Em busca do meu pênis: O asiático erotizado na pornografia gay

Tradução do texto de Richard Fung originalmente publicado na In Bad Object-choices (Eds). How Do I Look? Queer Film & Video. Seattle: Bay Press, pp. 145-168, 1991.

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Muitos cientistas iniciaram a examinar as relações entre a personalidade e o comportamento reprodutivo humano a partir de uma perspectiva evolutiva baseada na genética… Nesse meio registramos um estudo sobre a diferença racial na abstinência sexual que se organiza em orientais >  brancos >  negros. Abstinência foi indexada de diversas maneiras, tendo em comum a baixa locação de energia corporal para funções sexuais. Nós encontramos que o mesmo padrão racial ocorre na produção de gametas (frequência de natalidade dizigótica por centos: Mongolóides, 4; Caucasianos. 8; Negróides, 16), frequência de relações sexuais (pré-matrimonial, matrimonial e extra-matrimonial), precocidade de desenvolvimento (idade da primeira relação sexual, idade da primeira gravidez, número de gravidezes), características sexuais primárias (tamanho do pênis, vagina, testículos, ovários), características sexuais secundárias (saliência da voz, musculatura, nádegas, seios), e controle biológico de comportamento (periodicidade da resposta sexual, previsibilidade do histórico de vida através do começo da puberdade), assim como níveis de androgenia e atitudes sexuais.

Essa passagem da Revista de Pesquisas sobre Personalidade foi escrito pelo psicólogo Phillippe Rushton da Universidade de Western Ontario, que goza de uma considerável controvérsia dentro dos círculos acadêmicos canadenses e na mídia popular. Sua tese, articulada através de seu trabalho, se apropria de estudos biológicos de um contínuo que vai das estratégias reprodutivas de ostras até chimpanzés e postula que o nível de “sexualidade” – interpretada como o tamanho do pênis e da vagina, frequência de relações sexuais, tamanho das nádegas e lábios – se correlacionam proporcionalmente à criminalidade e comportamentos sociopáticos e inversamente com inteligência, saúde e longevidade. Rushton vê raça como o fator determinante e coloca leste-asiáticos (Rushton usa a palavra orientais) em uma ponta do espectro e negros na outra. E como brancos caem exatamente no meio, a posição de perfeito balanço, não existe necessidade de análise, e eles permanecem livres de controle.

Apesar das suas profundas falhas científicas, o trabalho de Rushton serve como uma excelente articulação de um discurso dominante sobre raça e sexualidade  na sociedade ocidental – um sistema de ideias e práticas recíprocas que originaram na Europa simultaneamente com (e alguns argumentam que como uma forma de justificativa) da expansão colonialista e da escravidão. No século XIX essas ideias adotavam um brilho científico com o darwinismo social e eugenia. E hoje elas reaparecem, de alguma forma alteradas, em revistas de psicologia como as que publicaram Rushton. É importante adicionar que essas ideias penetraram na consciência popular ao redor do mundo. Qualquer pessoa que já foi exposta à televisão ocidental ou imagens de propagandas, ou seja quase todo o mundo, irá ter absorvido essa particular constelação de esteriótipos e hierarquias raciais. Em Trinidad, nos anos 60, nos confins do império, todos na minha escola eram bem versados nessas “verdades” sobre raça.

Historicamente, a maior parte das movimentação contra o racismo tem se concentrado em lutar contra as discriminações que germinam da variável socio-intelectual de comportamento suposta pela escala de Rushton. Afinal de contas, discriminação baseada na percepção das habilidades intelectuais tem ramificações diretas em termos de educação e trabalho, e por consequência sobrevivência. Até recentemente, temas como gênero e sexualidade permaneceram como baixa prioridade por aqueles que falam pelas comunidades minoritárias. Mas estratégias anti-racistas que falham em subverter o status quo são valores extremamente limitados. Racismo não pode ser definido estritamente em termos de ódio racial. Raça é um fator até mesmo nos nossos relacionamentos íntimos.

A construção contemporânea de raça e sexo como exemplificada por Rushton tem atribuído a pessoas negras, tanto homens como mulheres, uma perigosa hiper-sexualidade. Asiáticos, por outro lado, são coletivamente vistos como hipo-sexualizados. Mas, aqui eu desejo fazer algumas distinções cruciais. Primeiro, na América do Norte a esteriotipação tem focado quase que exclusivamente no que a linguagem colonial recente designa como “orientais” – ou seja pessoas do leste e sudeste asiático – em oposição ao “orientalismo” discutido por Edward Said, que se refere ao Oriente Médio. Dessa forma, o uso popular é baseado mais na percepção de traços físicos similares – cabelos pretos, olhos puxados, maçãs do rosto altas, e assim em diante – do que uma referência a traços culturais comuns. Sul asiáticos, pessoas que tem como pano de fundo o subcontinente indiano e o Sri Lanka, raramente são representados na cultura popular Norte Americana, e essas poucas imagens são ostensivamente afastadas de qualquer conotação sexual.

E em segundo lugar, dentro de todo o esteriótipo de “orientais”, existem associações sexuais contraditórias que competem entre si basadas na nacionalidade. Por exemplo, uma pessoa pode ser vista como japonesa e de certa forma pervertida, ou filipina e “disponível”. A mesma pessoa pode ao mesmo tempo ser vista como “oriental” e dessa forma assexuada. Além disso, a hierarquia racial renovada por Rushton entra em contradição com uma representação antiga e parcialmente esquecida descrição de asiáticos como um grupo que tem um libido perigoso e indisciplinado. Eu me refiro aos escritos dos primeiros exploradores europeus e missionários, mas também sobre as leis anti-miscigenação e leis específicas como a lei de Saskatchewan de 1912 que impedia mulheres brancas de trabalharem em estabelecimentos chineses.

