Por que Queer Eye é um Reality Show diferenciado?

Texto de Nassim Golshan.

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À príncipio Queer Eye não parece ser tudo aquilo. Apenas mais um reality show em que pessoas têm suas vidas transformadas. Visual novo, casa nova, etc, já vimos muitos programas com essa proposta antes. Mas por que se tornou uma série tão bem recebida, especialmente pela comunidade LGBT?

Se você responder que simplesmente é por ter apresentadores LGBTs, parabéns. Mas a questão não para ai. O que de fato significa representatividade nas mídias? De fato haver pessoas com as quais possamos nos identificar é fundamental, dá margem para abarcar a problemática da invisibilidade de minorias o que não é pouca coisa. Todavia, é muito importante pensarmos na representatividade não simplesmente como mera presença do sujeito lá, mas qual o papel que desempenha no espaço que lhe é destinado, qual a rachadura que cria na sociedade expressando sua forma de ser.

Não se ver refletido e representado é um problema tão sério uma vez que não se tendo modelos, vemo-nos limitados em constituir a nossa identidade, de modo que ao nos defrontarmos com o fato de sermos minorias nos sentirmos ainda mais sós em não saber quem podemos ser e nos tornar e não saber como isso pode ser possível. Quando ouve-se que “você está chamando muita atenção com essas roupas/jeito de falar, etc”, “você não vai conseguir emprego se dizer para todo mundo que é assim”, “ninguém precisa saber o que você faz dentro de quatro paredes, então por que ficar dizendo por ai sua orientação sexual?” a humilhação social está sutilmente impregnada de uma escancarada deslegitimação do ser. Seja, mas não seja na frente dos outros – logo não seja você nas relações sociais. Expresse-se no privado, proteja-se no particular – logo, o público não te pertence. Seja quem precisa ser, mas não confronte quem pensa diferente de você – logo, não lute pelo mundo que você acha que seria mais justo para você. Em suma, não exista. De todos os lados estamos nos deparando com tentativas inesgotáveis de acreditarmos que nem deveríamos estar aqui para começo de conversa, mas já que estamos vamos nos comportar como não estivéssemos para não gerar incômodo num mundo que nem deveria ser nosso também.

Como confrontar pensamentos intolerantes e combativos? Ao não ter a representatividade na mídia, o contato já tão restrito nas vidas pessoais de cada sujeito minoritário se amplia socialmente confirmando que você não deveria mesmo estar aqui. Queer Eye foi para mim um programa tão marcante justamente por romper com essa lógica e mostrar que sim, é possível construir diálogo e impacto ao extravasar que estamos aqui e o modo de vida que defendemos tem muito a contribuir não só para nossa vida, mas para a de todos.

Em praticamente todos os episódios, quando os 5 fab chegam ao lar do cliente – em quase todas as vezes homem, hétero, cis e branco – constatamos um visível desconforto. Todos os comportamentos não verbais e verbais parecem dizer “o que vocês pensam que estão fazendo”, “eu não tenho nada a aprender com gays”, “acho que isso é demais pra mim”.

O que acontece é que em modos de praxe já vistos na TV os 5 Fab trabalham com o cliente interesses como gastronomia, moda, autocuidado, comportamento, cuidado do lar, enfim, tópicos que na reforma da vida da família ficam restritos à mulher, mas não dessa vez. O programa não se trata de endireitar homens héteros e masculinizados mas justamente de ressignificar o que vem a ser um ser humano, inclusive o homem hétero e masculinizado. Se um indivíduo é dessa forma não há nada de errado, não cabe a ninguém mudar isso. Agora o que significa sê-lo? Ai vem a intervenção. Como dizer-se homem macho se você nem sabe preparar uma refeição e nunca parou para separar sua própria roupa? Você é descuidado com essas coisas por que escolheu ser ou porque até hoje não aprendeu a viver sem uma mulher que faça esses deveres que na verdade são responsabilidade sua? Como você diz que quer uma dia receber uma mulher em casa, ter uma esposa, filhos se nem sabe cuidar de você mesmo, se nunca parou para pensar em quem quer se tornar e qual o propósito da sua vida. Como o fará quando se defrontar com demandas de uma parceira ou demandas coletivas de uma família? Ser homem não é diferente de ser humano, e quando eu aprendo a observar a origem das minhas necessidades e aprendo a por conta própria satisfazê-las eu aprendo a me respeitar. Aprendendo a me respeitar eu aprendo que não tem por que julgar a vida dos outros, pois minha jornada com todos os privilégios não tem sido nada fácil quem dirá de quem teve que lutar muito mais para viver na condição de minoria?

Não sei se os produtores do programa ou os apresentadores se deram conta, mas houve no show uma grande afronta à lógica da divisão social do trabalho e da lógica heteronormativa de vida, problemática que não é só de quem não é hétero, mas que, à despeito de privilégios (e muitos) amarra os próprios homens héteros a serem mais do que imaginam que pode ser. É com tamanha maestria que o programa aborda esses homens héteros tão fechados no começo que no fim do episódio estão agradecendo com lágrimas nos olhos. A mudanças das condições materiais de vida não está separada da mudança dos afetos. Homens héteros não só cuidam de sua vida material, como também choram e expressam sentimentos. Isso não é coisa de viado e mulherzinha, mas de ser humano.

Podemos nos indagar do problema de um programa com o termo queer abarcar um público masculino e gay. De fato, isso pode ser uma problemática, mesmo na esfera LGBT acaba sendo muito mais fácil retratar o queer como algo não tão estranho assim, veiculando homens padrão de beleza e cis como apresentadores. Acredito que se fossem apresentadores não binários, andróginos, trans, mulheres, não teria tido o mesmo nível de aceitação que o show teve. Mas se do mesmo jeito que há um tempo atrás era tão impossível 5 gays, sendo dois racializados, estarem apresentando um show global, quem sabe em um futuro não tão distante o queer se expresse em suas infinitas possibilidades em shows como esse e que as pessoas olhem para trás sem entender como isso nunca veio a acontecer antes e que novos aprendizados sobre ser humanos pareçam tão óbvios que não deixem mais de ser invisibilizados nas relações sociais e mídias.

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