Nas filipinas, ser lésbica é o mesmo que ser invisível

Tradução do texto de Chang Casal originalmente postado na CNN Philippines.

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Um prédio rosa se destaca dentro das diversas casas e apartamentos comuns de algum lugar na cidade de Quezon. Do estacionamento você consegue ouvir uma música de hip-hop vindo de um pequeno estúdio de dança localizado no primeiro andar. Através da porta tingida você pode ver algumas silhuetas das pessoas de dentro – um grupo masculino de aproximadamente 20 anos ensaiando para o seu próximo show, o festival do Orgulho de Metro Manila de 2018.

TFX, ou “T Effects”, é conhecido como a única equipe de dança de Manila formada unicamente de mulheres masculinas (tomboys) e homens trans.

Kim Siao, de 23 anos, é a participante mais jovem do grupo. Apesar de ser a mais nova, e ela admite, a mais lenta para aprender a coreografia, Kim se destaca por ser uma das mais confiantes.

Quando perguntada de onde ela tira essa confiança, ela respondeu “Talvez dos meus pais. Assim como eles falam ‘filha, seja você mesma, simplesmente seja quem você é'”.

Kim já sabia desde pequena que ela era diferente. “Quando eu era criança e meus pais me davam presentes, eram brinquedos de menina. E eu não me animava” ela conta, “mas quando eram brinquedos de meninos eu me excitava. E meus pais eram muito compreensíveis”.

Ela se lembra de como o seu pai dava para ela os brinquedos de menino que o seu irmão (que é gay e também é aberto pra a família) rejeitava. ” Não era algo do tipo ‘filha, você enjoou?’, mas algo como ‘filha, você quer esse brinquedo ou esse vestido?'”.

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A dançarina de 23 anos, Kim Siao, atribui a sua confiança aos seus pais, que sempre a aceitaram desde criança. (Foto: Bardo Wu)

Enquanto Kim pode se considerar sortuda o suficiente para poder dizer que a sua família é um porto seguro para ela, outras precisam formar outras famílias, como Shin Gotis de 26 anos, que também é uma membro do grupo TFX.

Antes de entrar no grupo, Shin era fã de alguns dos membros, que foram participantes do segmento “It’s Showtime” do programa “That’s My Tomboy”.

“As minhas ídolos são Kim Andaya e Nicky Song”, conta Shin. “Então quando Nicky postou que a TFX estava procurando novos membros, eu conversei com Madam Narise (A gerente do grupo)”.

Com 24 anos, Shin se mudou para Manila para encontrar a sua família, que a havia deixado em Bicol aos cuidados de uma tia quando ela era nova. “Quando eu cheguei em Manila, eu não tinha amigos”, ela conta. “Então eu os procurei online”.

Depois de se reunir com a sua família e começou a morar em Manila, ela se candidatou a vaga de garçonete e caixa em um restaurante coreano próximo do estúdio de dança. Mas lentamente, ela aprendeu que a família dela não aceitava o fato dela ser lésbica. Ela teve que então se mudar e começar a morar no restaurante por alguns meses.

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Quando Shin Gotis se mudou para Manila, ela utilizou a internet para encontrar amigos para se conectar. Foi através de uma postagem de uma de sua ídolo que ela encontrou o grupo formado somente por homens trans e tomboys. (Foto: Bardo Wu)

“Foi somente até eu começar a namorar, depois eu tive que ir embora” conta Shin. “No meu aniversário o meu pai me disse: Se eu soubesse que você teria esse tipo de relação, eu teria abandonado você na barriga da sua mãe”.

Hoje, a família de Shin é a sua equipe de dança.

“É por isso que eu danço. Eu fui banida de Bicol, minha tia me disse que eu não posso voltar para lá”, conta ela.

“Eu dançava o máximo que eu podia, desde cedo de manhã. E eu dizia para mim ‘eu estou feliz agora’. Mas quando eu vim para Manila, eu me tornei ainda mais livre”.

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Fats Roxas de 33 anos, conta que ter estudado em uma escola só de meninas permitiu que ela se sentisse segura o suficiente para explorar a sua identidade.

Crescendo com o seu amor por literatura e cinema, Fats diz que gostar de meninas “não parecia ser algo possível… na minha cabeça” porque as histórias disponíveis eram sempre entre um menino e uma menina.

