“Além da fronteira” explora o relacionamento gay entre um israelita e um palestino

Tradução do texto de Christine Jun originalmente postado no The Vice.

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O primeiro longa metragem de Michael Mayer tem sido chamado de o “Brokeback Mountain” do cinema israelita. Que não é uma comparação muito incorreta, já que fala sobre dois homens tendo um romântico relacionamento sexual em um ambiente onde tipicamente não se espera que dois homens tenham um romântico relacionamento sexual.

Mas, “Além das Fronteiras” (Out in the Dark, no título original) – uma história de um estudante palestino chamado Nimer e seu amante israelita Roy – é mais uma Persepolis gay do que um drama da Disney do Brokeback. Situado dentro das relações Israel-Palestinas – historicamente, não uma das melhores relações – ele explora o estigma de ser gay, relações entre dois homens de religiões diferentes e do que podemos afirmar como as duas nações mais opostas do mundo.

Eu entrei em contato com Michael para conversar sobre o filme, como é ser gay e palestino, e a corrupção da polícia israelense.

VICE: Olá, Michael. O que te inspirou a escrever e dirigir esta história?

Michael Mayer: Eu me encontrei com um amigo para jantar que estava se voluntariando em um centro de gays e lésbicas em Tel Aviv, e ele me disse sobre o apoio que eles ofereciam ara palestinos se esconderem ilegalmente. Antes de mais nada, eu não sabia sobre isso. Nós escolhemos contar essas histórias de maneira muito íntima, sobre pessoas que não são envolvidas politicamente até que elas são forçadas a confrontar e tomar posicionamentos e ações. Eles tentam flutuar acima disso, como muitas pessoas em Israel faz, devido a exaustão de ter que lidar com o conflito por anos. Eu me tornei mais politicamente consciente durante o processo da produção do filme.

Foi a sua intenção tornar mais pessoas politicamente conscientes, ou você simplesmente só queria contar uma boa história?

A minha primeira prioridade era o impacto emocional. Assumir que o filme irá realmente criar uma mudança é muito pomposo. Mesmo que uma pessoa volte para casa depois do filme, e procure no google sobre “palestinos gays” e leia um artigo, já é mais do que eu poderia pedir.

A resposta do público em Israel foi diferente da resposta do público em outros países?

Sim. As reações em casa foram surpreendentemente acolhedoras para um filme de nicho. Alguns israelitas de esquerda acreditam que eu não coloquei o pacote político o suficiente. Mas o filme foi exibido em Israel em 18 cinemas, o que foi uma grande surpresa para mim por se tratar de um filme de temática gay. Lógico que ele foi melhor recebido em Tel Aviv. Mas, isso se deu também por causa do sucesso internacional do filme. Ele fez com que o público israelense ficasse curioso.

Algum Palestino foi para alguma das exibições em Irael?

Houve uma boa participação de palestinos, sim. O filme provavelmente não será exibido em território palestino já que não existe nenhum cinema em Ramallah no momento. Mas, algumas pessoas estavam tentando organizar uma exibição palestina em algum espaço público, como uma universidade, mas isso ainda não aconteceu.

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Michael Meyer (Esq) no set de filmagem

Você teve alguma reação negativa?

Durante a seleção de elenco, havia uma atriz palestina que se recusou a participar da seleção porque ela sentiu que o roteiro não retratava a Palestina de maneira positiva. Foi engraçado, porque dois dias antes eu tive um ator israelita que jogou o roteiro sobre a minha mesa, apontou para mim e gritou “Você é um inimigo de Israel”.

Ele simplesmente saiu?

Não, ele leu uma parte, o que foi uma surpresa para mim. O fato de pessoas de ambos os lados dessa cerca política estarem infelizes com o filme, na realidade reforçou o sentimento que nós estávamos contando uma história balanceada. Nós não estávamos tentando irritar ninguém – existem pessoas boas e ruins dos dois lados tanto na vida real como no filme.

Esse tipo de relacionamento gay entre pessoas de religiões diferentes comuns entre israelitas e palestinos?

Em 2006, um show de radio da BBC estimou que existiam cerca de 350.000 palestinos gays se escondendo em Israel, a maioria solteiros, mas essas coisas acontecem. Lógico que as coisas mudaram – a abertura e atitudes tem melhorado nas últimas décadas. Eu acho que independente de onde você for, a comunidade gay tende a ser mais receptiva dos diferentes, seja de religiões diferentes ou em relacionamentos inter-raciais. Existe uma fala no filme: “Um pênis é um pênis”.

Qual foi o maior desafio durantes as filmagens?

O maior risco que eu tomei foi chamar Nicholas para o elenco, um não-ator, como personagem principal. Mas, obviamente, valeu a pena.

Houve alguma locação que ofereceu dificuldades para a filmagem?

Uma noite nós estávamos filmando em um vilarejo próximo de Jerusalém quando dois clãs começaram a lutar por uma rua, então militares, a patrulha da fronteira e a polícia apareceu. Nós estávamos bloqueando uma via e meio que fomos pegos no meio do ato.

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Existe alguma cena noturna gay na Palestina?

Não existem clubes gays, mas existem casas de festas. Alguns anos atrás, existia somente noites gay palestinas ocultas em Tel Aviv, que hoje são relativamente populares. Elas começavam às 17h e terminavam às 23h para que as pessoas pudessem voltar para casa sem que tivessem a necessidade de responder onde eles estavam.

Eu achei a cena de sexo surpreendentemente discreta – houve alguma razão para você ter feito tantas restrições como um diretor?

Relacionamentos – incluindo os gays – não são somente sobre sexo e paixão. Sim, foi uma parte importante do filme. Mas eu senti que a história de amor entre Roy e Nimer seria muito mais forte se fosse mais do que apenas outro romance gay. Existe uma conexão que vai além da física. Esses eram os momentos que eu queria mostrar – intimidade e ternura, amor e cuidado. Yael e eu conversamos muito enquanto escrevíamos o roteiro. Eu batia na tecla de que “Eles podem fazer sexo no segundo encontro, mas não no primeiro”.

Um dos policiais israelitas em seu filme tenta chantagear Nimer em se tornar um colaborador. Isso acontece muito na vida real?

A polícia israelense e muitas pessoas não iriam pensar que ele estava sendo corrupto ou abusivo – eles pensam que eles estão protegendo a vida de israelitas contra terroristas e extremistas. Essas coisas realmente acontecem. Um policial tentou recrutar um de nossos câmeras palestino quando ele estava na faculdade. O que acontece com um dos personagens – que é assassinado no filme por ser um palestino gay – também aconteceu no passado. Apesar disso, sem contar a faixa de Gaza, existe um silêncio entre Israel e Palestina sobre o assassinato de colaboradores por vingança.

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Links relacionados:

Matéria Original: ‘Out in the Dark’ Explores the Gay Relationship Between an Israeli and a Palestinian

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