Falando de raça e interseccionalidade em Drag com Victoria Sin

Tradução do texto de Jake Hall originalmente postado no i-D.

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É fácil esquecer que, por trás do Glitter, dos cílios postiços e dos brilhantes paetês, drag é um ato de rebelião contra a binaridade de gênero. Também é fácil esquecer que drag – diferentemente do que você pode ver ou ouvir em seu bar gay local – não é uma prática originária e exclusiva de homens. Tentando nos lembrar desse fato existe Victoria Sin, uma queen originária de Toronto que está atraindo atações e admiração pela sua única e brilhante montagem – imagine uma mistura genderfuck de Jessica Rabbit com Marlene Dietrich – pela sua arte performática e o seu ativismo. Sin não é somente muito bem versada em estudos sobre raça e teoria queer, como ela está ativamente comunicando essa mensagem através do Drag. Auto-denominada como uma “menina performativa em um mundo normativo”, nós entramos em contato com Sin para conversar sobre a sua jornada desde a descoberta como Drag e suas experiências com racismo e misoginia em espaços queer.

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Quando e porque você começou a experimentar Drag?

As minhas primeiras vezes em Drag aconteceram há três anos e meio, sozinha no meu quarto no PhotoBooth, até que finalmente eu saí em algumas noites no Vogue Fabrics em Dalston (Hoje VFD). Mesmo antes disso, drag sempre foi um prazer secreto – quando eu tinha 17 anos eu usava um documento falso para entrar em shows de drag com a minha ex-namorada e alguns homens que trabalhavam comigo em Toronto, de onde eu vim. Naquela época, como uma menina cis feminina, eu era sempre classificada como a “amiga hétero” – mesmo sendo uma mulher lésbica em um espaço queer – e eu penso que “amigas hétero” sempre são lembradas do seu lugar na cultura gay, que é fora do palco em eventos. Desde então foi um lento processo em me mudar para Londres aos 18, encontrar o cenário drag genderfuck e encontrando mulheres que fazem drag como Holestar que estava fazendo a sua arte e sendo vocal sobre o seu espaço no mundo drag. Isso me fez perceber que não havia nada de errado no meu desejo de abraçar o drag.

O que “se montar” significa para você?

Significa várias coisas para mim, entre elas significar colocar temporariamente e propositalmente uma personificação exagerada da feminilidade com a intenção de usar essa personificação para dominar a atenção e ocupar espaços. É um exercício de legitimação, que é algo que, como uma mulher racializada em espaços dominados por homens brancos, pode se tornar difícil.

Como você descreveria a sua personagem drag?

Ela evoluiu ao longo dos anos. Ela é um tipo de amalgama paródico de diversas figuras icônicas da feminilidade ocidental – Marilyn Monroe, Marlene Dietrich, Jessica Rabbit – mas ela foi se desenvolvendo por si mesma. Ela parece uma personagem deliberadamente construída e esculpida que eu transformo em algo que é diferente de mim, mas é algo que eu estou utilizando em meu trabalho para geralmente pensar sobre identidades com imaginários dentro das noções de gênero e raça e nas maneiras como elas são inseridas e performadas nos corpos.

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Você é comumente descriminada por ser uma mulher em bares gays?

Eu me lembro de frequentar bares gays quando eu tinha acabado de me assumir e ter homens que eu não conhecia se esfregarem em mim, ou me tocarem de maneira inapropriada. Não era algo malicioso da parte deles, eles simplesmente pensavam que nós estávamos nos divertindo e que isso “não era inapropriado” porque eles eram gays. Eu não sabia como articular o meu desconforto naquela época, mas hoje eu sei que, mesmo que eles não tivessem a intenção de me levar para a cama, eu ainda sou uma pessoa com limites que não aprecia ser agarrada sem meu consentimento. Isso só tornou as coisas piores na realidade – eles só estavam fazendo isso porque eles podiam. Recentemente eu cheguei a escutar um homem reclamar “porcaria de lésbicas” para mim, ou que as minhas conversas tinham muito estrogênio, que a menstruação é nojenta – exatamente as mesma merdas básicas e irritantes.

O racismo e a misoginia ainda são dominantes em espaços queer?