“Estar em uma escola só de meninas não era tudo isso… pessoas irão dizer que porque você foi exposta a outras lésbicas, você acaba se tornando uma”, diz Fats. “Eu acho que foi mais porque ali você tinha um espaço seguro para explorar a sua sexualidade… era normal que meninas gostassem de outras meninas. Era algo que simplesmente acontecia”.

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Fats Roxas de 33 anos conta como lésbicas com passabilidade hétero recebem certos privilégios no espaço de trabalho. Quando ela saiu do armário na sua antiga empresa, o chefe disse a ela “não espalhe isso porque eu espero poder promovê-la”. (Foto: Bardo Wu)

Maine* de 15 anos, que se identifica como bissexual e estuda em uma escola católica só de meninas, compartilha uma história semelhante: “Dois anos atrás eu fui transferida para uma escola só de meninas que aceitava a diversidade e pessoas queer… as estudantes daqui não descriminam ou humilham pessoas que se identificam como queer”.

“Estar em uma escola só de meninas é uma parte muito importante da minha identidade de gênero”, ela adiciona. “É um espaço seguro criado pelas estudantes… Uma feira do 10° ano até exibiu uma bandeira LGBT e vende cupcakes com arco-íris e produtos LGBT. Os itens deles foram todos vendidos”.

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Apesar de 30 anos mais velha que Maine, RK Gimeno, que irá completar 50 anos, só saiu do armário há 10 anos atrás. Mesmo que ela já tivesse reconhecido a sua atração por mulheres há muito tempo atrás, ela não tinha com quem conversar sobre isso. “Eu não sabia o que fazer. Eu não tinha muitas amigas lésbicas”.

Levaram 10 anos para que ela “completasse” a sua gradual saída do armário, que envolveu cortar o seu cabelo mais curto, receber tatuagens, e lentamente adotando roupas mais masculinas.

Também existia o desafio de se assumir para os seus filhos – ela tem quatro – que ela não queria envolver nas complexidades das identidades de gênero quando eram muito novos.

Ao invés disso, ela iria “assistir silenciosamente ‘Ellen’ em casa” e realizar escapadas até uma lan house para pesquisar mais sobre ser queer. Ela conta que a internet a ajudou a entender os seus sentimentos: “Quando eu já era adulta, pela internet, é que eu me reconheci pensando ‘Então é esse o nome'”.

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RK Gimeno de 49 anos só começou a sair do armário há 10 anos, e ela conta que havia pouca informação sobre ser LGBTQ na sua juventude. Quando a internet se tornou mais acessível, ela disse que isso a ajudou muito a identificar os seus sentimentos (Foto: RK Gimeno)

Em um café de um hotel, uma mulher entre os seus 30 anos está sentada em uma mesa nos esperando. Ela parece uma mulher filipina comum, com exceção do cabelo, ou falta de.

Mylene Hazel de Guzman é uma professora assistente do Departamento de Geografia da Universidade das Filipinas. Apesar de algumas pessoas pensarem em montanhas e rios ao ouvir a palavra geografia, Mylene está mais interessada das intersecções de geografia e gênero.

“Geografia é o estudo dos espaços… quando você considera gênero, nós temos o que chamamos de ‘lugares seguros’. Eu estou interessada em saber como as identidades de gênero atuam em determinados espaços” ela conta.

“Onde você se encontra influencia como você age, até inconscientemente”, ela adiciona. “Por exemplo, em uma igreja nós não seguramos na mão de nossas parceiras, porque não é normal que duas mulheres se deem as mãos ali. Mas para casais heterossexuais, é normal”.

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Geógrafa cultural Mylene Hazel de Guzman fala sobre a importância de estudar as intersecções de gênero e geografia. “Onde você está influencia como você age, mesmo inconscientemente” ela afirma. Bares gays e eventos lésbicos permitem que pessoas LGBTQ se libertem e sejam quem realmente são porque não existe “a discriminação que existe em lugares comuns”. (Foto: Bardo Wu)

Assim como Shin encontrou consolo e segurança dentro de uma equipe de dança formada somente por homens trans e tomboys, e Fats e Maine puderam aceitar a própria sexualidade em um ambiente formado somente por meninas, mulheres lésbicas e queer nas Filipinas dependem de espaços seguros para escapar da dura realidade de uma sociedade que somente é amigável com pessoas LGBT na superfície – uma pesquisa de 2013 apontou que as Filipinas era uma das nações mais tolerantes na região das ilhas asiáticas do pacífico, ficando atrás somente da Austrália, mas em outra pesquisa conduzida pela Estação de Clima Social (SWS) entre os dias 23 e 27 de março deste ano, 61% dos 1200 entrevistados responderam ser contra o casamento homoafetivo.