Finalmente, mulheres leste-asiáticas figuram de maneira diferente de homens tanto na realidade como na representação. Em “Flores de Lótus não sangram” (Lotus Blossoms Don’t Bleed, sem tradução para o português), Renee Tajima aponta que nos filmes de Hollywood:

Existem dois tipos básicos: O Bebê da Flor de Lótus (Também conhecido como China Doll, Geisha Girl, Tímida Beleza Polinésia, et al.) e a Dragon Lady (As várias relações femininas de Fu Manchu, prostitutas, madames maléficas)… Mulheres asiáticas no cinema são, na maior parte das vezes, figuras passivas que existem para servirem os homens – como interesses românticos para homens brancos (as Flores de Lótus) ou parceiras de crime de homens iguais a elas (as Dragon Ladies)

E mais adiante:

Criaturas obedientes que são, mulheres asiáticas são designadas a qualidade de descartabilidade em situações de amores ilícitos… O que notavelmente falta é o retrato da relação amorosa entre uma mulher asiática e um homem asiático, particularmente como personagens principais.

Por causa da sua suposta passividade e sua conformidade sexual, mulheres asiáticas foram fetichizadas na maioria das representações, e existe um grande e crescente corpo literário escrito por mulheres asiáticas sobre como opressivas essas imagens são. Homens asiáticos, no entanto – pelo menos desde Sessue Hayakawa, que montou uma carreira em Hollywood na década de 20 representando homens asiáticos como uma figura sexual – foram consignados em uma de duas categorias: o intelectual/fracote, ou – no que pode ser análogo a dicotomia Flor de Lótus – Dragon Lady – o mestre kung fu/ninja/samurai. Ele algumas vezes é perigoso, algumas vezes amigável, mas quase sempre caracterizado por uma ascetismo zen  dessexualizado. Então, enquanto, como dito por Fanon, “O negro é eclipsado. Ele é transformado em um pênis. Ele é um pênis”, o homem asiático é definido por uma marcante ausência da cintura para baixo. E se um homem asiático não tem uma sexualidade, como ele pode ter uma homossexualidade?

Mesmo no início dos anos 80, eu me lembro de ter que provar a minhas credenciais como pessoa queer antes de ser admitido em um clube gay de Toronto com outros homens asiáticos. Eu não acho que isso foi um caso de segregação racial: Mas, meus amigos e eu sentimos que o porteiro estava genuinamente incerto sobre a nossa orientação sexual. Nós também sentimos que se nós fossemos brancos e vestidos da mesma maneira, a nossa entrada teria sido automática.

Apesar de um dos lemas do movimento de lésbicas e gays ser “nós estamos em todos os lugares”, asiáticos são amplamente esquecidos nas imagens produzidas tanto por setores políticos como comerciais das comunidades gays e lésbicas centrais. Desde as primeiras articulações do movimento de lésbicas e gays asiáticos, a principal preocupação foi a visibilidade.  Em organizações políticas, a demanda por voz, ou melhor, a demanda para ser ouvido, tem sido respondida pela problemática prática de representação de “minorias” em painéis e conselhos. Mas já que racismo é uma questão de poder e não de números, essa estratégia para uma integração tokenista sem saída, incapaz de dialogar com os desequilíbrios reais.

Criar um espaço para a representação de lésbicas e gays asiáticos significou, entre outras coisas, aprofundar o entendimento do que está em jogo quando asiáticos saem do armário publicamente. Como é o caso de muitas pessoas racializadas e em especial imigrantes, nossas famílias e nossas comunidades étnicas são fontes raras de afirmação em uma sociedade racista. Ao sair do armário, nós colocamos em risco (ou sentimos o risco) de perder esse apoio, apesar da crescente organização de asiáticos gays e lésbicas tem trabalhado contra esse processo de exílio cultural. Na minha própria experiência, a existência da comunidade asiática gay quebrou o dilema cultural aonde, por um lado, eu me relacionava com uma família heterossexual que afirmava a minha cultura étnica, e por outro lado, com uma comunidade gay que era predominantemente branca. Sabendo da existência de um apoio também me ajudou a sair do armário para a minha família e aproximar esses dois universos.

Se olharmos para a representação comercial de gays, parece que o movimento anti-racista teve pouco impacto nessa área: As imagens de homens e da beleza masculina continuam sendo de homens brancos e a beleza masculina branca. Esses são os padrões com que nós comparamos nós mesmos e frequentemente os nossos irmãos – asiáticos, negros, indígenas e latinos. Apesar de que a rejeição (ou fetichização) de outras pessoas sobre nós sobre as hierarquias raciais estabelecidas podem ser sentidas como opressivas, nós não estamos necessariamente movidos a examinar nossos próprios desejos e as suas relações com a imagem hegemônica de homens brancos.

Na minha vocação de uma vida pela busca do meu pênis, tentando preencher esse vácuo visual, eu me deparei com um punhado de referências primárias e secundárias para a sexualidade do homem asiático na representação norte americana. Mesmo nos meus próprios trabalhos audiovisuais, o foco foi na desconstrução da representação sexual e somente marginalmente na criação de erótica. Então eu fiquei muito excitado na descoberta de um estadosunidense vietnamita trabalhando na pornografia gay.

Tendo atuado em seis filmes, Sum Yung Mahn é talvez o único asiático a se qualificar como uma “estrela” da pornografia gay. Também conhecido como Brad Troung, ou Sam, ou Sum Yung Mahn, ele trabalhou para diferentes estúdios. Todas as fitas em que ele aparece são distribuídas pela International Wave-length, uma empresa de pedidos por correspondência sediada em São Francisco cujo catálogo apresenta asiáticos em produções dos Estados Unidos, Tailândia e Japão. De acordo com o proprietário da  International Wavelength, cerca de 90% das fitas asiáticas são compradas por homens brancos, enquanto que os outros 10% são adquiridas por asiáticos. Mas o número de compradores asiáticos tem crescido.

Examinando o trabalho de Sum Yung Mahn, é importante reconhecer as diferentes estratégias usadas para encaixar um ator asiático no mundo tradicionalmente branco da pornografia gay e como os termos de ingresso são determinadas pelas demandas de um público alvo. Três fitas, cada uma voltada para um interesse erótico específico, ilustram essas estratégias.