Foi uma realização muito dura mas, mesmo bares gays serem acessíveis para mim por ser também homossexual, eles ainda podem manter as mesmas atitudes racistas e machistas que o resto do mundo. Ter a sua voz sendo facilmente descreditada ou menosprezada, ser infantilizada ou não ser levada a sério – isso são experiências que eu tive como mulher asiática em espaços gays. O racismo é óbvio nas entrelinhas do Grindr como todos nós ouvimos (“Não cuto gordos, afeminados e orientais”) mas isso se torna mais claro quando você olha em volta na maioria dos estabelecimentos gays. Quantas pessoas queer, trans ou intersexo racializadas você consegue ver? Pessoas não gostam de ir a lugares onde elas não se sentem bem vindas, e a violência normalmente acontece de maneira sutil.

Você acha que a discriminação dentro de espaços queer é debatida de maneira suficiente?

Raramente é debatida, e o peso enorme de apontar esse problema de machismo, femmefobia e racismo normalmente recai nos ombros daqueles que sofrem isso diretamente. Imagino como é para uma mulher negra ir em um bar gay famoso e dar de cara com uma drag queen branca fazendo blackface e contando piadas sobre mulheres negras da classe trabalhadora enquanto um público formado majoritariamente por homens brancos rindo. Isso aconteceu recentemente. Foi necessária uma petição movida por Chardine Taylor-Stone com centenas de assinaturas para que a apresentação fosse removida! Essa performance não podia nem ter sido aprovada, quem diria ser necessário uma petição para a sua remoção. Eu me recuso a acreditar que nenhuma pessoa naquele público sabia que blackface é inaceitável em 2016. Deveria ser o trabalho daqueles que estão em posição de privilégio – promotores, gerentes, equipe do bar, a própria drag queen – ou alguém do público dizer “Pera lá – essa apresentação não está sendo feita em cima de um dos grupos menos representados dentro da comunidade queer? Esse ato não é uma reprodução da violência sistêmica que eles representam no mundo? Porque isso é engraçado? De quem eu estou rindo?”

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Você ainda escuta a opinião ridícula de que mulheres em drag estão fazendo uma “apropriação cultural”?

Eu vejo isso muito em comentários online sobre o meu trabalho, e essa opinião revela inúmeros problemas. Primeiro, essas pessoas acreditam que mulheres não fazem parte da cultura gay, uma noção irritante porque o apagamento de mulheres da cultura e história gay não é largamente debatido. Segundo, ela assume que a performance proposital e exagerada de feminilidade surgiu entre homens gays (não foi) e por isso pertence somente a eles (não pertence). Alpem disso, drag – como existe na cultura dominante dos dias de hoje – é uma apropriação da arte de drag queens negras e latinas e mulheres trans, enquanto que quem fala de tal apropriação normalmente são homens cis brancos.

Você encorajaria céticos a experimentarem a arte do drag?

Na minha percepção, drag é uma ferramenta que qualquer um poderia usar para disseminar as suas experiências cotidianas de gênero, processos relacionados a traumas e experimentar com representações e identificações de gênero, mas se uma pessoa não quer é a decisão dela. Eu não estou aqui para convencer todo mundo a fazer drag, mas eu recebo vários e-mails de jovens mulheres e indivíduos não binários que querem começar a fazer drag mas não sabem como. Na maioria dos casos, é porque os espaços de drag próximos a elas são dominados por homens e tem tradicionalmente visões binárias do que é drag e quem pode participar.

Qual o conselho que você daria para essas pessoas?

Se você quer fazer, não espere uma permissão de alguma drag toda poderosa porque você ficará esperando para sempre. Faça de qualquer maneira que você puder; procure espaços queer que são mais abertos, ocupe espaços de qualquer maneira que você puder e se sentir segura nessa ocupação, mesmo que seja postando as suas montagens on line. Encontre pessoas que compartilham do seu pensamento, se aproxime delas, seja corajosa, saiam juntas, comecem uma noite. Se existe uma coisa que eu aprendi enquanto me tornava mais visível nos últimos anos é que existe uma ânsia por espaços e drags centradas em experiências queer pouco representadas – nós estamos famintos. A coisa mais importante que nós podemos fazer agora é nos organizar e trabalhar coletivamente para criar as comunidades que nós queremos participar e sermos as drag que queremos ver – drags que desafiam, ao invés de reproduzir, as estruturas de poder que estamos inseridas.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Talking race and intersectionality in drag with Victoria Sin

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