Como Mylene apontou: “O que ‘tolerância’ significa? Significa que você tem que viver com algo que você não necessariamente quer lidar”.

Das muitas experiências negativas que lésbicas e mulheres queer tem que lidas nas Filipinas, Ging Cristobal, coordenadora de projeto da Ásia da OutRight Action Internacional, diz que estão enraizadas na cultura machista, patriarcal e religiosa da região.

Na obra de Roselle V. Pineda “Criando pontes, delimitando lutas: A história das lutas de filipinas lésbicas nas Filipinas” (Sem tradução para o português), ela escreve sobre o problema da “invisibilidade lésbica na história tanto como uma prática como uma luta”.

Ela examina como, historicamente, a existência de lésbicas não foi apenas desencorajada como também sancionada, colocando elas em posições marginais da sociedades, como bruxas, solteironas, e prostitutas – mulheres que foram consideradas depravadas por manter comportamentos e relações sexuais onde não existia a presença masculina, e por isso ameaçava a dominação masculina.

Hoje, apesar da estigmatização ser menos severa, a situação se mantém a mesma, especialmente em países como as Filipinas.

“A sociedade acha isso fofo. A sociedade acha que você precisa do beijo de um homem… para que você seja ‘normal’ ou heterossexual… e eles usam a religião porque eles não querem que você queime no inferno. Então as intenções supostamente são boas, porque eles querem ‘salvar’ você. Mas na realidade isso é errado” – Ging Cristobal

“Existe menos tolerância (para lésbicas e homens trans) basicamente porque as Filipinas ainda é um país patriarcal onde mulheres são vistas como um grupo inferior de pessoas se comparadas com os homens”, afirma Cristobal.  “(Nós ainda vivemos) em uma sociedade dominada por homens. E para um homem trans, eles são vistos como ‘pseudo homens’ ou homens falsos”.

“Eu tinha medo dos meus colegas de classe quando eu ainda morava em Bicol… eles diziam ‘você ainda é uma menina. Você ainda precisa de um homem'” conta Shin, ao relembrar de um tempo onde um de seus colegas insistia em ir na casa dela pegar dinheiro, e assediava verbalmente ela quando ela recusava.

Cristobal também aponta como pessoas usam a religião para justificar atitudes homofóbicas e atitudes corretivas, tais como a crença de que lésbicas e homens trans precisam de um homem para poderem voltar ao “normal”.

“Mas isso é um abuso do meu direito como indivíduo de me expressar como eu quiser”, diz Cristobal. “E a sociedade acha isso fofo. A sociedade acha que você precisa do beijo de um homem… para que você seja ‘normal’ ou heterossexual… e eles usam a religião porque eles não querem que você queime no inferno. Então as intenções supostamente são boas, porque eles querem ‘salvar’ você. Mas na realidade isso é errado”

Cristobal também compartilha como, antigamente, a representação midiática de “lésbicas” era de mulheres masculinas que repentinamente se tornavam femininas ao se apaixonar por um homem.

Recentemente, o trailer do episódio “Maalaala Mo Kaya” baseado na música “Titibo-tibo” mostrava uma cena onde a mãe da personagem lésbica fica eufórica ao descobrir que a filha está namorando um homem, que reforça a mensagem de que “virar” hétero é uma opção – uma opção a ser celebrada – e apaga a mensagem positiva para a comunidade LGBT que aparece no episódio.

Ainda nessa linha de pensamento, muitas mulheres queer e homens trans sofrem estupro corretivo – algumas vezes por amigos ou familiares.

Enquanto isso, em escolas católicas só de meninas onde relacionamentos homossexuais são comuns, a administração escolar usa motivos religiosos para reprimir, suspender e até mesmo expor alunas aos pais se tais relacionamentos forem descobertos.