Below the Belt (1985, dirigido por Philip St. John, California Dream Machine Productions), assim como muitas fitas pornográficas, tem uma estrutura episódica. Todas as sequencias envolvem os estudantes e o sensei de um dojo de karate só de homens. A autenticidade do cenário é proclamada com as tomadas iniciais de um ginásio cheio de jovens homens vestidos com kimonos e caras sérias realizando exercícios com suas armas. Cada um dos atores principais apresentado – com exceção do professor, que tem cabelos escuros – se encaixam nas convenções atuais de pornografia de arianos loiros, depilados e atraentes. Além disso, já que Sum Yung Mahn não é listado nos créditos iniciais, podemos supor que essa fita não é voltada para um público que tenha qualquer tipo de interesse por homens asiáticos. A maioria dos vídeos pornográficos gays usam exclusivamente atores brancos; aquelas fitas que apresentam um pouco de integração racial são lançadas para o mercado de especialidades através de lojas como a International Wavelength. Essa divisão racial se origina, eu suponho, de uma percepção errônea de que o apetite sexual de homens gays é exclusivo e imutável.

Um dojo de Karate oferece uma rica oportunidade de introdução de atores asiáticos. Pode-se imaginar isso como o projeto dos sonhos de gays orientalistas. Mas dado o público alvo desse vídeo, o apelo erótico de um dojo, com exceção de algumas vestimentas e adereços inapropriados (Bandeiras taiwanesas e coreanas para uma forma artística japonesa?), são completamente apropriadas em um mundo branco.

As ações da fita acontecem no ginásio, no apartamento dos estudantes e em um jardim. A única cena de Sum Yung Mahn é em uma sequência de sonho. Dois estudantes, Robbie e Stevie, estão sentados no vestiário. Robbie confessa que ele tem tido sonhos estranhos com Greg, o professor deles. Um corte para a sequência de sonho, que é codificada pelas nuvens de fumaça verde. Robbie está vestindo uma bandana vermelha com riscos pretos que sugerem uma escrita (Se elas realmente pertencem à alguma língua asiática, elas não são caracteres japoneses ou chineses como alguém pode imaginar). Ele está preso em uma elaborada armadilha. Então entra o personagem de um ninja mascarado de roupas pretas, manejando um nunchaku. Robbie narra: “Eu sabia que esse cruel samurai iria me matar”. A figura mascarada estava passando as correntes do nunchaku de maneira ameaçadora nas genitálias de Robbie quando Greg, o professor, aparece e elimina a ameaça. Robbie explica para Stevie no vestiário: “Eu sabia que eu devia a ele a minha vida, e eu sabia que eu tinha que dar prazer para ele [longa pausa] de qualquer maneira que ele quisesse”. Durante essa pausa, nós somos transportados novamente para o sonho. Entre nuvens de fumaça, Greg, carregando um homem eu seus braços, se aproxima de uma plataforma. Apesar das costas de Greg estarem na frente da câmera, nós podemos ver que o homem veste uma bandana vermelha, o identificando como Robbie. Assim que Greg coloca ele sobre a plataforma, nós vemos que Robbie tinha se “tornado japonês”! Ele é Sum Yung Mahn.

Greg faz sexo com Sum Yung Mahn, que está sempre com o rosto voltado para baixo.

A cena constrói o sexo anal com o Robbie asiático como um ato de submissão, não como um ato de prazer: diferente de outras cenas de sexo anal do vídeo, por exemplo,  onde existe um diálogo do tipo “Oh yeah… me fode mais forte!”, só temos gemidos ambíguos. Sem gozar, Greg sai de cena. Um grupo de homens (brancos) vestindo roupas japonesas circulam a plataforma, e o Robbie asiático, ou “menino oriental”, como ele é listado nos créditos finais, se vira de barriga para cima. Ele faz sexo oral, lambe os testículos de um dos homens. Os outros homens ejaculam sobre o seu corpo; e ele ejacula também. A cena final da sequência dá um zoom na bandana de Sum Yung Mahn, que dissolve para um close de Robbie usando a mesma bandana, enfatizando que os dois atores representam um único personagem.

Nós agora voltamos para o vestiário. A história de Robbie deixou Stevie excitado. Ele se aproxima das calças de Robbie, retira o seu pênis, e a cena de sexo continua. Na sua manifestação asiática, Robbie é passivo e pratica sexo oral nos outros. A sua passividade é pronunciada, e ele aparece sempre de bruços. Como um homem branco, o seu papel é completamente revertido: ele primeiro recebe sexo oral de Stevie, e depois ele é ativo no sexo anal. Nenhuma das manifestações de Robbie saem dos papéis estabelecidos.

Em uma extensão maior do que outros filmes pornográficos gays, Below the Belt é diretamente sobre poder. O cenário hierárquico de um dojo é explorado pela sua evocação de dominação e submissão. Com exceção de uma sequencia muito romântica no meio do filme, muitos dos atores ficam presos nos seus papeis como ativos ou passivos. Sexo, especialmente o sexo anal, como uma punição é uma imagem recorrente. Nesse gênero de pornografia gay, a interpretação em uma sequência de sonho é perfeitamente pertinente. O que é significante, porém, é como raça é apresentada dentro dessa equação. Em um filme que se apropria de emblemas do poder asiático (karate), o único espaço ara um ator realmente asiático é em uma caricatura de passividade. Sum Yung Mahn não representa um asiático, mas uma representação de uma metáfora, para que ao ser passivo, Robbie se torna “oriental”. Em um nível mais prático, a ferramento dos sonhos também permitem aos produtores introduzir um elemento de mistério, o exótico, sem perturbar o status quo racial do resto da fita. Mesmo na sequência de sonho, Sum Yung Mah está no centro do enquadramento como um espetáculo, tendo o mínimo de envolvimento físico com os homens que o circula. Mesmo a sequência terminando com a sua ejaculação, ele existe para o prazer dos outros.

Richard Dyer, ao escrever sobre pornografia gay, afirma que: “Apesar do prazer do sexo anal (ou seja, o de ser analmente estimulado) ser representado, a narrativa nunca é organizada em cima do desejo de ser penetrado, mas em cima do desejo em si (seguida ou não de sexo anal). Assim, apesar de representação pública de homens gays ser a de depravados e de pessoas que quebram as normas da masculinidade por aceitarmos o prazer de sermos penetrados e erotizarmos o anus, na nossa pornografia isso é completamente ignorado”.

Apesar da emenda de Tom Waugh desse argumento – de que o prazer anal é representado em sequências individuais – ser verdade para Below the Belt, como um todo o poder do pênis e o prazer da ejaculação são claramente os princípios organizacionais da narrativa. Assim como a vasta maioria dos vídeos norte americanos que elencam asiáticos, o problema não é a representação do prazer anal em si, mas o fato da narrativa privilegiar o pênis e ao mesmo tempo sempre determinar o papel de passivos para asiáticos; asiáticos e o ânus são combinados. No caso de Sum Yung Mahn, ser penetrado pode ser a sua preferência sexual preferida. Mas o ainda é um fato de que existem poucas ocasiões na ponografia norte americana onde asiáticos penetram homens brancos, tão poucos, na realidade, que a International Wavelength promove o vídeo Studio X (1986) com a sinópse “Sum Yung Mahn faz história como o primeiro asiático a foder não-asiáticos”.

Apesar de eu concordar com Waugh de que, ao contrário da ponografia heterossexual, “a posição do espectador em relação às representações é aberta e fluida” essa observação se aplica somente para os participantes que são brancos. Raça introduz outra dimensão que pode enclausurar parte dessa mobilidade. Isso não sugere que a experiência do homem gay racializado com esse tipo de representação sexual é a mesma de mulheres heterossexuais na pornografia heterossexual perpetrada pelo olhar masculino. Por um motivo. Homens asiáticos gay são homens. Nós podemos dessa maneira experimentar fisicamente os prazeres apresentados na tela, já que nós também temos ereções e ejaculações e temos experiências com a penetração anal.  Uma identificação pode ocorrer apesar dos papeis raciais definidos, e muitos dos homens asiáticos gays da América do Norte estão acostumados a obter prazer de pornografia atuada só por brancos. Isso, lógico, anda de mãos dadas com muitos problemas de auto-imagem e identidade sexual. Mesmo assim, eu fui atingido por uma unanimidade de homens asiáticos gays que eu conheci, de todo o continente assim como da Ásia, imediatamente identificando e resistindo essas representações. Todas as vezes que eu menciono o tópico de atores asiáticos na pornografia norte americana, a primeira pergunta que me é feita é porque asiáticos simplesmente aparecem sendo penetrados.

Asian Knights (1985, dirigido por Ed Sung. William Richhe Productions), o segundo filme que eu gostaria de analisar; tem um produtor-diretor asiático e tem um elenco predominantemente asiático. Nesse cenário, dois homens asiáticos, Brad e Rick, estão vendo um psicólogo branco porque eles não conseguem ter uma relação sexual um com o outro.

Rick: Nós nunca fizemos sexo com outros asiáticos. Nós normalmente fazemos sexo com homens caucasianos.

Psicólogo: Vocês já tiveram a oportunidade de fazer sexo um com o outro?

Rick: Sim, várias vezes, mas nós nunca continuamos.

Homofobia, assim como outras formas de opressão, é raramente trabalhada dentro da pornografia gay. Com a exceção de vídeos sobre sexo seguro que tentam uma rara mistura de pedagogia e pornografia, problemas sociais e políticas normalmente não estão associados com a erótica. É então incomum ver um dos tópicos mais discutidos por grupos mais conscientes de asiáticos gays ser utilizado como uma fantasia sexual em Asian Knights. A imagem dessexualizada do homem asiático que eu descrevi anteriormente afetou seriamente os nossos relacionamentos uns com os outros; e normalmente homens asiáticos gays acham difícil ver uns aos outros além da amizade platônica ou como competição, e também considerar outros homens asiáticos como interesse romântico.

Consistente com as convenções da pornografia, pouco aconselhamento foi dado pelo psiquiatra para convencer Rick e Brad a retirarem as suas roupas. Ereções instantaneamente aparecem, e eles procedem a fazer sexo. Mas o que aparentemente parece ser uma afirmação dos desejos de asiáticos gays rapidamente se descarrilha. Na medida que Brad e Rick fazem sexo no sofá, a câmera corta para o psiquiatra olhando eles da sua poltrona. A retórica da edição sugere que nós estamos vendo os dois homens asiáticos a partir do ponto de vista dele. E logo o homem branco também retira a sua roupa e se une aos dois. Ele imediatamente toma a posição de centro da ação – e também o centro do enquadramento. O que aparentava ser uma “conversão da fantasia” para o desejo de asiáticos gays foi meramente um ardil. A absorção temporariamente mútua de Brad e Rick realmente ocorre para estabelecer a atração sexual superior pelo psiquiatra branco, um representante do espectador branco; que é o verdadeiro tema do vídeo. E a questão do desejo de asiáticos por asiáticos, apesar de apresentado como a principal força narrativa da sequência, é desviada, ou melhor, redirecionada para a perspectiva branca.

O sexo entre dois homens asiáticos nessa sequência pode ser comparado até certa extensão com o sexo heterossexual em filmes pornográficos gays, como os produzidos pelos irmãos Gage. Em Heatstroke (1982), por exemplo, sexo com uma mulher é usado para estabelecer a autenticidade da heterossexualidade de um homem que será seduzido por um homem gay. Isso dramatiza o significado da conversão através da santificação do objeto de desejo, enfatizando o poder do homem gay ao incitar desejo em alguém definido como socialmente superior. E também está vinculado à fantasia da virgindade (feminina) e a conquista de sociedades judaico-cristãs e outras formas de patriarcado. A sequência da terapia de Asian Knights também sugere um paralelo com a representação de lésbicas na pornografia heterossexual, representações que não existem para erotizar mulheres amando mulheres, mas para excitar e empoderar o ego sexual do homem heterossexual que assiste o filme.

Asian Knights é organizado para vender representações de asiáticos para homens brancos. Diferentemente do Sum Yung Mahn em Bellow the Belt, os atores são mais expressivos e sexualmente assertivos, tanto como sedutores como seduzidos. Mas, apesar dos papéis mudam durante as cenas de sexo oral, os asiáticos ainda permanecem passivos durante o sexo anal, exceto que agora eles aparecem desejando isso. O quanto essa afirmação de desejo representa um avanço ainda está aberto a questionamento.

Mesmo na única sequência de Asian Knights onde um ator asiático penetra o homem branco, o cenário privilegia o prazer do homem branco do que a do asiático. A sequência começa com um asiático lendo uma revista. Quando o homem branco (interpretado pela estrela pornô Eric Stryker) volta de casa de um dia duro de trabalho no escritório, o asiático então pergunta como o seu dia foi, retira a roupa dele (até mesmo retirando as meias dele), e procede a massagear as costas dele. O homem asiático realiza o papel da mitologizada geisha ou “a boa esposa” como fantasiada nos negócios de noivas por correspondência. E, de fato, o “criado” é uma das mais persistentes fantasias que essoas brancas tem de homens asiáticos. A fantasia é a realidade de muitos países asiáticos onde o imperialismo econômico dá a estrangeiros, seja qual for a sua raça, a seleção de homens bonitos em necessidades financeiras. O imperialismo cultural garante o status para asiáticos com amantes brancos. Homens brancos que por alguma razão, especialmente idade, são considerados pouco atraents em seus países de origem, repentinamente se encontram em um status elevados e desejados.

Da cena de abertura com desenhos de flores de lótus na tela até uma cena de um jardim japonês que separa os episódios, da musica pop chinesa até os itens de decoração chinesa no apartamento, existe uma tentativa consciente em Asian Knights de evocar uma atmosfera particular. Significantes “orientais” autoconscientes são parte da fantasia colonial – e da realidade – que empoderam um tipo de homem gay sobre outros. Apesar de eu conhecer homens asiáticos em relações dependentes com homens mais velhos, homens brancos ricos, como no cenário de uma fantasia erótica de criado, não é a representação da fantasia que ofende, ou a fantasia em si, mas a uniformidade de como essas narrativas reaparecem e a desconfortável relação que elas tem com condições sociais reais.

International Skin (1985, dirigido por William Richhe. N’wayvo Richhe Productions), como o próprio nome sugere, tem no elenco um latino, um homem negro, Sum Yung Mahn, e inúmeros atores brancos. Diferente dos outros filmes que eu discuti, não existem artifícios “orientais”. E apesar de Sum Yung Mahn e outros homens racializados inevitavelmente serem penetrados (sem reciprocidade), existe um relacionamento mútuo entre os personagens brancos e não-brancos.

Nesse vídeo, Sum Yung Mahn é Brad, um estudante de cinema produzindo um filme para a sua classe. Brad é o narrador, e o filme começa com uma cena auto-reflexiva de Sum Yung Mahn explicando o cenário. O filme que nós estamos assistindo supostamente representa o ponto de vista de Brad. Mas, novamente, o filme não é voltado para homens negros, asiáticos ou latinos. Apesar de Brad introduzir todos esses homens como seus amigos, nenhum personagem racializado se encontra na mesma cena. Homens racializados não são convidados no internacionalismo que está sendo vendido, exceto através do contraste com os personagens brancos. Esse filme ilustra como a agenda de integração pode se tornar problemática se ela só enquadra essa questão nos termos de negro-branco, asiático-branco: ela perpetua um sistema centrado na branquitude.

O espectador asiático gay não é construído como sujeito sexual em nenhum dos seus trabalhos – não na tela, não como espectador. Eu posso achar Sum Yung Mahn atrativo, eu posso desejar o corpo dele, mas eu estou sempre consciente de que ele não foi feito para mim. Eu posso desejar Eric Stryker e me imaginar como o asiático que faz sexo com ele, mas o papel que o asiático performa na cena com ele é humilhante. Não porque exista algo de errado com a imagem de servitude per se, mas porque é um dos poucos cenários onde nós aparecemos, e nós sempre desempenhamos o papel de servos.

Não existe então prazer para o espectador asiático? A resposta para essa questão é extremamente complexa. Primeiramente não existe um espectador asiático básico. A raça de um espectador não diz nada sobre como a raça figura nos seus próprios desejos. representações raciais só de brancos na pornografia pode não apresentar problemas ao expressar os desejos de muitos homens asiáticos gays. Mas o problema não é simplesmente o fato de que a pornografia pode negar prazer para alguns homens asiáticos gay. Nós precisamos examinar em como o papel do prazer na pornografia atua em assegurar um consenso sobre raça e desejabilidade que no final acaba atuando em nossa desvantagem.

Apesar das sequências em que eu foquei em meus exemplos anteriores serem aqueles onde o discurso sobre a sexualidade do asiático é articulada, elas não definem a totalidade das representações nesses filmes. Muitas das vezes os atores meramente reproduzem ou tentam reproduzir as convenções pornográficas. O fato de que, com esceção de Sum Yung Mahn, eles raramente tem sucesso – por causa do seu tipo corporal, por causa do sotaque de cowboy do meio oeste com intonações vietnamitas serem um pouco incongruentes, porque os gemidos são um pouco demais –  e nada é mais comum do que a rigidez dos códigos de gênero. Existe uma pequena semelhança aqui. Existem momentos, no entanto, onde os atores não aparentam ser simulações de brancos, ou um outro simbólico. Existem vários momentos em International Skin, por exemplo, aonde o foco sai das genitais para as mãos acariciando os corpos, esses momentos me parecem mais “genuínos”. Eu não quero dizer que esse é a essência da sexualidade asiático, mas um momento capturado onde os atores param de fingir. Ele não para de atuar, mas ele para de fingir ser uma estrela pornô branca. Eu acabo me focando em momentos como esses, aonde a ideologia racista do texto aparenta se suspender temporariamente ou antes é eclipsada pelo poder erótico do momento.

Em Pornografia e a duplicata do sexo para mulheres (Sem tradução para o português), Joanna Russ escreve:

Sexo são mulheres extasiadas, autônomas e adoráveis. Sexo são mulheres violentas, perigosas e desagradáveis. Eu não quero uma dicotomia (i.e. dois tipos de mulher ou até mesmo dois tipos de sexo) mas um contínuo onde a experiência de ninguém é completamente positiva ou negativa.

Homens asiáticos gay são homens e consequentemente não comumente vítimas de estupro, incesto, ou outros tipos de assédios sexuais que Russ se refere. Mas, existe um tipo de duplicidade, de uma ambivalência, de como homens asiáticos vivenciam a comunidade norte americana contemporânea. O “ghetto”, o movimento gay central, pode ser um lugar de liberdade e de identificação sexual. Mas também um lugar de alienação racial, cultural e sexual algumas vezes mais pronunciada do que na sociedade heterossexual. Para mim sexo é uma fonte de prazer, mas também um espaço de humilhação e dor. Liberto das restrições sociais que o impede de expressar o seu racismo em público, a intimidade do sexo pode oferecer ao meu parceiro (não-asiático) uma abertura para que ele me mostre qual o meu lugar – algumas vezes até literalmente, quando depois de ejacular, ele se vira e pergunta de onde eu vim. A maioria dos asiáticos gays que eu conheço tiveram experiências similares.

Essa é só uma realidade que diferencia as experiências e também as prioridades de asiáticos gays e, eu imagino, outros homens racializados gays de outros homens brancos. Mas antes, nós não podemos sustentar uma abordagem libertária. A pornografia pode ser um agente ativo na representação e na reprodução do status quo racial. Nós não podemos atingir uma aliança saudável sem antes debater e encerrar essas diferenças.

A barreira que impede a pornografia de oferecer representações de homens asiáticos que são eroticamente e politicamente palatáveis (em oposição à correto) são as mesmas que inibem o documentário asiático, produções asiáticas e o cinema experimental asiático. Nós somos vistos como muito periféricos, comercialmente inviáveis – não para o público geral. Looking for Langston (1988), que foi o primeiro filme que eu vi que afrima ao invés de se apropriar da sexualidade do homem negro gay, foi produzido sob circunstâncias econômicas excepcionais que o libertou das corretes do mercado. Deveríamos então lutar por uma pornografia asiática gay independente? Talvez seja isso que eu queira, de uma maneira utópica, apesar de eu sentir que o problema das convenções na pornografia norte americana são variadas e vão além das questões de raça. Existe uma visão limitada do que constitui a erótica.

No Canada, a maioria dos debates sobre raça e representatividade mudou da enfase na imagem para a discussão sobre apropriação e controle de produção e distribuição – que é que produz o material. Mas como nós pudemos observar no caso de Asian Knights, a raça do produtor não é uma garantia automática da “consciência” desses problemas ou na produção de um produto diferente. Muito depende de quem é colocado como o público do filme. De qualquer maneira, não surpreende que dentro do capitalismo, encontrar o meu pênis é só uma questão de dólares e centavos.

Eu gostaria de agradecer Tim McCaskell e Helen Lee pela contínua crítica e comentário, assim como de Jegg Nunokawa e Douglas Crimp pelas suas inestimáveis sugestões de transformar essa apresentação oral em um texto escrito. Finalmente, eu gostaria de estender a minha gratidão ao Bad Object-Choices por me convidar a participar do “How Do I Look?”

Debate

Membro do platéia: Você comentou sobre a visível distinção entre a sexualidade de chineses e japonesas. Eu não entendi o que você quis dizer com isso.

Richard Fung: No ocidente, existem esteriótipos sexuais específicos associados para diferentes nacionalidades asiáticas, algumas vezes baseada em artefatos culturais, e em outras vezes são meras conjecturas. Esses discursos existem simultaneamente, mesmo que entrem em conflito, com noções gerais da sexualidade “oriental”. A sexualidade do homem japonês tem sido identificada como forte, viril, e talvez com um pouco de perversão, simbolizadas, por exemplo, pelas vestimentas e gestos em Bellow the Belt. A sexualidade japonesa é vista como mais “potente” que a sexualidade chinesa, que normalmente é representada como mais passiva e lânguida. Ao mesmo tempo, existe o clichê de que “todos os orientais são parecidos”. Então, é nesse paradoxo de invisibilidade de diferenças que reside  a fascinação. Se ele consegue verificar de onde eu sou, ele sente que sabe o que ele pode esperar de mim. Em resposta a esse questionamento de “origem étnica”, um amigo meu responde, “De onde você gostaria que eu fosse?”. Eu gosto dessa resposta porque ela gentilmente confronta o questionamento ao mesmo tempo que mantém as possibilidades eróticas do momento.

Simon WatneyEu gostaria de apontar que o primeiro filme que você apresentou, Bellow the Belt, nos apresenta com a clássica imagem do sonho de ansiedade. Nele existe alguém que se identifica como ativo, mas essa identidade é estabelecida em relação com um identidade concorrente que permite que ele sinta prazer na passividade sexual, que é representada com uma identidade racial. Seria como se ele estivesse fazendo um drag racial. Eu pensei que esse filme foi extraordinário. Sob que outras condições homens caucasianos são convidados para ter fantasias como outras raças? E me parece que a única condição que permitiria a visibilidade da fantasia existir dessa maneira seria a ansiedade sobre os papéis do desejo, sobre posições ativas e passivas. Esse filme é incrivelmente transparente e inconsciente sobre como ele constrói ou confunde papeis sexuais em relação com raça. E o impulso de tudo aparenta ser a construção do corpo asiático como uma conciliação com uma pseudo-heterossexualidade para o homem branco “ativo”, que tem tem uma inveja anal.

Fung: Eu concordo completamente com você. Esse filme fala muito sobre ele mesmo ao deixar a sua agenda racista tão óbvia.

Ray Navarro: Eu acho que a sua apresentação foi muito importante, e ela se conecta com a pesquisa que eu estou realizando sobre a imagem do homem latino na pornografia gay. Eu gostaria de saber se você poderia comentar um pouco mais sobre as relações de classe que você encontrou dentro desse tipo de trabalho. Por exemplo, eu encontrei um consistente tema dentro da pornografia branca gay onde homens latinos são representados ou como campesinos ou criminosos. Ou seja, ela focou menos no tipo de corpo, do que nos significantes de classe. Aparentemente parece que a fantasia de classe se colide com a fantasia de raça, e de certa maneira se compara com a verdadeira relação de poder existente entre os atores latinos e os produtores e distribuidores, que em sua maioria são brancos.

