“Todos seremos vítimas em algum momento”: Porque o único clube gay de Bishkek foi fechado

Tradução do texto de Katie Arnold originalmente postado no The Guardian.

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Anara nunca esteve apaixonada antes. Andando nervosamente do lado de fora da casa da menina que ela começou a se encontrar, dominada pelas emoções, ela esquece que precisa tomar cuidado.

Namorar uma pessoa do mesmo sexo pode ser perigoso na capital do Quirguistão, Bishkeke. O relacionamento delas já foi assunto de sussurros e rumores.

Anara esperou na fria tarde de inverno por horas, mas o encontro dela não saiu do bloco de apartamentos. Um grupo de homens que estava olhando Anara do prédio vizinho convidou a jovem para entrar e tomar uma xícara de chá.

“Eles esperaram que eu terminasse a minha bebida, e então todos os oitos me estupraram” ela disse, evitando contato com os olhos “foi um estupro corretivo – eles estavam querendo me corrigir”.

Anara não é a única pessoa gay, lésbica, bissexual ou trans que foi vítima de um crime de ódio no Quirguistão.

Uma pesquisa recente pela organização LGBT Kyrgyz Indigo descobriu que 84% dos entrevistados já sofreram violência física, e 35% já foram vítimas de violência sexual.

Essa nem sempre foi a realidade de Bishkek. Com os seus bares gays e uma população amplamente tolerante, a capital servia como um refúgio seguro para a comunidade LGBT do Quirguistão.

Mas em 2014, o governo lançou uma série de reformas legais que marcaram uma mudança dramática que afastou valores que deram à Bishkek a reputação da cidade mais liberal da Ásia Central.

No Turcomenistão e no Uzbequistão, a homossexualidade é criminalizada, tendo uma sentença máxima de dois a três anos de prisão respectivamente. E junto com essas leis, existe uma discriminação e homofobia já enraizada na sociedade, incluindo entre policiais e profissionais da saúde. Turcomenos presos e sentenciados por sodomia são forçados a passar por exames para encontrar “provas” de atividades homossexuais.

A situação não é muito melhor no Cazaquistão, onde muitas pessoas LGBT escolhem esconder a sua orientação sexual ou identidade de gênero por medo de represálias. E para poder mudar a sua identidade de gênero nos documentos, pessoas trans são forçadas a passar por diversos procedimentos invasivos, incluindo a esterilização forçada.

As atitudes liberais de Bishkek estão sendo ameaçadas hoje. Em abril do ano passado o comitê parlamentar de luta contra o crime, da ordem e da legislação demandou uma segunda leitura do projeto de lei anti-LGBT do Quirguistão. A proposta de proibição da “propaganda de relacionamentos sexuais não tradicionais” aparentemente reprimia informações sobre relacionamentos homossexuais no Quirguistão.

O projeto ainda está esperando a terceira e final redação antes de ser decretada como lei, mas ela já encoraja movimentos nacionalistas radicais como o Kalys e o Kyrk Choro, que adotaram posturas violentas para defender conceitos ultraconservadores de valores quirguiz.

De acordo com ativistas da organização LGBT Labrys, a mudança política e a proposta da legislação causaram um aumento de 300% nos ataques contra pessoas LGBT na cidade e forçou que a comunidade LGBT de Bishkek se escondesse nas sombras.

“(Essa legislação) foi a maior propaganda de todas”, disse um dos ativistas que, como a maioria dos entrevistados pelo Guardian Cities, pediu para permanecer anônimo por medo de sofrer ataques.

“Você podia andar no transporte público e conversar sobre assuntos LGBT que ninguém notaria porque eles realmente não sabiam o que era isso”, ele comenta. “Mas desde que a legislação foi introduzida, muitos agora sabem o que a comunidade LGBT é. Existe muita violência contra nós, e nós não podemos mais ser abertos em público.

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Uma manifestação anti-LGBT em Bishkek, contra a demanda do Assembléia Parlamentar do Concelho Europeu para que o Quirguistão retire as proibições de “propaganda de relações sexuais não tradicionais” (Foto: Vyacheslav Oseledko/AFP/Getty)

Nesse crescente cenário hostil, a comunidade LGBT de Bishkek tem lutado para encontrar lugares seguros para se encontrarem e sociabilizarem, sendo os membros mais jovens os que mais são afetados.

