A cultura Tongzhi

Tradução do texto de Rachel Leng originalmente postado no Huffington Post.

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Em um restaurante de Beijing, eu me sentei para almoçar com dois homens e duas mulheres que estavam casados por mais de três anos. Todos os quatro são tongzhi em “casamentos falsos” (形婚 xinghun) onde homens gays se casam com lésbicas somente para as aparências públicas e familiares.

Kevin (todos os nomes foram alterados), 29, e Paul, 35, se encontraram em 2005 e namoram por mais de três anos antes de sucumbirem a pressão familiar e se casarem. Paul postou uma mensagem online em um fórum de gays e lésbicas, chamando por “noivas falsas”. Muitos casais lésbicos responderam, e depois de se encontrar com elas, ele decidiu que Nancy, 26, e Anna, 28, seriam um par perfeito. Por cinco meses, eles foram em múltiplos encontros duplos e aprenderam sobre a personalidade e os hábitos de cada um. Então eles se organizaram para o casamento: Kevin e Nancy, Paul e Anna.

Ao entrar em um casamento falso heterossexual, os quatro acreditavam que poderiam aliviar a pressão familiar e diminuir a suspeita pública sobre a sua homossexualidade, mas continuando secretamente os seus relacionamentos homossexuais. Eles vivem com os seus parceiros verdadeiros, mas se encontram com os seus parceiros legais uma vez ao mês para se encontrar com familiares em suas respectivas cidades natais. Para eles, isso é uma benção, já que isso torna menos provável que os parentes façam qualquer tipo de visita surpresa.

Não obstante, sofrendo o risco de ter o seu esquema exposto, os casais revelam os seus desencantamentos. Eles reclamam de ter que continuamente mentir sobre a sua “vida casada feliz” para amigos, familiares, e colegas, sobre o desencantamento deles com o casamento heterossexual, e a frustração de não poder legalmente viverem juntos como casal homo-afetivo. Em poucas palavras, eles guardam um rancor de que uma sociedade chinesa intolerante os pressionaram dentro de um casamento heterossexual indesejado.

Em vista do preconceito contra homossexuais na China contemporânea, pode parecer uma surpresa de que relações homo-afetivas eram comuns na China imperial. Uma grande quantidade de documentos históricos revelam que práticas homo-afetivas eram aceitas como parte da hierarquia social no clássico patriarcal chinês, onde homens privilegiados dominavam os seus inferiores, tais como suas esposas, concubinas e servos. Foi somente com a fundação da República Popular da China em 1949 que o partido comunista tentou erradicar todas as relações extra-matrimoniais, estabelecendo uma família nuclear como a base do socialismo.

O estado chinês via os comportamentos não-heteronormativos, especialmente os comportamentos sexuais, como ameaças à autoridade moral. Dessa maneira, a homossexualidade foi patologizada e criminalizada sob a lei de “vandalismo” (流氓罪  liumangzui) no Código Penal Oficial de 1957. Apesar dos números ainda serem incertos, pesquisadores estimam que mais de 70.000 pessoas, a maioria homens, suspeitas de serem homossexuais foram presas sob a acusação de “vandalismo” e enviados para prisões, campos de trabalho, terapias de eletrochoque, ou executados durante os três primeiros meses de Campanha de Repressão Dura (严打 yanda) em 1983.

Nas últimas décadas apresentaram melhoramentos legais: em 1997, a lei de “vandalismo” foi abolida; em 2001, a homossexualidade foi removida da lista nacional de transtornos mentais. No entanto, o casamento e a união civil homo-afetiva não tem nenhuma base legal, e a discriminação contra homossexuais ainda é muito difundido.

Muitos chineses homossexuais permanecem dentro do armário durante toda a sua vida, mantendo um casamento heterossexual e tendo filhos. Esse fenômeno tem sido tão comum que esposas de homens gays são chamadas de “esposas gays” (同妻 tongqi) na linguagem coloquial, e sociólogos estimam que existem mais de 16 milhões delas na China.

“Eu não tenho nenhuma vontade de tornar pública as minhas inclinações gays” disse Paul. “Eu já vi outras pessoas sofrerem discriminação de colegas e empregadores por serem homossexuais, e eu não quero sofrer esse risco. Eu escutei histórias ruins sobre pessoas presas ou espancadas pela polícia, assediadas, e isso também me impede (de sair do armário)”.

