Arte performática na Coréia do Sul

Tradução do texto de Cynthia Sungjae Lee originalmente postado no Queer Asia.

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Como artista, eu exponho a presença de sujeitos nas margens da sociedade ao revelar as limitações do “centro” privilegiado através dos meus trabalhos. Através de uma perspectiva sociopolítica, esse centro é uma construção criada por normas, e ele exerce uma influência ofuscante nas margens por causa da sua aceitação implícita pela maioria social. Apesar da dominância desse centro, são as margens que chamam a minha atenção. O sentido é produzido quando nós estamos conscientes dos nossos arredores, e eu me empenho em reduzir autoridade desse centro para permitir que as pessoas reconheçam a existência dessas margens, e então enriquecer nossa sociedade com a valorização da diversidade.

“A influência da categorização é tão forte para a carreira de um artista; ela padroniza as características do trabalho de um artista e por isso limita o seu potencial de expandir para novos territórios”

Apesar do meu interesse de colocar luz sobre as margens, tem sido difícil para mim criar e exibir obras com temática queer na Coréia do Sul devido as crenças conservadoras da maioria. Como obras artísticas são representações do artista quando exibidas em galerias, eu normalmente tenho medo em revelar a minha identidade sexual durante exibições públicas. Eu não posso apresentar o meu trabalho com orgulho porque eu aprendi através da minha vivência na Coréia que sair do armário normalmente trás mais danos do que benefícios. Além disso, existe o perigo de eu ser categorizado como um “artista queer” e, consequentemente, todos os meus trabalhos serem interpretados como “obras queer”, mesmo que eu queira criar uma obra sobre um tema sem relação aos dilemas queer. A influência da categorização é tão forte para a carreira de um artista; ela padroniza as características do trabalho de um artista e por isso limita o seu potencial de expandir para novos territórios

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Cynthia, ‘Homesn que eu encontrei” (Men I Have Ever Met), SEMA, 2016

É nesse contexto que eu submeti o meu trabalho textual “Homens que eu encontrei” (Men I Have Ever Met) que eu assinei com um alter-ego chamado “Cynthia”, para o Museu de Arte de Seoul (SEMA) em 2016. Para ilustrar como as relações gays mudaram através do surgimento de tecnologias, tais como smartphones e mídias sociais, eu escrevi várias estórias que eu tive com homens desde 2008, quando eu me assumi gay para a sociedade. Como o trabalho revela não somente estórias agridoces mas também estórias de relações de apenas uma noite, eu escolhi não revelar minha privacidade com a minha identidade real, mesmo que meu trabalho tivesse como intuito examinar o poder que ele poderia gerar ao expor as narrativas pessoais de uma pessoa para o público. Portanto, eu criei meu alter-ego e escolhi textos como um meio de evitar os riscos que poderiam surgir ao expor a mim mesmo.

Porém, em 2017 a abordagem de apresentação do meu trabalho contrastou com minhas experiências anteriores de exibição. Eu tinha menos medo quando eu realizei a peça performática “Fringe” no espaço artístico, Hapjungjigu. Como o tema principal da exibição era “drag”, eu ainda hesitei em participar, porque isso poderia potencialmente revelar a minha identidade sexual e restringir o meu trabalho ao ser categorizado como arte “queer”. Apesar disso, eu consegui apresentar o trabalho com o meu nome real e invocado a confiança de ser eu mesmo porque eu estava colaborando com Nix, uma artista drag brasileira. A colaboração com essa corajosa artista drag me ajudou a repensar não somente a importância de uma presença genuína como a essência da arte performática, mas também do poder político do trabalho artístico produzido por artistas abertamente queer. Eu tive a experiência de que eu estava me envolvendo ativamente com a minha concentração ou dever artístico – adicionando diversidade para a sociedade – ao comunicar com o público e transmitindo minha mensagem para eles de maneira direta.

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Artista Nix com Sungjae Lee, ‘Fringe’, documentação performática no Read My Lips, Hapjungjigu, 2017

Eu estou agora atrás do meu mestrado nos Estados Unidos, onde existe grande consciência da diversidade sexual e dos direitos de pessoas queer do que na Coréia. Ao estudar em um ambiente culturalmente rico, eu espero incluir ainda mais as questões queer no meu trabalho e continuar a exibir de maneira ousada esses trabalhos.

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Matéria original (Em inglês): Performing Art in South Korea

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