Margaret Cho: “Ninguém nunca aceitou completamente que eu sou bissexual”

Tradução do texto de Noah Michelson originalmente postado no Huffington Post.

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Margaret Cho teve um começo especial para as celebrações do mês do orgulho.

Graças ter crescido no meio do bairro mais gay de São Francisco – e crescendo dentro da livraria gay dos seus pais, no mínimo – a comediante já fazia parte do reconhecimento anual que a cidade fazia da comunidade LGBTQ antes mesmo da sua adolescência. Hoje, décadas depois, ela participa de paradas do orgulho ao redor de todo o mundo, normalmente participando da marcha e “andando em carros dirigidos por velhas fanchas vestidas de jeans que querem mostrar os seus carros customizados”.

Em honra ao mês do orgulho, o Huffpost recentemente telefonou para Cho para conversar sobre as suas primeiras memórias do orgulho, porque ela acha que a controversa dominação de empresas em alguns eventos não é necessariamente algo ruim e os desafios que ela continua a encarar a respeito da sua bissexualidade.

Quando e como foi que você percebeu que era queer? Existe algum momento em particular ou experiência que se destaca para você?

Eu acho que isso foi algo que eu já sabia – que existia algo de diferente no sentido de que eu não pertencia – e realmente não compreender o porque. Era esse sentimento de “eu não me sinto completa”. E existia essa desconfiança por parte de outras garotas quando estavam perto de mim. Elas me faziam sentir como  se existia algo de estranho em mim e que elas não podiam confiar em mim. Existiam pichações sobre mim nas paredes e rumores de que eu havia tentado beijar uma menina – coisas que nunca aconteceram mas que confirmavam que existia algo diferente em mim. Eu estava quase em guerra contra os meus colegas – mas era uma guerra silenciosa. Toda criança se sente estranha mas isso foi aumentado por mim e, de alguma forma, eu sabia que as outras crianças estavam certas sobre mim e isso me assustava também.

Quantos anos você tinha nessa época?

Isso provavelmente começou quando eu tinha sete anos e continuou pelo ensino médio até que eu realmente comecei a rejeitar tudo o que a escola era. No começo era muito chato e realmente assustador – eu me sentia realmente sozinha. Então eu percebi que podia ficar somente com os esquisitos! [risadas] Eu finalmente perguntei a mim mesma, porque eu estou tentando me encaixar onde eu não sou bem-vinda? Depois de me sentir muito machucada por pessoas me chamarem de “sapatão” e esse tipo de coisas, eu pensei, Está tudo bem! Você pode me chamar disso porque eu realmente sou uma! [risadas] Mas isso toma um pouco de tempo para chegar no “Eu não vou mais me machucar pelo que é verdade”.

Eu amo o que você disse antes de saber dentro de você que as outras crianças estavam certas sobre o que você realmente era e de estar “com medo”. Quando foi que você realmente saiu do armário? Quando você realmente usou as palavras, “eu sou queer” ou “eu sou bissexual” ou qualquer frase do gênero?

Eu acho que nunca disse em voz alta até eu ter 18 ou 19 anos. Na época, eu achava que eu era uma sapatão. Eu pensava que eu era uma lésbica. E então eu percebi, “Não, eu na realidade também me sinto atraída por homens”. Então isso se tornou algo realmente confuso para mim. Minha família tinha uma livraria gay, eles estavam dentro de uma comunidade gay, eles trabalhavam com e cercados da comunidade gay, então eles tinham consciência sobre a existência de gays e lésbicas mas eles não sabiam sobre a bissexualidade. Ainda é uma questão sensível para muitas pessoas da minha vida. Eles simplesmente não entendem a bissexualidade. Eu tive essas suspeitas com todos os meus parceiros que eu já tive [de que eles não entendiam isso]. Eu nunca fiquei com outra pessoa bissexual. Eu só fiquei ou com héteros ou pessoas gays, então, ainda é um lugar muito sensível. Ninguém realmente me aceitou como verdadeiramente bissexual. Ninguém me permitiu isso. Ainda é um ponto de argumentação com qualquer pessoa que eu fique. As pessoas simplesmente não aceitam isso.

Ninguém realmente me aceitou como verdadeiramente bissexual. Ninguém me permitiu isso. Ainda é um ponto de argumentação com qualquer pessoa que eu fique. As pessoas simplesmente não aceitam isso

Nós já caminhamos muito sobre como as pessoas conceptualizam e conversam sobre bissexualidade. Muitas pessoas que alguma vez se identificavam como bissexuais estão hoje usando o termo pansexual porque eles acreditam que melhor descreve quem eles são. Quais são suas opiniões sobre o assunto?

Eu não sei. Eu não sei se usar a palavra “bissexual” é certa porque ela indica que existem somente dois gêneros, e eu não acredito nisso. Eu já fiquei com pessoas de todo o espectro de gênero e que tiveram diferentes tipos de expressão de gênero, então é difícil de dizer. Talvez “pansexual” é tecnicamente mais correto como termo mas eu gosto de “bissexual” porque é mais a vibe dos anos 70 [Risadas].Tem algo de elegante nessa palavra e eu acredito que é a mais correta para mim.

Quando e onde você participou da sua primeira celebração do orgulho?

