitos apoiaram Ito, o filme apresenta Sugita como a voz da oposição, que essencialmente chamava Ito de criminosa. Ela sugeria que no caso da Ito, a culpa era dela. “Existem erros evidentes no passado dela como mulher – bebendo daquela maneira na frente de um homem e perdendo a sua memória”.

Da internet para as ruas

A indignação contra o artigo de Sugita não se confinou na internet. Centenas de cidadãos LGBT se uniram no dia 27 de Julho e organizaram um protesto em frente à sede do Partido Democrático Liberal demandando a renúncia de Sugita.

Erika Bulach, uma estudante de 20 anos de ciências sociais, participou da manifestação porque acreditava que essa era a única maneira de políticos prestarem atenção nos seus problemas. “Os comentários de Sugita fazem parte dos comentários sexistas que se acumulam diariamente aqui. Eu queria protestar ativamente. Mais do que o público, os políticos japoneses tem pouca sensibilidade moral quando o tema é assédio sexual, discriminação de pessoas LGBT ou sexismo. É difícil acreditar que umas das poucas mulheres a se tornar membro do parlamento diria algo desse tipo. Foi muito desapontante”. Ela disse que ficou surpresa da vasta diversidade de pessoas que apareceram na manifestação, jovens, velhos, homens, mulheres, héteros e pessoas LGBT. “Foi inspirador”.

Nanami Uchiyama, uma estudante de 18 anos que também participou do protesto, ficou impressionada que pessoas vieram de todo o país. “As declarações de Sugita são imperdoáveis mas possivelmente elas vieram da pura ignorância. Educação sexual nas escolas públicas japonesas é uma piada. Diversidade sexual ou identidades sexuais não são debatidas e no máximo existe uma vaga discussão sobre contracepção e ISTs” Ela e outros ficaram sabendo do protesto pelo twitter e redes sociais e decidiram comparecer.

Parcialmente por causa dos protestos, o LDP não pode mais ignorar o sentimento do público. Surgiram também vídeos postados nas redes sociais que mostravam o jornalista conservador e apoiador de Abe, Yoshiko Sakurai, explicando que Sugita recebeu um apoio oficial do LDP nas eleições de 2017 porque Abe pessoalmente considerava ela uma ótima política. O único rival de Abe pelo poder do partido, o ex-ministro da defesa Shigeru Ishiba, condenou abertamente a escrita de Sugita em um discurso feito no dia 28 de Julho na província de Hyogo.

LDP volta atrás, mais ou menos

Finalmente, em um esforço de encerrar a história, o LDP postou uma nota em seu site, no dia primeiro de agosto, que reconhecia que as declarações de Sugita “faltavam com consideração pelos outros” e que ela seria instruída em como se comportar adequadamente. Sugita respondeu com um comentário que ela iria encarar a repreensão com seriedade. Abe, encurralado durante um discurso no dia dois de agosto, não condenou Sugita nem pediu para que ela se desculpasse ou se retraísse. Ao invés disso ele disse “Faz parte das políticas do governo e do atual partido… buscar uma sociedade onde os direitos humanos e a diversidade são respeitadas”.

A Aliança Japonesa de Legisladores Municipais LGBT lançou uma declaração no dia 3 de agosto dando créditos ao LDP por pelo menos reconhecer que existe um problema, mas que essa resposta foi muito vaga: “Quando você considera como as declarações de Sugita feriu não somente pessoas LGBT, mas famílias sem crianças, mulheres, pessoas com deficiências ou em dificuldades financeiras, ela devia se desculpar ou fazer uma retração do que ela disse. Como um membro do Parlamento, ela não cumpriu com as suas responsabilidades de se explicar”.

Mas o preconceito beirando a patologia corre solto no LDP. Logo depois que o furor pareceu diminuir, a internet ficou em chamas novamente quando no dia 29 de julho um programa de uma web-série com um membro do parlamento Tomohide Tanigawa foi ao ar, onde ele declara que “não é necessário legalizar o casamento gay… a homossexualidade é um hobby”.

A indelicadeza para com a comunidade LGBT pelo partido que atualmente governa o Japão faz parte de um padrão de implicar com os mais fracos da sociedade, culpar eles por serem fracos e por outros problemas maiores da sociedade. Quando as pessoas afirmam que elas tem direitos, o LDP pressiona ainda mais, seja contra pessoas LGBT, trabalhadores estrangeiros, mulheres, terceira geração de coreanos-japoneses ou a imprensa – quando as coisas estão ruins, as minorias são culpadas.

Culpar a comunidade LGBT pela queda da taxa de natalidade do Japão é muito fácil do que encarar as verdadeiras razões pelas quais japoneses não tem mais filhos: a falta de oportunidades reais de emprego pra mulheres, desigualdade de gênero, pobreza de pais solo, a destruição de leis trabalhistas de maneira que segurança trabalhista se tornou um sonho, uso endêmico de horas extra resultando em pessoas morrendo por excesso de trabalho (karoshi), assédio sexual no trabalho, assédio maternidade. O homem rico que rege o partido não tem ideia de que as longas horas de trabalho e os salários baixos tornam namoros difíceis, se casar um desafio, e criar crianças impossível. Tudo isso um aumento na pobreza enquanto a Abenomics está em ação.

É muito mais fácil movimentar uma guerra contra pessoas LGBT do que mover uma guerra genuína contra a pobreza.

_________________________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): They Said What?! Anti-LGBT Prejudice Reigns in Japan’s Ruling Party

Sistema de previdência social do Japão tem melhorado para pessoas trans mas ainda oferece obstáculos

Políticos LGBT demandam explicação de Mio Sugita depois de comentários controvérsios sobre casais homoafetivos

Placa em banheiros de Osaka provocam mais dano do que ajudam a causa LGBT

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: