Cinema Queer Árabe emerge para quebrar tabus

Tradução do texto de Joseph Fahim originalmente postado no Middle East Institute.

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Um dos momentos mais revelantes da atual temporada do Ramadã na TV que terminou recentemente aconteceu  na nova série egípcia Don’t Turn Off the Sun. Uma noiva recém casada descobre que o seu marido está tendo um caso com o melhor amigo dele; um gancho que acaba resultando no final do casamento. O aspecto mais significativo foi que a atitude potencialmente provocativa por parte dos criadores da séria não comoveu nenhuma controvérsia.

Essa não foi a primeira vez que um personagem gay apareceu em uma série da televisão árabe. Na realidade, enredos envolvendo homossexuais tem se tornado comuns nas telas árabes. Mas, o que é notável em Don’t Turn Off the Sun é o seu tratamento progressivo e simpático dos personagens gays. A sexualidade do marido como gay ou bissexual é mantida ambígua, e o seu comportamento é visto como uma reação naturalmente confusa para uma sociedade que continua a punir qualquer conduta não-heteronormativa.

Ainda sob o forte controle de instituições religiosas politizadas, e desprovido de um movimento de contra-cultura, o caminho para uma representação pacífica de pessoas LGBT nas telas árabes tem sido longa e turbulenta. Tentativas corajosas de um pequeno número de cineastas como Youssef Chahine e Yousry Nasrallah destacam-se na longa história de má representação, marginalização, e vilanização de gays, começando na década de 80 em frente. Foram essas tentativas que deram frutos para uma onda emergente de filmes com temática gay que confrontam a estrutura social das nações árabes.

Como uma das indústrias cinematográficas mais antiga da região, o cinema egípcio foi o primeiro a lidar com a homossexualidade em vários filmes desde o início da década de 50, como em Dead End Road (1957) de Salah Abou. Tratados como uma mistura errática de exageros sutis e maníacos, os papéis dos personagens gays sempre eram banalmente atribuídos nas mesmas categorias: predadores sexuais, pessoas psicologicamente desequilibradas, ou liberais ocidentalizados.

Na medida que o wahhabismo saudita foi se tornando mais dominante na região, a representação LGBT no cinema  permaneceu estagnado na sua mono-dimensionalidade. Um número notável de filmes como The Yacoubian Building (2006) de Marwan Hamed empenharam-se em polir os seus simpáticos protagonistas gays, mas foram obrigados a encontrar validações psicológicas, tais como abuso sexual durante a infância, para justificar a sua sexualidade dos seus personagens. O mesmo acontece com o burlesco Family Secrets (2013) de Hany Fawzy, cujo personagem principal acaba indo em terapia e milagrosamente é curado da sua “doença” gay. Em The Yacoubian Building e vários outros filmes comerciais egípcios que sucederam, gays eram, no final das contas, considerados catalisadores podres culpados pela desintegração da sociedade, e por isso recebiam uma punição cruel no final.

Diferententemente,  esforços post-milenares de diferentes cineastas que trabalham fora do mercado dominante lutam para apresentar personagens atípicos e multi-dimensionais. Exemplos incluem o tímido e enigmático cabeleiro no filme libanês Caramel (2007) de Nadine Labaki,  e os amantes de segunda geração de árabes europeus no centro do drama criminal britânico My Brother the Devil (2012) da Egípcia-galesa Sally El Hosaini.

O Líbano tem sido um dos mais liberais e tolerantes dos países árabes quando se trata de questões LGBT – a recente decisão parlamentar que afirma que a homossexualidade não é ilegal foi a primeira decisão desse tipo dentro do mundo árabe. E foi no Líbano que surgiu a primeira onda de cinema árabe queer. É um movimento introduzido por cineastas árabes gays cujas obras exploram todo o espectro da experiência árabe LGBT moderna usando uma miríades de narrativas e aparatos estéticos.

O primeiro filme que anunciou esse movimento foi Out Loud (2001) de Samer Daboul, um drama com diversos personagens centrado em um jovem casal gay que se refugia em uma comunidade hippie. A produção do filme terrivelmente interrompida por protestos anti-gay, que forçou Daboul a terminar a edição do filme nos Estados Unidos.

Nada menos que quatro filmes foram produzidos por cineastas libaneses abertamente gays nos últimos 12 meses: Eccomi.. Eccoti de Raed Rafei; The Emperor of Austria de Selim Mourad; Room for a Man de Anthony Chidiac; e Chronic de Mohamed Sabbah. Os filmes de Chidiac e Sabbah são os mais ambiciosos desse grupo. As identidades Queer tomam a frente e o centro de ambas as estórias, mas ao integrar políticas sexuais dentro de um painel sócio-político mais amplo, ambos os filmes demonstram as infinitas possibilidades que o cinema queer árabe pode alcançar.

Diferente de Daboul, esses cineastas não encararam nenhum obstáculo na produção de seus filmes. “As coisas estão mudando. Mais filmes abordando a homossexualidade estão sendo produzidos, e nós não estamos mais com medo de produzir os nossos filmes”, disse Sabbah. Chronic teve a sua premier no Festival de Dias de Cinema de Beirut em Março com uma calorosa recepção. O filme é um drama não-ficcional experimental que usa o público do filme como um trampolim para explorar a sexualidade, a guerra da Síria e o persistente legado do colonialismo.

“Eu acho que as pessoas estão prontas para as nossas estórias. Eu percebo que existem mais resistência no resto do mundo árabe, mas essa resistência está enraizada em esteriótipos e representações de clichês, e é por isso que nós precisamos apresentar uma narrativa alternativa que mostra a realidade das coisas. Nós precisamos quebrar esses esteriótipos” adicionou Sabbah.

Identidades Queer não é o principal tema por traz dessas histórias, como Sabbah afirma. “Eu não tenho uma mensagem que eu queira promover. Eu sou, no entanto, uma pessoa gay e essa identidade irá sempre parte essencial, se não central, dos meus filmes”.

Sabbah acredita que a diversidade religiosa do Líbano, e a falta de uma autoridade religiosa dominante como em outros estados árabes de maioria sunita, permite um espaço de expressão social e cultural, particularmente quando se trata da comunidade LGBT. Na maioria do mundo árabe a homossexualidade ainda é ilegal e é severamente punida. Graus de tolerância variam de estado para estado, mas a comunidade LGBT sofrem assédios e repressões de autoridades estatais, onde a religião e a moralidade normalmente são evocadas para suscitar um sentimento público.

Essa inconstante caça às bruxas forçou o premiado autor e diretor marroquino Abdellah Taïa – o primeiro escritos marroquino abertamente gay – a sair da sua cidade natal de Salé em 1998 e se mudar para Paris, onde ele embarcou em uma bem sucedida carreira literária. A sua profunda e bela adaptação cinematográfica de 2013 das suas memórias, The Salvation Army, que foi premiada no Festival de Filmes de Veneza, foi um importante ponto de partida na ainda jovem caminhada do movimento queer árabe.

“Eu não queria contar a minha história como uma pessoa gay; eu queria contar a história do que estava acontecendo na minha casa de infância”, conta Taïna. “E estavam acontecendo várias coisas em minha casa: pobreza, amor, transgressão. Eu queria lidar com a realidade pobre do Marrocos, e as regras impostas por políticos, pela religião e pela sociedade”.

Assim como o de Sabbah, o filme de Taïna não teve problemas com a censura local em obter a permissão de gravar em Marrocos, apesar de que foi impiedosamente atacada em vários estágios da produção. Depois da sua premier no Festival de Filmes de Tangier em 2014, “o público se sentiu envergonhado”, ele disse. “Foi a primeira vez que eles viam um herói gay. Eles estavam rindo. A conferência de imprensa parecia um campo de batalha. Foi extremamente agressivo”.

Para Taïa, ele credita o cinema egípcio por inspirá-lo, e enfatizando a importância de imagens e narrativas criadas dentro da cultura árabe. “Eu via aquelas imagens como uma continuação de mim e da minha história” disse Taïna. “Aquelas eram imagens que me ajudaram a lidar com a minha realidade marroquina”.

Apesar das mudanças substanciais na percepção de diversos grupos a respeito da comunidade LGBT no mundo árabe, a aceitação geral ainda permanece como algo indeterminado e ainda muito distante. Repressões estatais e ataques coletivos sobre pessoas supostamente gays ainda são frequentes em muitas partes da região.

“É um fato de que pessoas gays não são amadas nessa terra, e é por isso que precisamos que nossas histórias sejam contadas”, disse Taïna, adicionando que em seus futuros projetos irão continuar focando nas vidas árabes gays. “Depois da descolonização, líderes árabes tentaram convencer a população de que eles não eram nada. Mas hoje, e depois da Primavera Árabe, e apesar do que aconteceu no passado, as pessoas estão finalmente enfrentando os seus governos para provar que eles não são ‘nada'”, ele adiciona.

O movimento do cinema queer árabe é uma nova realidade emergente que contribui para uma sociedade árabe em constante mudança, e forçando o questionamento de regras e estruturas que mantêm a ordem social e estatal na região nas últimas décadas.

“As coisas estão mudando nas sociedades árabes, mesmo que em menor escala. O uso da religião para criminalizar a homossexualidade é puramente política. Eu sou um muçulmano, e não existe nada no Corão contra a homossexualidade. O que existe são várias ambiguidades sobre o tema”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Arab Queer Cinema Emerges to Break Taboos 

Paquistão aprova lei que garante direitos a pessoas trans

Resistência e subversão: Movimentos Queer pela Ásia – Líbano

Um olhar secreto em uma casa de banho gay no Irã

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