Gay na “Terra da Felicidade”, Butão

Tradução do texto de Passang Dorji originalmente postado no Pink Pages.

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No Butão, as seções 213 e 214 do Código Penal afirmam que a homossexualidade é contra a natureza e punível. Isso reforça a visão popular de que a homossexualidade é errada, apesar de que aparentemente ninguém é penalizado ou punido sob essas leis antiquadas.

O movimento LGBT butanês começou efetivamente no dia 19 de dezembro de 2008 quando um jornal popular, o The Bhutan Observer, lançou uma matéria intitulada “Quão gays são os butaneses gays?”, e no mesmo ano uma proeminente personalidade trans, Dechen Seldon, saiu do armário. Antes disso, o Ministério da Saúde tentou tentou alcançar a comunidade sob o Programa Nacional de Controle de HIV/AIDS (NACP). Porém, o Butão ainda não tem dados suficientes sobre as necessidades e experiências dessa população em questão.

Geralmente, o foco tem recaído sobre a prevenção do HIV, que pode ter um inesperado resultado negativo ao relacionar pessoas que se identificam como LGBT com HIV, potencialmente aumentando o estigma, medo e discriminação. Infelizmente, os poucos estudos que foram feitos até hoje também descobriram que é difícil recrutar para a pesquisa HSH (Homens que fazem sexo com outros homens), transgêneros e usuários de drogas. No entanto, Lhaksam – a rede de Pessoas vivendo com HIV no Butão – tem estabelecido uma rede informal e eles estão trabalhando em prol de um objetivos comuns de união e a busca pela felicidade. Em dezembro de 2014 a Lhaksam lançou a primeira brochura informativa LGBT do país.

Eu nasci em um típico vilarejo semi-tibetano onde fui ensinado os valores budistas. A religião era a única e dominante guia moral das nossas vidas. Não se falava abertamente sobre a homossexualidade, mas as pessoas sussurravam sobre “phone mole”, “phulu mulu” – o termo local para pessoas intersexuais.  Nos meus anos de adolescência nas escolas locais eu me tornei muito confuso sobre a minha orientação sexual. Enquanto outros meninos estavam conversando sobre namoradas, eu tinha medo de debater a minha confusão sexual até eu entrar na faculdade. Eu sai do armário e comecei a falar da minha sexualidade quando iniciei meus estudos na Faculdade de Enfermaria e Saúde Pública da Universidade de Ciências Médicas, em Thimphu.

Crescer como um menino gay no Butão foi difícil e desafiados. Não tive nenhum amigo gay para confraternizar, e compartilhar os meus sentimentos. Eu estava profundamente deprimido, e em alguns momentos pensei em me matar. Conforme fui crescendo, eu encontrei “amigos” apenas de noite, mas eles eram meros parceiros sexuais. Muitos deles se identificavam como heterossexuais, e eu tinha medo de que eles iriam me machucar se eu dissesse para alguém que eles fizeram sexo comigo. Algumas vezes, eu fui assediado sexualmente, mas naquela época não era algo que eu podia falar para outras pessoas. Eu me lembro de dias que eu fiz sexo em hotels, albergues estudantis, dentro de carros e em outros lugares onde meus parceiros e amigos gays imaginavam ser seguro. Foi a maneira que eu vivi a minha sexualidade, e eu não sabia de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e não tinha conhecimento de como usar camisinhas, lubrificantes e brinquedos sexuais.

Apesar de nós não termos dados que provem, é sensato assumir que homens gays no Butão são mais vulneráveis à IST e HIV do que outros grupos da população. Em vários momentos meus amigos gays me ligaram dizendo que eles tinham IST e perguntando onde eles poderiam procurar ajuda sem serem discriminados ou estigmatizados. Apesar de eu dizer “amigos gays”, muitos deles se identificam como bissexuais, onde pode existir a infecção de e para parceiros heterossexuais.

Foi em 2011, quando eu estava para me formar na Faculdade de Enfermaria e Saúde Pública em Thimphu, que eu procurei a ajuda de um psiquiatra, recebi aconselhamento sobre as minhas crenças e comportamentos, e comecei a minha nova vida com dignidade. Tandin foi o meu primeiro “irmão”, e isso mudou como eu via a minha própria vida. Ele me ensinou como me aceitar, e o amor que ele demonstrou para mim foi inesquecível. As memórias de como eu me encontrei com ele pela primeira vez no Memorial Chorten ecoa na minha mente, e me lembra de como viver melhor.

Depois que me formei e me tornei financeiramente independente, eu decidi descobrir qual seria a reação dos meus amigos com a minha “saída do armário”. Eu perguntei para um amigo meu “o que você faria se um amigo seu fosse gay?” Ela disse “Eu o aceitaria de braços abertos”. Essa foi uma resposta incrível e inesperada, e ela me abraçou quando eu confessei ser gay. Depois eu comecei a me abrir para os profissionais da saúde mais amigáveis que eu conhecia, porém eu me limitei somente para os que eu imaginava serem não-homofóbicos.

