Um imã gay lutando por tolerância

Tradução do texto de Naomi Conrad originalmente publicado na DW.

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Quando a sua mãe lhe contou que ela não mais pensava que ele era doente e fraco, ou até mesmo degenerado, Ludovic-Mohamed Zahed conta que se sentiu tonto, chocado demais para sentir orgulho ou alívio: “Ela disse: ‘Você pode ter um marido se quiser, assim como a sua irmã. Eu aceito você'”.

Zahed, um homem magro que fala com a intensidade e eloquência de alguém que está acostumado a lutar por sua causa vezes e mais vezes, sorriu: tinha lhe tomado 10 anos para convencer a sua família da Tunísia que ele não era um “viado que podia ser insultado e espancado como um cachorro”, mas um homem gay e muçulmano praticante que abriu o que ele chama de uma “mesquita inclusiva” em Paris no ano de 2012. Em 2011 ele se casou com o seu parceiro. Sua mãe, contou ele ao DW, compareceu ao casamento.

Zahed conta que sociedades muçulmanas foram historicamente mais tolerantes à homossexualidade do que as culturas cristãs, muitas das quais ser LGBT é considerada uma “depravação”;  hoje em dia, porém, as coisas mudaram. Países europeus tem aumentado legislações pró-LGBT e visões homofóbicas tem ganhado espaço em muitos países muçulmanos.

Em países como o Irã ou Arábia Saudita, a homossexualidade é uma ofensa capital; em outros países ela pode receber a sentença de longos períodos de prisão – e comumente homossexuais são forçados a viver escondidos e em casamentos infelizes para manter as aparências.

“Todos são bem vindos”

Apesar de pequenas nichos de tolerância existirem, eles normalmente são precários: ativistas LGBT do Egito, um país que tem punido brutalmente homossexuais nos últimos meses, contaram para a DW sobre o medo e o sufoco de levar uma vida dupla e a necessidade diária de usar mensagens criptografadas e palavras codificadas. E uma irritada, e sincera mulher trans que mora em Beirut, se lembra de temer que algum dia ela chegue a encontrar nas ruas com o seu tio, um alto membro da milícia xiita do Hezbollah. “Ele iria me matar”, ela contou.

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Zahed abençoando um casal de lésbicas em Stockholm, 2014.

Um porta-voz da mesquita Al-Nur em Berlin, que prega uma interpretação fundamentalista do Islã, respondeu bruscamente à pergunta da DW sobre homossexualidade e islamismo em sua mesquita: “Desculpe-me, você acabou de me acordar. Eu não posso responder essa questão agora. Me ligue mais tarde”. DW tentou diversas vezes entrar em contato com ele no horário combinado, mas ele não respondeu mais o telefone.

Outros, porém, são mais acolhedores: Ender Cetin, um porta-voz da mesquita Sehittlik em Berlim, que pertence à maior associação de mesquitas da Alemanha, a DITIB, tem apontado várias vezes no passado que a sua mesquita está aberta para muçulmanos homossexuais e que ele “se opõe fortemente” a qualquer discriminação em sua comunidade caso elas aconteçam. “Todos são bem-vindos em nossa mesquita” ele conta a DW.

Mas a tolerância expressa por Cetin pode ser uma exceção: A maioria das mesquitas “estão muito longe de serem abertas para homossexuais”, conta Jörg Steinert, da Associação de Lésbicas e Gays (LSVD) em Berlim, para a DW, “mesmo aquelas que se apresentam como abertas e liberais”. E normalmente, ele continua, essa tolerância está lá somente como fachada.

Muçulmanos forçados a levar uma “vida dupla”

Steinert, que a DW encontrou em seu escritório cheio de posteres mostrando casais homossexuais se beijando, se encontrou com diversos muçulmanos forçados a levar uma “vida dupla”. Casamentos forçados são comuns, ele conta, assim como ameaças e maus-tratos por parte de membros da família. E muitos muçulmanos que buscam ajuda no seu escritório estão divididos entre a sua sexualidade e a sua religião que os faz acreditar que os rejeitam por serem “doentes”.

Por causa disso que Steinert e seus colegas convidaram Zahed para via a Berlim – para mostrar para eles que homossexualidade e islamismo são na realidade compatíveis: “Eu lutava com duas identidades também: eu estava perdido e dividido entre minha religião e minha sexualidade”, ele contou para a DW. Mas então, ele contou que ele percebeu que o Islã apresenta uma mensagem de tolerância e paz – e que ele podia ser ambos: gay e muçulmano.

Desde então, ele fez isso da sua missão de vida convencer outros também a lutar contra o conservadorismo, interpretações intolerantes do Islã que ele chama de “fascistas”.

“Arriscando minha vida”

O Corão, ele reforça várias vezes, não condena a homossexualidade. Mas o que falar da tão citada referência as abominações de Sodoma e Gomorra? Zahed balança a cabeça. Aquilo, ele fala confiante, é mais sobre o “ritual do estupro”, não a homossexualidade. “Existem diferentes formas de interpretar isso: É mais uma lição sobre violência sexual, do que a maleza da homossexualidade”.

E essa interpretação moderna é algo que eu “estou arriscando a minha vida”, ele adiciona silenciosamente. Zahed, que mora na França, está acostumado com mensagens pelo Facebook afirmando que ele está “desonrando o Islã” e deveria “queimar no inferno”.

Ele deu de ombros: Algumas vezes, ele admite, ele sentia que estava constantemente lutando com um redemoinho e ódio e preconceito.

Mas mesmo assim, ele conta, ele estava convencido de que o Islã iria eventualmente se reformar e modernizar. A receita? Uma mistura de apoio governamental para mesquitas liberais e organizações, imãs treinados a “abraçar a democracia e os direitos humanos” do que importar diálogos estrangeiros, e, acima de tudo, um aumento econômico e estabilidade política no mundo árabe.

“Veja, se você tem trabalho e um futuro, então você não irá se importar com quem alguém vai a cama” ele conta, sorrindo ironicamente.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): A gay imam, fighting for tolerance

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