Reflexões sobre uma exposição de arte queer na Coréia

Tradução do texto de Camille Sung originalmente postado no Queer Asia.

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Em maio de 2017, Jinsil Lee e eu organizamos uma exibição intitulada Read My Lips (Leia os meus lábios) no espaço artístico Hapjungjigu, em Seoul, Coréia do Sul. Tendo o tema “drag” como um conceito, um termo importante para as políticas queer, a exibição reuniu e exibiu trabalhos artísticos queer. Drag normalmente se refere ao ato e prática de minorias sexuais se vestirem e exagerarem os comportamentos do gênero oposto. Porém, a exibição explorou o Drag de maneira mais ampla, seguindo a teoria de Renate Lorenz que afirma que “drag pode se referir às conexões produtivas de natural e artificial, animado e inanimado, até roupas, radios, cabelo, pernas, todas que tendem a produzir conexões com outros do que representar o que realmente é. O que é visível nesse tipo de drag é… a ‘desconstrução'”. A partir dessa perspectiva, os trabalhos nessa exibição foram interpretadas como tentativas figurativas de transcender e transformar o espaço entre homens e mulheres, objetos e humanos, cotidiano e arte, e o cubo branco e a subcultura. Elas incluiam pinturas de Yongseok Oh e Eunsae Lee, desenhos de Bob Kim, esculturas de Mire Lee, e um arquivo de Dong-jin Seo, performances de Bu Ibanjiha e Sungjae Lee, e uma apresentação de radio transmitida por Rita, assim como um extenso catálogo de exibição.

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Ibanjiha (também trabalhando como Soyoon Kim) registro de performance, 2017

“Para o queer é a falta na coerência e isso faz com que outros olhem para essa falta ao escavarem algo queer”

Depois da abertura da exposição, nós recebemos vários comentários e reações, incluindo interesses, excitações, e dúvidas. A exibição foi baseada em uma observação meticulosa e conceitualização minuciosa do drag e do queer, que foi originalmente formulada no ocidente. Alguns poderiam dizer que essa teorização sútil pode ser ainda nova na sociedade coreana. O slogan do festival de cultura queer da Coréia em Seoul (Seoul Pride) em 2016 foi “Eu sou Queer”, que demandava o reconhecimento de pessoas queer na sociedade coreana. O slogan paradoxalmente provou a falta da presença queer na Coréia e por isso a urgência do tema. Emprestando as teorias de Elizabeth Freeman e Lorenz sobre espaços queer e tempo queer, a prática e a teoria queer na Coréia está em um nível de debate apenas em espaços queer. Em outras palavras, a sociedade coreana não enxerga o queer porque não o conhece. Isso também acontece com a arte queer: O cenário artístico coreano não produz arte queer porque não o reconhece. Nessas circunstâncias, mesmo que alguém se apropriar intensamente dos conceitos de Lorenz sobre drag radical, o drag trans-temporal, e o drag abstrato, eles são compreendidos somente como noções obscuras e ambíguas sem materialidade e substancialidade. Debates sobre o queer e a arte queer não tem pontos de ancoragem na Coréia. Isso também o torna uma referência assim como um obstáculo para curadores e espectadores, e isso pode ser a fonte para o desconforto que alguém pode sentir ao observar os trabalhos de Read My Lips.

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Sungjae Lee (Com o performista Nix) Fringe – Versão coreana, registro de performance, 2017.

O desconforto também está relacionado com o fato de que a estética queer pode ser confundida com a arte contemporânea. Como aponta Freeman, “A teoria queer… foca sua atenção em vazios e perdas que são tanto estruturais como viscerais… a teoria queer também descreve em primeiro lugar como formas de conhecimento específicas, existência, pertencimento, e incorporação são impedidas de emergir, normalmente por técnicas que envolvem intimamente o corpo”. Arte contemporânea também foca nos vazios e perdas que foram negligenciadas no grande debate e no cotidiano. Tanto a teoria queer como a arte contemporânea são atraídas pela inalcançável realidade. Por isso, se alguém não estiver atento, o poder subversivo da arte queer pode ser interpretada meramente como a revolucionária e resistente natureza da arte contemporânea. E tal afinidade pode induzir o espectador a interpretar erroneamente o seu desconforto frente à obras queer como apenas o mistério da arte contemporânea. Toda via, o estranho, inconfortável sentimento que você pode ter frente à uma inescrutável imagem é na realidade queer. Para o queer é a falta na coerência e isso faz com que outros olhem para essa falta ao escavarem algo queer. Por isso, a ideia de que alguém não possa compreender facilmente a exibição queer, mas somente ter uma resposta interna de desconforto e estranheza para a exibição, serve como um index para observar a ausência de um debate sobre o queer na Coréia.

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Visão de uma instalação da exibição Read my Lips (Perpectiva externa), em Hapjungjigu, Seoul, Coréia, 2017

A alteridade do queer perderia a sua característica subversiva quando aceita dentro do sistema compreensível, coerente de reconhecimento e percepção. É porque os outros se tornam um tipo diferente de sujeitos. Pode ser o destino de todos os outros. Mesmo assim, Read My Lips desejou incentivar o debate sobre o queer na Coréia. Nós esperamos que essa exibição tenha aguçado vários debates e práticas queer.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Reflections on asn Exhibition of queer art in Korea

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