“Se você tem a sua própria casa, ou pode alugar um apartamento, então é mais seguro ser gay aqui”, diz um empresário quirguiz gay. “Mas se você é um adolescente ou um estudante, então você tem que encontrar com pessoas onde puder – em parques, florestas, estacionamentos. E por isso eles não estão seguros”.

Por alguns meses no começo do ano, um discreto lava carro nos subúrbios da cidade oferecia uma rara oportunidade de consolo para essa minoria.

Todas as semanas grupos de jovens batiam em uma porta de madeira do lado de um entrada vazia, e desapareciam no interior do prédio abandonado.

Eventualmente um raio de luz roxa vazou pelas cortinas, acusando a existência do último clube LGBT de Bishkek.

“Nós decidimos começar o clube gay quando vimos a necessidade de um lugar onde a comunidade LGBT pudesse se sentir segura e realmente pudessem se conhecer”, disse o co-fundador do evento, que também pediu para se manter anônimo.

A entrada no clube dependia da recomendação de um dos regulares. Novos rostos criavam suspeitas, e por boas razões.

O evento foi forçado a evacuar a sua locação original depois que um tumulto formado de 30 homens invadiram o clube e destruíram a mobília e feriram trabalhadores do bar. Em outra ocasião, um assaltante acertou um dos fundadores com uma garrafa.

Hoje o clube foi novamente forçado a fechar suas portas depois que o dono descobriu que o lava-carro dele estava sendo usado para sediar eventos LGBT.

“O problema é que as pessoas não entendem o que é um clube gay”, diz uma das co-fundadoras. “Eles acham que estamos fazendo algo pornográfico. Mas se eles viessem e vissem que é somente um clube normal, onde pessoas dançam e bebem, então tudo ficaria bem”.

“Nós iremos continuar essas noites se nós encontrarmos um espaço seguro onde nós possamos criar um estabelecimento”, ela adiciona. “No final, nós temos uma responsabilidade – nós somos como mães para essa comunidade”.

Enquanto isso, a comunidade LGBT de Bishkek começou a utilizar aplicativos de relacionamento como Grindr e Hornet para se encontrarem. O uso da tecnologia moderna, porém, não elimina o risco de ataques.

Em uma tendência preocupante, gangues de ódio homofóbico e membros da polícia estão usando esses aplicativos para localizar, filmar e chantagear membros da comunidade LGBT. Um número de vídeos no YouTube mostrando pedidos desesperados de vítimas prova que as ameaças não são vazias.

Organizações LGBT como a LabrysKyrgyz Indigo criaram uma unidade de resposta rápida que oferece assistência imediata para membros da comunidade que se tornaram vítimas dessa forma de abuso.

No começo do ano, Adilet – o único voluntário da unidade – assistiu um grupo de prostitutas trans que, a mando da polícia local, foram interrogadas por uma equipe de televisão local enquanto bebiam em um bar local.

“Todos tem um smartphone, e como esse caso foi televisionado na rede estatal, agora eles sabem que podem monetizar filmando pessoas LGBT e ameaçar enviar o video delas para os canais de televisão”, ele conta.

“Mas nem todo mundo está atrás de dinheiro, algumas vezes elas demandam favores sexuais ou até mesmo estupram as vítimas usando as filmagem como caução”.

Questionado sobre essas alegações, o Ministério de Relações Internas não respondeu.

Ativistas esperam que a polícia não consiga mais burlar a sua responsabilidade de proteger a comunidade LGBT por muito mais tempo. Junto com a Open Society Foundation, a Kyrgyz Indigo irá logo propor uma nova legislação que irá oferecer base para que a discriminação baseada na orientação sexual ou identidade de gênero seja considerada uma ofensa criminal.

Mas mesmo se sucederem, essas reformas não irão mais ajudar Anara que, como muitas minorias LGBT perseguidas em Bishkek, irão carregar o trauma de terem sido violentadas pelo resto da vida.

“Os efeitos desses ataques são mais profundos do que eu achava, mas isso é algo que você terá que lidar se você é gay ou trans”, conta ela. “Todos nós iremos ser vítimas de estupro ou algum outro tipo de violência em algum momento”.

O nome de Anara foi alterado para proteger a identidade dela.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): ‘All of us will be victims at some point’: why Bishkek’s only gay club closed

Resistência e Subversão: Considerações finais sobre os movimentos queer pela Ásia – uma perspectiva comparativa entre Cingapura, Cazaquistão e Líbano

Resistência e subversão: Movimentos Queer pela Ásia – Cazaquistão

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