Fung: Existem algumas formas de como os seu comentário pode ser aplicado para asiáticos. Diferentemente de brancos e negros, a maioria dos asiáticos incluídos na erótica gay são jovens. E já que juventude geralmente implica menos poder econômico, a hierarquia de classe-raça aparece na maioria dos filmes. Nos vídeos que eu analisei, as profissões dos atores brancos normalmente são especificadas, enquanto que a dos asiáticos não. Os atores brancos recebem fantasias e apelos sexuais baseados em profissões, enquanto que para os asiáticos, o cache sexual sobre a raça já é considerada suficiente. Em Asian Knights existem sequências aonde a falta de “trabalho” dos personagens carrega a conotação de dona-de-casa, ou mais especificamente, criados.

Mas existe pelo menos uma ou outra maneira de olhar para essa discrepância. A falta de uma ocupação específica pode sugerir que o ator asiático é o objeto da fantasia, um substituto para o espectador asiático, e por isso não precisa ser codificado qualquer atributo específico.

Tom Waugh: Eu achei muito interessante a sua comparação de como o corpo asiático masculino é usado na pornografia gay branca de certa maneira  se assemelha como as lésbicas são caracterizadas na pornografia heterossexual. Você também sugere que marcas raciais na pornografia gay costuma prender os seus potenciais para a abertura e fluxo de identificações. Você acha que nós podemos levar mais adiante e dizer que os marcadores raciais na pornografia gay replicam, ou funcionam da mesma maneira, que marcadores de gênero na pornografia heterossexual?

Fung: O que, de fato, eu quis dizer com a minha comparação do uso de lésbicas na pornografia heterossexual e do uso dos corpos asiáticos masculinos dentro da pornografia gay branca é que elas são similares mas também muito diferentes. Eu acredito que certas comparações de gênero e raça são apropriadas, mas elas são profundamente diferentes. O fato de homens asiáticos gays serem homens significa que a nossa resposta, como espectadores, para esse filme será baseada em nosso gênero e na forma como gênero funciona na sociedade. Lésbicas são mulheres, com todas as implicações que isso determina. Eu penso que apesar da maioria dos homens asiáticos gays terem uma experiência ambivalente com a pornografia gay, as questões das mulheres em relação com a pornografia heterossexual são mais fundamentais.

Waugh: A mesma rigidez de papeis parecem estar presente na maioria das situações.

Fung: Sim isso é verdade. Se você perceber a maneira como o corpo asiático é descrito nos trabalhos de Rushton’s, os termos que ele usa são os mesmos usados para descrever mulheres. Mas é muito fácil descreditar esse argumento. Ao invés disso eu tenho tentado mostrar como as conclusões de Rushton se igualam com as pressuposições presentes em todos os espaços, desde a educação até o pensamento popular.

Membro da platéia: Eu vou fazer o advogado do diabo agora. Você não acredita que homens asiáticos gays que tem interesse em assistir pornografia gay envolvendo atores asiáticos irão se prender em uma pornografia não marcada racialmente que é produzida na Tailândia ou Japão? Se sua resposta for sim, então porque os produtores de pornografia gay deveriam se preocupar em produzir vídeos para agradar um público relativamente pequeno de asiáticos gays? Isso é sobre dinheiro. Aparentemente é óbvio que a indústria irá se centrar na fantasia do homem branco.

Fung: Referente ao último ponto eu concordo parcialmente. E é por isso que eu chamo por uma pornografia independente onde homens asiáticos gays são produtores, atores e o público alvo. Eu afirmo isso um pouco apático porque, pessoalmente, eu não estou muito interessado na produção de pornografia, apesar de eu querer continuar trabalhando com um material sexualmente explícito. Mas eu também sinto que ninguém pode assumir, como a indústria pornográfica aparentemente faz, que até mesmo o desejo de homens brancos é fixo e imutável.

Sobre a primeira parte do seu questionamento, no entanto, eu devo insistir que estados unidenses e canadenses com ascendência asiática são estados unidenses e canadenses. Eu mesmo sou um trinitário de quarta-geração e tenho apenas sutis relações com a cultura e estética chinesa, exceto com aquilo que eu conscientemente pesquisei e aprendi. Eu propositalmente resolvi não falar de produções japonesas e tailandesas porque elas vem de um contexto cultural que eu não estou apto para comentar. Além disso, o fato de que a pornografia desses países algumas vezes não tem marcações raciais não significa que ela dialoga com as minhas experiências e desejos, minha própria cultura ou sexualidade.

Isaac Julien: A respeito da representação racial ou significantes raciais em um contexto de pornografia, sua apresentação elabora uma problematização que vem de encontro com alguns dos vídeos sobre sexo seguro que foram apresentados anteriormente. Neles podemos ver um tipo de alegoria que traça um padrão circular – uma repetição que direciona o espectador negro e asiático para um domínio específico da fantasia.

Eu queria saber se você poderia falar um pouco mais do papel da fantasia, ou da fantasia vista nos vídeos pornográficos produzidos predominantemente por produtores brancos. Eu vejo mais a fixação de diferentes sujeitos negros em esteriótipos reconhecíveis do que em uma representação dialética das identidades negras, onde o número de opções ou posições dentro da fantasia estariam disponíveis.

Fung: O seu último filme, Looking for Langston, é um dos poucos filmes que eu conheço  que colocou a sexualidade do homem negro gay no centro da narrativa. Como eu disse antes, meu próprio trabalho, especificamente Chinese Characters (1986), está mais preocupado em retirar as alegorias que você aponta do que construir uma erótica alternativa. Ao mesmo tempo eu sinto que a última tarefa é urgente e eu espero que seja mais realizada. É nesse contexto que eu penso que o atual ataque ao National Endowment for Arts and arts funding nos Estados Unidos apoia o status quo racial. Se ela tiver sucesso, ela efetivamente irá esmagar a possibilidade da articulação de visões não-hegemônicas sobre a sexualidade.

Antes de eu sair de Toronto, eu participei de um evento chamado Cum Talk, organizado por duas pessoas do Gay Asians Toronto e da Khush, o grupo de lésbicas e gays sul asiáticos. Nós observamos a pornografia e discutimos sobre as imagens que as pessoas tinham de nós, o papel de “passivo” que nós somos constantemente elencados. Então nós falamos sobre o que realmente aconteceria quando nós fizéssemos sexo com homens brancos. O que ficou claro foi que nós não atuamos aqueles papéis e raramente pedem para que os façamos. Então existe uma discrepância entre a ideologia da sexualidade e sua prática, entre a representação sexual e a realidade sexual.