Em 2013 eu fui transferido para um distrito do sul do Butão – Samtse – e tive menos amigos e oportunidades limitadas de encontrar meus amigos de Thimphu mais “receptivos para gays”. Porém, eu fiz novos amigos em West Bengal e Sikkim durante as minhas férias.

O ano de 2015 foi uma benção para mim. Com o apoio da Lhaksam, eu fui enviado para uma viagem de estudos no Nepal. No Nepal eu fiz inúmeros amigos LGBT que estavam trabalhando na Blue Diamond Society, e eles foram muito acolhedores, encorajadores e cheios de vida. E também fui entrevistado pelo Ujalo Network, um programa de rádio FM dirigido pela Blue Diamond Society.

12596245_1017213621675697_469273963_n-338x600Ao voltar para a minha terra natal, eu decidi quebrar o longo silêncio e fazer com as pessoas saibam que existem gays no Butão. Eu saí do armário para a minha mãe. É triste que ela continue a pensar como a grande maioria que eu precisava dar continuidade para a linhagem familiar. Foi no dia 11 de março de 2015, ainda com medo, temeroso e suando, que eu fui ao Ministério da Saúde, NACP, para anunciar que eu estaria saindo do armário em rede nacional. Eu me sentia apoiado, e foi às 19h que eu saí do armário durante uma entrevista em um show popular da Bhutan Broadcasting Service. No dia seguinte eu fui entrevistado por Kuensel, e outras pessoas começaram a falar sobre gays no Butão – foi realmente a quebra do silêncio!

Não foi uma tarefa fácil. Eu sempre sonhei em me assumir mas eu me sentia despreparado e que sofreria discriminação posteriormente. Levei quase um ano para pensar e planejar. Sair do armário pode acontecer logo que alguém aceita a sua orientação sexual, ou pode levar muitos, muitos anos para alguns, e pode nunca acontecer para outros. É uma escolha pessoal, e não algo compulsório. Se eles estão felizes dentro do armário e isso é como eles vivem – perfeito, mas eu nunca estive feliz dentro do armário. A vontade de contar para os outros estava me queimando todas as noites. Depois de me assumir eu recebi ligações de muitos amigos butaneses e do exterior. Páginas do facebook me citavam e escreviam sobre mim. Uma das coisas que mais me tocou foi quando um de meus amigos próximos me escreveu “eu te invejo, você conseguiu e eu queria poder conseguir também, orgulho de você”.

Para o público geral parecia que eu estava sendo aceito e recebendo tolerância, mas as pessoas ainda sussurravam pelas minhas costas. Elas vão olhar uma para a outra depois que eu passo e irão falar sobre mim. Alguns de meus amigos ficam com medo de andar comigo ou me acompanhar em restaurantes ou bares. É fato que muitos butaneses acreditam que ser homossexual é algo “natural”, apesar do nível de aceitação ser mais alto comparado com outros países já que butaneses são comumente pessoas empáticas. As pessoas podem até te aceitar e te tolerar, desde que você não seja os filhos e filhas deles.

Apesar de todos os nossos sucesso no Butão, a maioria das pessoas LGBT ainda estão escondidas e sofrendo em silêncio sozinhas: “Eu sou gay dentro das quatros paredes do meu quarto, mas para o mundo eu sou um ‘homem'”. O que eu popsso dizer? Nossas irmãs trans tem muito o que contar sobre como elas são tratadas. Por exemplo, em um simpósio conduzido recentemente pelo Ministério da Saúde em Thimphu elas falaram de funcionários da saúde que não respeitavam a privacidade delas. Alguns professores e autoridades escolares disseram para um jovem gay que sofreu bullying e foi empurrado para dentro do banheiro feminino que era a culpa dele por agir de maneira “afeminada”.

Butão é um país budista onde a diversidade sexual não é debatida e atividades sexuais são consideradas “pecados”. Porém, eu gostaria aqui de citar a sua santidade Dzongsar Khentse Rinpoche no que diz respeito a comunidade LGBT. O Rinpoche disse: “sua orientação sexual não tem nenhuma relação com o seu entendimento da verdade ou não, você pode ser gay, lésbica, ou hétero, mas nós nunca iremos saber que alcançará a iluminação primeiro”. Budismo é sobre causa e efeito. Portanto, se nós semearmos o bem nós receberemos resultados melhores e continuaremos a acumular um carma bom. O budismo nos ensina a sermos gentis, compassivos, ponderados e conscientes para que assim não criemos carma ruim.

Pessoas LGBT normalmente não tem visibilidade, e nossas vozes não são escutadas nem pelas nossas famílias. Eu gostaria de ver mais butaneses LGBT sendo vocalizados, para que outros possam ouvir as nossos histórias, nossos medos, nossas preocupações, e também as nossas alegrias e nossos sonhos de um futuro feliz com todos vivendo em uma entusiástica e inclusiva Terra da Felicidade.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Gay in the Land of Happiness, Bhutan

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