Com o crescimento da aceitação, chineses gays lutam por direitos

Tradução do texto de Adam Minter originalmente postado no The Japan Times.

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Por mais de uma década, as redes sociais chinesas tem vocalizado grupos que de outra maneira seriam negligenciados ou difamados, incluindo a comunidade LGBTQ. Apesar do governo tenha oficialmente desaprovado, e jogos de gato e rato com autoridades serem muito comuns, o mundo online ainda oferece um espaço de relativa tolerância e tranquilidade. No final de Abril, o delicado equilíbrio foi ameaçado – até que usuários se revoltaram.

No dia 13 de Abril, Sina Weibo, uma plataforma de mídia social, anunciou que iria banir desenhos, jogos e videos contendo temas gays, em um esforço de cumprir as leis de segurança cibernética. Usuários reagiram furiosamente. No dia 16, a irritação se tornou tão intensa que o serviço voltou a traz e disse que a “limpeza não iria mais atingir conteúdos gays”. Para o governo, que por muito tempo evitou temáticas gays na mídia, isso foi quase um caso de censura sem precedentes.

Historicamente, a China não tinha um relacionamento tenso com a homossexualidade. Uma das maiores novelas clássicas, O sonho da Câmara Vermelha, contêm relacionamentos gays. Sob o governo comunista, no entanto, a homossexualidade foi criminalizada até 1997. O partido ainda se mantêm uma organização profundamente conservadora dedicada aos valores tradicionais, incluindo o espírito filial e o casamento heterossexual. Também é altamente cético sobre pedidos de mais liberdade pessoal; quando chineses gays procuram novos direitos – incluindo o direito matrimonial – eles são vistos com desconfiança.

Contudo, os olhares de reprovação das autoridades chinesas não conseguiram inibir a emergência da comunidade LGBTQ nos últimos anos. Uma pesquisa de 2016 aponta que existem cerca de 70 milhões de chineses gays, com poder econômico de 300 bilhões de dólares anuais. Negócios dentro dessa “economia rosa” – através de comerciais, produtos, serviços e culturas – tem impulsionado a visibilidade de chineses gays.

A urbanização também tem tido um papel importante, criando espaços físicos onde chineses gays podiam se encontrar. Mas ainda mais importante tem sido a emergência de aplicativos e redes sociais. Indivíduos que antes se sentiam isolados, logo estavam conectados com uma grande comunidade. Blued, um aplicativo de namoro com sede em Biejing, hoje tem 27 milhões de usuários. Um dos resultados, de acordo com estudos realizados entre 2006 e 2015, é que a oposição contra os direitos gays tem caído na China.

Mesmo com o  crescimento da aceitação social, no entanto, autoridades ainda se mantêm hostis. Em 2016, elas baniram um famoso web-série com temática gay e proibiram programas de televisão de mostrar qualquer conteúdo representando homossexuais. Ano passado, eles fecharam o Rela, um dos principais aplicativos de namoro lésbico, depois que ele ajudou a organizar um protesto de mães de crianças LGBTQ.

Cada um desses momentos gerou intensas oposições que rapidamente evaporaram. Mas um confronto claramente estava espreitando. Ano passado, o governo anunciou uma proibição de conteúdos com temática gay em programação online. A fúria pública emergiu, especialmente porque as diretivas conectavam a homossexualidade à abuso sexual e violência. No dia 13 de abril, essa fúria incendiou quando o Sina Weibo iniciou as suas novas políticas. “Eu sou gay e eu tenho orgulho disso, mesmo se eu for derrubado existem dez milhões como eu!” escreveu um usuário revoltado. Nos dias seguintes, hashtags de protesto foram vistas 240 milhões de vezes. Sina Weibo, pego de surpresa, logo voltou a traz na sua decisão.

 

Autoridades ainda não comentaram sobre a decisão do Sina Weibo. Mas a larga e espontânea oposição sobre essa censura com certeza chamou a atenção deles. Enquanto o governo está se tornando mais poderoso, ele ainda se mantém cauteloso em interferir com o que a classe média considera como vida privada. E cada vez mais, isso se extende para a vida de chineses gays.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): As acceptance grows, gay China wants rights

Ativista trans Cecilia Chung descreve a vida nos anos 80 em São Francisco

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Gírias chinesas LGBT

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