No caso de Al* de 14 anos, que antes se identificava como lésbica mas hoje se identifica como homem trans, a escola chamou a sua mãe para dizer que ele estava em um relacionamento com uma de suas colegas, basicamente forçando ele a sair do armário.

Por causa disso, Al diz que ele teve que “provar por mim mesmo através dos estudos que eu podia balancear estudos e relacionamento”. Essa noção de “se provar” normalmente aparece em diversas entrevistas.

“Existe menos tolerância (para lésbicas e homens trans) basicamente porque as Filipinas ainda é um país patriarcal onde mulheres são vistas como um grupo inferior comparado aos homens” – Ging Cristobal

No caso de RK, ela normalmente irá falar sobre como ela é grata de ter saído do armário somente mais velha porque ela conseguiu ganhar o respeito de colegas de trabalho e familiares antes de revelar a sua sexualidade.

Cristobal explica que isso é uma resposta à tolerância-como-aceitação e atitudes condicionais que os filipinos tem a respeito das pessoas LGBTQ. “Existe sempre uma condição antes de você ser aceito ou até mesmo tolerado. Existe essa frase que os filipinos usam: “Nós te aceitamos mas…”. Mas você tem que mediar as suas expressões de gênero e o quão lésbica você irá se apresentar em termos de vestimenta, modo de falar, e conteúdo da sua mensagem”.

“É por isso que é importante que nós tenhamos um espaço seguro. É tão bonita a Nectar may Girl Nation Thursdays. É uma avenida que as pessoas podem realmente se expressar” diz Mylene. “Nós também temos bares gays. É por isso que nós temos esses lugares específicos porque nós somos discriminados em outros espaços”.

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Apesar de lugares seguros existirem para lésbicas, bissexuais, mulheres queer e homens trans, eles normalmente oferecem descanso do que uma proteção verdadeira. Talvez por sair da sociedade central, esses espaços criem uma separação ainda maior entre a sociedade LBQT da comunidade heterossexual.

O que é preciso, na realidade, são leis nacionais – tais como a Reforma de Igualdade SOGIE – para serem implantadas com a finalidade de que experiências LBQT sejam protegidas em todos os espaços.

Como senadora Risa Hontiveros disse, “Com a lei, existe uma mudança comportamental que se espera da sociedade”.

Por enquanto, Cristobal que é uma obrigação da comunidade LGBTQ e de seus aliados “desafiar a estigmatização e os esteriótipo. E nós podemos somente fazer isso sendo honestos e termos orgulho de quem somos e mostrar a nossa diversidade e educar as pessoas”.

Para Fats, que normalmente é confundida como hétero, significa reconhecer os seus privilégios, especialmente por ela receber vantagens no espaço de trabalho e no mundo corporativo.

“Eu sempre tenho que lembrar que uma das coisas que eu tenho é um tipo de privilégio por ser lida como hétero”, ela diz. “Eu penso muito sobre isso porque meus colegas não precisam ser lembrados disso constantemente, ao contrário de alguém que preferisse se vestir de maneira mais masculina”.

Mylene, cuja mãe foi bastante receptiva quando ela saiu do armário, quer compartilhar a sua história para que os outros saibam que nem todas as pessoas queer tem uma história trágica e nem precisam ter. “O que eu quero apontar é na possibilidade de ter esse tipo de narrativa. É possível e eu não estou sozinha”.

Ela também espera que outras pessoas usem as suas vozes para educar as próximas gerações. No seu caso, ela dedica o seu tempo para educar crianças sobre consentimento e sexualidade. “Eu acho que o que é importante, especialmente nessa geração mais “consciente”, deveria ser educar crianças tão conscientes quanto. Que provavelmente não terão que lidar com os mesmos desafios que nós tivemos na nossa geração”.

Para outros, é em pequenos, porém poderosos atos que o orgulho da sua identidade manifesta.

Cinco anos atrás, quando a filha de RK soube que a sua mãe era lésbica através de uma carta destinada para a sua namorada, ela disse, “Eu entendo mas eu não aceito isso”. No qual RK respondeu, “Mas eu não estou pedindo para ser aceita. Eu não estou pedindo para você me aceitar ou não. Essa sou eu. É sua escolha. É minha escolha. Essa é a minha vida. E está tudo bem para mim”.

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*Nome alterado à pedido das entrevistadas.

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Matéria Original (Em inglês): In the Philippines, being a lesbian means being invisible

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