Deve ter sido em São Francisco entre 1977 e 1978. Não era o que é hoje – era muito menor mas ainda assim muito excitante. Minhas memórias da minha primeira parada não são muito claras. Eu tenho memórias mais claras dos anos 80 e lógico do começo dos anos 90 quando as pessoas estavam irritadas com a maneira que o governo tratava pessoas com HIV e AIDS e as paradas eram imensamente políticas. Eu já era adulta nessa época então a minha participação estava em um estágio muito mais avançado.

Como sua família tinha uma livraria gay no Castro, a parada era algo que vocês comemoravam juntos todos os anos?

Era muito prático. Era algo do tipo, “Ah, nós vamos precisar de muitos turnos de trabalho” [risadas]. Era essa basicamente a atitude da minha família. Era celebrado dentro das paredes da livraria mas era porque muitas pessoas iriam embora ou estariam fazendo outras coisas, então tínhamos que estar preparados para isso. O maior acontecimento que eu me lembro foi a vigília de Harvey Milk depois que ele foi morto e minha família não queria que eu fosse. Eles acharam que teria sido muito triste. Eles estava tipo, “Você não vai poder ir porque achamos que é muito triste e é muito terrível, uma coisa terrível e nós não queremos que você se assuste com o que aconteceu ou fique pensando sobre o que aconteceu com ele”. Eu tinha cerca de nove anos quando ele foi morto e minha família tinha consciência de que isso era demais – muito  pesado – para ser parte da minha vida. Eu acho isso triste – Eu queria ter ido lá. Mas mesmo eu não estando lá, eu ainda me lembro de perceber que estávamos vivendo em um mundo incrivelmente violento e que alguém podia ser morto só porque era gay – isso era algo realmente terrível.

Qual a sua relação com a parada do orgulho de hoje?

Eu amo. Eu sou ativa na parada em diversas maneiras, seja performando ou somente andando ou andando em carros dirigidos por sapatões velhas vestindo jeans que querem mostrar os seus carros customizados. [risadas] Esse é o ideal para mim – você quer estar em um daqueles conversíveis e ter uma adorável chofer. Eu já participei de paradas ao redor do mundo. Eu acho que o Mardi Gras Queer de Sydney, Austrália, é o maior evento do orgulho que eu já participei. Eu já marchei diversas vezes na parada de São Francisco.  Essa é bem grande porque tem a Marcha de Reapropriar a Noite e a Marcha Trans e existem alguns poucos eventos que acontecem junto da parada que são muito excitantes.

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O que você pensa de pessoas LGBTQ que acham que a parada não é mais necessária?

É o direito de cada um decidir o que eles querem fazer. Esse é o luxo – que você não precisa fazer isso. Eu venho de uma época onde era absolutamente essencial – a parada salvava vidas. Nós não existíamos na sociedade na época e hoje você pode se esconder da parada se você quiser e que participar ou não é uma declaração de onde conseguimos chegar. É uma escolha. E eu amo isso. Para mim, é muita diversão e eu tenho a oportunidade de sair com amigos e ter a experiência de outros países e outras formas de celebrar o orgulho. Eu amo o envolvimento.

Falando de maneira mais geral, quais são as suas opiniões sobre as brigas que acontecem constantemente dentro da comunidade queer?

Eu acho que elas sempre irão existir e que também isso é algo incrível da nossa comunidade. Nós temos vários níveis de lutas e comunidade – e são todos diferentes. É aí que você irá realmente abraçar a interseccionalidade disso tudo. Nós tradicionalmente olhávamos para a parada como sendo um movimento muito branco e masculino e é claro que hoje existe muito mais ao se pensar na parada. Antes de reconhecermos a comunidade trans. Nós ainda não reconhecemos a comunidade bissexual. Mas hoje existe mais um senso de unidade e diversidade e eu acho que isso realmente é muito importante.

Como você se sente sobre como algumas celebrações do orgulho se tornaram corporativas? Lea DeLaria recentemente me disse “A não ser que o carro do Citibank e o carro do Starbucks digam ‘Foda-se Trump’ então a gente não precisa deles”. Você concorda?

O que eu acho bom sobre isso é que você está tendo patrocínio e você está olhando para grandes empresas que tem organizações LGBT dentro de suas estruturas. Eu acho isso muito positivo. Quando você tem uma companhia como a Altoids gastando dinheiro com go-go boys e mentas grátis em seu carro [risadas] assim como o dinheiro que vem com ela, eu acho que é uma coisa boa. Quando você tem a presença em uma lembrancinha que mostra o apoio de uma empresa, isso é algo bom. Eu amo coisas grátis! [risadas] E eu amo quando companhias tem organizações queer como parte de sua infraestrutura porque isso é muito encorajador para os empregados.

Por último, a comunidade LGBTQ sempre lutou com a misoginia. Você acha que as coisas melhoraram nos últimos anos?

Eu acho que melhorou. Eu trabalhei com Taylor Mac e ele teve esse show incrível onde ele atravessava décadas de cultura queer e mostrava a unidade que nós vimos entre homens e mulheres e pessoas trans na comunidade queer – foi uma experiência tão diferente do que é ser queer, e eu senti que representava o futuro. Eu acredito que irá existir mais senso de unidade e apreciação por um ao outro – no passado tantas pessoas abraçaram ideais separatistas e hoje nós estamos percebendo que nós não podemos ir muito longe a não ser que estejamos jundos. As coisas estão mudando e eu realmente amo isso.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Margaret Cho: ‘Nobody Has Ever Really Accepted That I’m Truly Bisexual’

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