Assim como muitos assuntos politicamente sensíveis, muitas das palavras usadas para falar sobre o tema carregam um duplo sentido. Tongzhi (同志) pode ser traduzido literalmente como “mesma vontade”, mas significa “camarada”, e também é uma gíria para se referir a homossexuais. O termo foi usado pela primeira vez na China imperial para se referir a pessoas que compartilhavam da mesma ética ou ideais. Ela ganhou conotações políticas quando Sun Yat-Sen, conhecido como fundador da China, usou essa etiqueta em uma famosa citação em seu leito de morte chamando para que seus seguidores continuassem a revolução para acabar com a ditadura imperial. Quando o Partido Comunista ganhou o poder, eles se apropriaram do termo tongzhi como um modo comum que os revolucionários usavam para se referir um ao outro, independente de classe, gênero, ou outra marca socioeconômica. Durante esse período, tongzhi se tornou um equivalente ao termo soviético, evocando um ideal socialista de igualdade social.

Em 1989, os organizadores do primeiro Festival de Cinema Gay e Lésbico de Hong Kong se apropriaram do termo tongzhi como uma referência ao desejo homossexual. Esse uso ganhou popularidade e logo se espalhou para Taiwan e para a China continental; tongzhi era considerado um termo de gênero neutro, dessexualizado, e culturalmente compatível livre dos estigmas da homossexualidade na sociedade chinesa.

Na China, a apropriação de um dos mais respeitáveis títulos da ideologia comunista forneceu para os chineses homossexuais a habilidade de minar a censura e a repressão governamental. Tongzhi estabeleceu uma identidade social local única, baseada na história política e cultural da China. Tongzhi é hoje mais comumente associada à homossexualidade. Todavia, o termo ainda ressoa as intenções revolucionárias de uma sociedade igualitária, e é comumente usado pela media estatal para se referir a membros do Partido Comunista. O duplo significado de Tongzhi destava que enquanto o termo pode especificamente se referir a comunidade homossexual, ela também pode se referir a toda a população chinesa.

“Casamentos falsos” oferecem a tongzhi um meio termo: ao se casarem, gays e lésbicas podem cumprir superficialmente os requerimentos para um casamento heterossexual, e continuar com seus relacionamentos homossexuais. Hoje, é comum encontrar sites de “casamentos falsos” como o ChinaGayLes.com que une gays e lésbicas.

Para encontrar um bom par, os tongzhi listam informações sobre as suas localizações, emprego e/ou situação financeira, atual status de relacionamento (se eles estão ou não em um relacionamento de longo prazo), e se eles esperam ter filhos ou não. Todavia, a realidade aonde muitos tongzhi chineses tem que recorrer a tais conceitos para poderem esconder a sua homossexualidade levanta problemas importantes para serem discutidos a respeito dos direitos sexuais e humanos na China.

“Existe muita pressão para que pessoas se casem e tenham crianças que é difícil e até vergonhoso pensar em se assumir publicamente”, aponta Paul. “Mesmo que eu não me importe de pessoas olharem com desdém para mim, e mesmo que meus pais eventualmente aceitem a minha homossexualidade porque eles me amam, pessoas irão tirar sarro deles. Eu não posso forçar meus pais a esse tipo de vergonha… Mesmo que um casamento falso seja apenas uma solução imperfeita e temporária, ainda é melhor do que sair do armário”.

Interessantemente, os principais militantes em iniciativas pró-gay são normalmente pais de pessoas gays ou estudantes universitários heterossexuais, e não os próprios homossexuais. Em 2003, a Universidade Fudan de Shanghai ofereceu o primeiro curso de graduação da China sobre estudos gays, e foi extremamente popular e teve um número enorme de participantes. Uma filial chinesa dos Pais e Amigos de Lésbicas e Gays (PFLAG) foi estabelecida em 2007 e tem se mantido ativa na luta pela liberdade sexual de indivíduos LGBT.

Diversas publicações gays tem surgido assim como estabelecimentos orientados ao público gay, como restaurantes e lojas, aumentando a visibilidade de tongzhi na sociedade e cultura popular chinesa. Nos últimos anos, o concurso de Mr. Gay China e o festival anual de filmes tongzhi tem atraído uma atenção generalizada por toda a sociedade chinesa contemporânea, em particular entre os jovens.

Em junho de 2012, o quarto festival anual do orgulho LGBT de Shanghai foi elogiado em um editorial do China Daily, um jornal estatal, como uma “apresentação do progresso social do país”. Apesar de locais e eventos com temática gay ainda são constantemente fechados pelas autoridades, o festival do orgulho de Shanghai tem tido sucesso na conscientização sobre a comunidade homossexual chinesa. Muitos dos tongzhi locais não participam desses eventos de orgulho gay. O festival é majoritariamente formado por estrangeiros residentes em Shanghai e estudantes universitários.