Greg Bordowitz: Quando Jean Carlomusto e eu começamos a trabalhar em um projeto pornográfico no Gay Men’s Health Crisis, nós tivemos grandes ideias para desafiar os diversos papéis e posicionamentos envolvendo a indústria dominante. Mas a medida que eu fui trabalhando mais com pornografia, eu percebi que não é uma área muito eficiente para realizar tais desafios. Existe um espaço para questionar as premissas, mas não existem muitas maneiras de desafiar os códigos da pornografia, exceto questionar as condições de produção, que foi um ponto importante levantado no final da sua fala. Me parece que a única maneira de retratar mais possibilidades é, novamente, criar grupos identitários, oferecer recursos para pessoas racializadas e lésbicas e outros grupos para que eles possam produzir a sua própria pornografia.

Fung: Eu concordo parcialmente com você, porque eu acho, até onde é possível, que nós temos que tomar responsabilidade pelo tipo de imagem que criamos, ou re-criamos, Asian Knights teve um produtor chinês, apesar de tudo. Mas, sim, com certeza, o ponto crucial é ativar mais vozes, que irá estabelecer as condições para que algo diferente aconteça. A resposta liberal para o racismo é que nós precisamos nos integrar – todas as pessoas deveriam ser de uma única cor, ou todos deveriam fazer sexo com todos. Mas tal narrativa não leva em conta as especificidades dos nossos desejos. Eu vi pouca pornografia produzidas dentro dessa mentalidade integracionista que realmente afirme o meu desejo. É fácil encontrar a minha fantasia ser apropriada para o prazer dos espectadores brancos. Dessa maneira, a pornografia é mais útil para revelar as relações de poder.

José Arroyo: Você tem falado criticamente sobre um determinado tipo da imagética colonial. O filme de Isaac, Looking for Langston contêm não somente uma desconstrução desse imagética na sua crítica das fotografias de Mapplethorpe, mas também uma nova construção do desejo negro. Que tipo de estratégias você observa para uma reconstrução similar da imagética erótica do asiático?

FungUma das primeiras coisas que precisa ser feita é estabelecer os asiáticos como público alvo. Meu primeiro filme, Orientations (1984), tinha isso como objetivo primário. Eu pensei em asiáticos como sujeitos sexuais, mas também como o público para qual o filme foi concebido. Muitos de nós, seja assistindo noticiários ou pornografia ou olhando para propagandas, vemos que a imagem ou mensagem não está sendo direcionada para nós. Por exemplo, o sexismo e heterossexismo das atitudes de um DJ se tornam óbvias quando ele ou ela dizem: “Quando você e sua namorada saem de noite…” Mesmo que ele almeje se direcionar ao público geral, fica claro que ficou presumido que não há nenhuma mulher no público (sem mencionar lésbicas). O público geral, como eu o analiso, é branco, homem, heterossexual, de classe média, e politicamente de centro-direita. Então temos que entender esses pressupostos primeiro, para ver que somente pessoas específicas estão sendo contempladas.

Quando eu faço os meus filmes, eu sei que eu estou me direcionando a asiáticos. Isso significa que eu posso deduzir alguns pontos como garantidos e introduzir outras coisas em um contexto completamente diferente. Mas existem outras questões sobre o público. Quando produzimos filmes direcionados para a comunidade hétero – o “público geral” – em um esforço de tornar os problemas de lésbicas e gays visíveis, nós normalmente sacrificamos muitas das temáticas que são importantes sobre como nós expressamos a nossa sexualidade: drag, problemas sobre promiscuidade, e assim por diante. Mas quando eu faço um vídeo para o público gay, eu conversei sobre os mesmos problemas de maneira diferente. Para começar, eu falo desses problemas. E eu tento apresentá-los de uma maneira diferente da apresentada pela grande mídia. Em Orientations eu tive um rapaz falando sobre o sexo público em parques e banheiros – sobre ser promíscuo, basicamente –  no meio de um parque ao meio dia na frente de luzes. Ele falou bastante abertamente sobre isso, e falo isso só para apontar uma das muitas possibilidades de como isso pode ser feito.

Eu penso, no entanto, que conversar sobre o desejo de asiáticos gays é muito difícil, porque nós precisamos nadar através de muita lama para poder alcançá-la. É muito difícil (e até mesmo desejável) fazer isso de maneira puramente positiva, e eu acho que é necessário fazer muita desconstrução ao longo do caminho. Eu não tenho estratégias prontas; eu acho que é um projeto de tentativa e erro.

Lei Chou: Eu gostaria novamente de trazer o problema de classe. Um dos esteriótipos do asiático gay que você mencionou é o do criado. A realidade é que muitas dessas pessoas são imigrantes: O inglês é a sua segunda língua, e eles são economicamente marginalizados por estarem socialmente e culturalmente deslocados. Então quando você fala de encontrar o pênis asiático na pornografia, como esse projeto irá trabalhar para esses indivíduos. Já que a pornografia é praticamente branca e de classe média, que tipo de ferramenta ela é? Quem realmente é o público alvo?

Fung: Se eu entendi corretamente a sua questão, você está perguntando sobre os prognósticos para uma nova e diferente representação dentro da pornografia comercial. E eu acho que esse prognóstico não é muito bom: mudanças irão provavelmente acontecer muito lentamente. Ao mesmo tempo, eu acho que a pornografia é um campo especialmente importante de luta para os asiáticos que, como você colocou, são economicamente e socialmente colocados em desvantagem. Para aqueles que são mais isolados, seja em famílias ou áreas rurais, pornografia impressa é normalmente a primeira introdução para a sexualidade gay – antes, por exemplo, do que a imprensa gay e lésbicas ou de grupos de apoio para asiáticos gays. Mas essa pornografia oferece mensagens mistas: ela afirma a identidade gay praticamente exclusivamente branca. Gostemos ou não disso, a pornografia gay dominante está mais disponível para a maioria dos homens asiáticos gays do que trabalhos independentes que eu ou você possamos produzir. É por isso que a pornografia é um dos temas que mais me interessam.

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Texto original (Em inglês): Looking for My Penis: The Eroticized Asian in Gay Video Porn 

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