Tailândia: O paraíso LGBT?

Tradução do texto originalmente publicado no Pahichan.

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A Tailândia é um país que aparentemente é bastante receptivo para a diversidade de identidade de gêneros. De fato, o Ministro do Turismo da Tailândia até usa essa imagem para promover o turismo na Tailândia como um paraíso para a comunidade LGBTIQ+. E certamente essa comunidade aparenta ter muita visibilidade na Tailândia, como podemos ver em 2012 com a eleição de Yollanda “Nok” Suanyot, que conseguiu alcançar o maior cargo político já alcançado por uma mulher trans tailandesa.

A história da visibilidade do terceiro gênero

Diversidade de gênero e de sexualidade não é uma novidade na Tailândia, onde registros de comportamentos sexuais e de gênero que não seguem as normas heterossexuais podem ser encontradas desde o início do século XIV. Até o século XIX, as vestimentas populares eram bastante andróginas. Diversos murais encontrados em templos representam relações homossexuais entre homens e mulheres. Existem também relatos orais de relacionamentos homossexuais dentro da corte tailandesa durante o período Ayutthaya (1351 – 1767). Isso poderia explicar uma possível aceitação cultural de comportamentos sexuais não-heteronormativos e de diversas identidades de gênero.

O Terceiro gênero e a fluides de gênero tem sido parte de diversas civilizações. As Hijras do sul-asiático, as Fa’a’fafine de Samoa, as Kathoeys da Tailândia ou as Accaults de Myanmar são alguns dos exemplos de identidades do terceiro gênero em várias culturas.

Conservadorismo Colonial

No mundo ocidental, porém, gênero é um conceito binário. Um concepção errada muito comum diz que a aceitação de comportamentos não-heteronormativos como uma ideia ocidental. Essa ideia, além de estar errada, na realidade se contradiz com fatos históricos. Em muitos países, a criminalização da homossexualidade foi executada por leis imperiais britânicas. Por exemplo, administradores britânicos aprovaram o Ato Criminal da India em 1871, que efetivamente ilegalizando a existência de Hijras, transgêneros, eunucos e travestis. Países que foram colonias britânicas tem uma propensão maior de terem leis criminalizando a homossexualidade do que outros países que não sofreram colonização. Aproximadamente 70% das ex-colônias britânicas tem leis desse tipo.

A Tailândia, por sua vez, nunca foi colonizada. Enquanto as nações vizinhas sucumbiam aos colonizadores britânicos ou franceses, a Tailândia conseguiu se manter uma nação independente. Observando que as normas a respeito de gênero estavam mudando nos países vizinhos a Tailândia começou a estabelecer regras mais estritas e uma divisão de gênero mais binário para evitar futuras ações coloniais sobre o país. Para poder apresentar a Tailândia como uma nação “moderna” e assim evitar invasões, conceitos fixos de gênero foram impostos sobre a população. O percepção mais flexível de gênero foi substituída por uma ideia binária mais rígida de gênero e identidades sexuais, em uma tentativa de se igualar à compreensão de gênero ocidental, e dessa maneira, ser vista como uma nação “civilizada” pelas forças colonizadoras.

Se as restrições de gênero foram impostas nesses países por forças estrangeiras, a influência de tais concepções ainda se mantêm forte nos dias de hoje, criando um ambiente perigoso para pessoas que não se identificam dentro das normas heteronormativas.

Um país aparentemente aberto escondendo a discriminação

A aparente cultura de aceitação da Tailândia esconde expressivas discriminações que a comunidade LGBTIQ+ enfrenta. Na realidade, a sua existência é mais tolerada do que aceita, já que eles são limitados a exercer papeis específicos dentro da sociedade e enfrentam muita discriminação ainda hoje. Para a religião majoritária tailandesa (Budismo Theravada), ser membro de uma minoria sexual é considerado uma punição por pecados cometidos em vidas passadas, especialmente adultério. De acordo com um estudo de 2015 da Khon Thai Foundation, 56% dos tailandeses entre 15 e 24 anos acreditam que a homossexualidade é errada.

Não existe atualmente nenhuma lei que especificamente proteja a comunidade LGBTIQ+ da discriminação. A inclusão dessa comunidade dentro da cláusula sobre anti-discriminação da constituição, estabelecida em 2007, foi sugerida mas eventualmente rejeitada. Pessoas trans ainda não tem autorização para alterar o seu gênero em documentos pessoais. Até 2011, pessoas trans ainda eram consideradas pelo Ministério da Defesa como pessoas vivendo em “permanente distúrbio mental” (Definição do Ministério da Defesa para permitir que pessoas trans não se alistassem no serviço militar obrigatório).

No seu dia a dia, a comunidade LGBTIQ+ enfrenta discriminação no trabalho onde muitos preferem permanecer dentro do armário para evitar sofrimento. Para aqueles que não conseguem facilmente esconder a sua identidade, eles acabam sendo segregados a setores específicos: entretenimento e a indústria do sexo para a grande maioria deles.

A mudança não irá vir das escolas já que identidades de gênero e orientações sexuais não estão incluídas nas aulas de educação sexual, e nem são mencionadas em nenhuma parte do currículo. Além disso, estudantes tem que usar uniformes de acordo com o sexo registrado em seus documentos e não tem permissão para vestir-se de acordo com a sua verdadeira identidade de gênero.

Essas concepções erradas e esteriótipos ligados à comunidade LGBTIQ+ também são disseminadas pela mídia, através de personagens que ou aparecem em um contexto negativo ou são alívios cômicos. Nos noticiários, histórias de assédio e discriminação raramente são registrados para tentar não interferir na imagem da Tailândia como um paraíso LGBTIQ+.

Enquanto que na cultura ocidental tradicional, o terceiro gênero não tem espaço já que sua própria existência é questionada, eles são tolerados na Tailândia, desde que permaneçam em espaços sociais determinados, um espaço marginalizado e normalmente limitado ao entretenimento e à indústria do sexo. Se a Tailândia é um lugar aberto  comparado com outros países do mundo, incluindo os seus vizinhos, ele ainda está longe de ser um “paraíso” LGBTIQ+.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês) : Thailand: the LGBTIQ+ paradise?

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