“Eu ouvi falar que é um grande evento” disse Kevin, se referindo ao festival do orgulho de Shanghai, antes de lamentar que é “muito arriscado expor a minha homossexualidade. Mesmo se eu participasse e dissesse que eu sou um hétero lutando pelos direitos LGBT, eu acho que pessoas irão suspeitar”.

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A cobertura intensa dos debates sobre o casamento homo-afetivo nos Estados Unidos tem afetado a iniciativa pró-casamento gay na China, mas normalmente é a linguagem dos direitos humanos universais que é invocada no movimento dos direitos LGBT. Li Yinhe, uma renomada socióloga e sexóloga, tem sido uma porta voz para a legalização do casamento homo-afetivo, propondo diversas resoluções para retificar as leis matrimoniais durantes as seções do Congresso Nacional do Povo em 2000, 2003, 2005, 2006 e 2008. Essas propostas recorrem à Declaração de Direitos Humanos das Nações Unidas e no artigo 33 da constituição da República Popular da China, que estipula que “Todos os cidadãos da República Popular da China são iguais perante a lei” e que “o estado respeita e protege a igualdade humana”.

Em 2012, Li lançou uma influente campanha enfatizando como o governo chinês deveria utilizar do reconhecimento do casamento homo-afetivo como prova dos seus esforços em proteger os direitos humanos, ganhando vantagem contra os Estados Unidos. O principal slogan da campanha apontava que “proibir o casamento homo-afetivo viola o princípio constitucional de igualidade”.

Em fevereiro de 2013, mais de 100 pais de tongzhi assinaram uma carta pedindo a legalização do casamento homo-afetivo na China quando duas lésbicas foram tratadas de maneira hostil por um funcionário do governo quando tentaram submeter um pedido de casamento em Guangzhou. A carta, que foi postada na internet, apelava para as morais ao lançar um apelo para a aceitação de chineses gays dentro dos termos dos direitos humanos.

Uma pesquisa realizada pelo portal Sina.com mostra que a maioria das 71.000 respostas são a favor de retificar a lei matrimonial chinesa para que o casamento homo-afetivo seja permitido. Apesar da maioria dos usuários da internet chinesa serem mais jovens, com maior educação, e por isso mais liberais que o resto da população, as opiniões refletidas nessa pesquisa refletem uma tendencia social emergente de apoio aos direitos dos tongzhi na China.

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Nancy expressou um grande otimismo sobre o futuro dos direitos gays. “Eu acredito que com o rápido desenvolvimento socioeconômico da China… a homossexualidade se tornará aceitável na sociedade, especialmente já que o ocidente está progressivamente aceitando o amor entre duas pessoas do mesmo sexo”.

Em um ambiente que marginaliza – e as vezes violenta – todos os comportamentos não-hetero-normativos, a mobilização do apoio heterossexual pelos direitos gays na China tem sido um veículo inesperado para canalizar descontentamentos sobre os direitos civis e políticos na China. Essa tendência de jovens heterossexuais envolvidos no movimento tongzhi tornou-se tão comum que foram cunhados termos como zhi tongzhi (直同志) ou “tongzhi héteros”.

“Todos os tongzhi perceberam que, de alguma forma, está no governo a razão pela qual o amor homossexual não é aceito na sociedade. Será muito progressivo se o estado chinês aceitar a homossexualidade, e eles não perderam muito poder político” disse Nancy. “É provavelmente só uma questão de tempo. Será com certeza uma grande conquista, não só para homossexuais mas para todos os ativistas que esperam instigar uma mudança e mais liberdade dentro do governo comunista. Isso será um grande passo positivo”.

Nas sociedades, assim como nas psiquês, o que é oprimido será eventualmente revelado e manifesto de formas altamente visíveis. Acadêmicos apontam que as descrições de mudanças sociais na China geralmente são associadas com a metáfora da revolução. Gary Sigley, um estudioso sobre a cultura e políticas da China contemporânea, aponta que “A China está em processo de uma nova e moderna revolução, na forma de uma tardia ‘revolução sexual'”.

Desa maneira, a revolução tongzhi representa “um momento onde cidadãos chineses, especialmente as gerações mais novas, abraçam os costumes sexuais ‘progressivos’ da modernidade”. Na introdução do Relatório do Estado da Liberdade Sexual da Aliança pela Liberdade Sexual de Woodhull, Barnaby B. Barratt revela  que a liberalização política implica em uma melhoria da autonomia política dos cidadãos, e dessa maneira a liberalização sexual pressupõe que indivíduos irão ganhar uma visão mais ampla das condutas sexuais em suas vidas de acordo com seus desejos pessoais. As políticas da revolução sexual chinesa vão além das quatro paredes de um quarto.

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Matéria original (Em inglês): Tongzhi Culture

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