Resistência e Subversão: Considerações finais sobre os movimentos queer pela Ásia – uma perspectiva comparativa entre Cingapura, Cazaquistão e Líbano

Texto de Ismail Shogo originalmente postado no Queer Asia.

Tradução: Henrique Ikeda.

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Observando movimentos queer em três partes distintas da Ásia – Cingapura, Cazaquistão e Líbano – esta série buscou desvelar as principais tendências no estudo comparativo da resistência LGBTQ+ na Ásia. Indo contra a narrativa ocidental sobre resistência queer que frequentemente se manifesta como paradas de orgulho arrojadas, os movimentos queer na Ásia permanecem diversos e colocados em cenários específico, frequentemente implicando em um produto de forças nacionais únicas que buscam preservar ou romper com as estruturas heteronormativas de poder.

Criando Resistência, Moldando Subversão

No Líbano, onde a sociedade civil conservou um certo grau de flexibilidade, organizações não-governamentais, incluindo várias associações pró-LGBTQ+, têm permeado o espaço social. Isto resultou na orquestração da primeira parada do orgulho no mundo árabe em Beirute. Indo contra as pressões de conservadores muçulmanos, contudo, os movimentos civis queer no Líbano buscaram remapear a agenda LGBTQ+ mesclando-a com outras correntes políticas, como os direitos dos refugiados, bem como a marginalização da Palestina feita por Israel. Ao contrário do Líbano, entretanto, o Cazaquistão ainda luta para gerar uma resistência LGBTQ+ articulada que se amplie para além de conjuntos independentes – um problema que Shaikezhanov atribuiu a fortes tabus sobre sexo, bem como à transfobia e à homofobia internalizada que causou um racha na comunidade LGBTQ+ cazaque.

Inversamente, em Cingapura, na contra-mão de leis inflexíveis e também da reação hostil vinda de conservadores religiosos, a resistência LGBTQ+ foi obrigada a assumir meios menos conflituosos. Isto ocasionou um certo grau de criatividade de manobra na reivindicação de espaço público e visibilidade. Como Thng traz em primeiro plano, o ativismo em Cingapura se manifestou tanto por vários meios não conflituosos, incluindo festivais de arte, slams (competições de leitura e performance poética) como por cartazes ostensivamente inofensivos.

Olhando Para Além das Fronteiras

A dinâmica entre resistência e contra-resistência, contudo, não pode ser delineada apenas com as fronteiras nacionais. Como Shaikezhanov destaca, facções conservadoras de dentro da liderança cazaque se apropriaram da retórica anti-queer da Rússia para defender a preservação do status quo heteronormativo do próprio Cazaquistão. Em outros lugares, porém, num surpreendente jujitsu de poder, grupos pró-LGBT aprenderam a aproveitar correntes transnacionais para amplificar o âmbito de suas causas. Em um dos casos, a ONG libanesa HELEM se tornou uma força potente em formar a opinião e a política LGBTQ+ em outras partes do Oriente Médio, alcançando até a Tunísia. Além disso, o grupo também estabeleceu contatos pelo mundo árabe – incluindo a devastada Síria – num esforço combinado para manter a responsabilidade das questões LGBTQ+ onde as redes locais não conseguem de outra forma. Isto nos leva a perceber, desta forma, a influência de correntes transnacionais (e transcontinentais) que não podem ser ignoradas quando deciframos como o discurso e a resistência queer se manifesta na Ásia.

Conclusão

Nos três casos, os movimentos sociais queer convergem para destacar um ponto vital – a engenhosidade humana. Seja através do não-embate (Cingapura), conjuntos independentes (Cazaquistão), ou remapeamento dos objetivos (Líbano), os movimentos de resistência nasceram da imaginação criativa na criação de estratégias convenientes – cada uma adaptada aos vários contextos nacionais – para subverter o status quo heteronormativo. No ponto em comum destes movimentos, portanto, uma força potente é revelada, o poder das ideias, que assim sendo não podem ser subestimadas na formação da resistência LGBTQ+ na região.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Resistance and Subversion: Queer movements across Asia concluding remarks – a comparative outlook of Singapore, Kazakhstan, and Lebanon.

Resistência e subversão: Movimentos Queer pela Ásia – Líbano

Resistência e subversão: Movimentos Queer pela Ásia – Cazaquistão

Resistência e subversão: movimentos queer pela Ásia – Singapura

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