Se o seu perfil diz “não curto orientais” então você é um “gay lixo”

Tradução do texto de Graham Gremore para o Queerty

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“Ignorantes que dizem ‘não curto orientais’ são os mesmos lixos que dizem ‘não curto gordos, afeminados, só machos’ e outras baboseiras básicas como essas no Grindr”, conta o comediante Peter Kim para o Queerty. “Normalmente são gays brancos (surpresa!) que estão acorrentados em noções heteronormativas de humilhar a feminilidade e adorar a masculinidade”.

Kim se auto-identifica como um comediante “fabuloso robusto e gaysian” que nasceu e cresceu em Chicago. Ele já fez aparições no Second City, Laugh Factory e no The Moth, e recentemente tem usado a sua plataforma para abordar o problema de discriminação entre homens gays, especialmente a discriminação de homens asiáticos. Mês passado, ele gravou um Anúncio de Serviço Público sobre isso para a PBS.

“Estados Unidenses tendem a emascular o homem asiático”, diz Kim. “Então quando você é gay e asiático eles esperam que você fale com uma voz suave, isso se você falar. Quando estranhos me conhecem, eles esperam que eu seja dócil e discreto, então eu faço questão de oferecer o completo oposto”.

Nós tivemos uma oportunidade de conversar com Kim sobre as suas experiências como um homem de ascendência coreana, os absurdos que as pessoas já disseram para ele sobre sua raça, e porque ele não está mais tolerando isso…

QUUERTY: Com que frequência as pessoas perguntam de onde você veio e como você as responde?

KIM: Eu nasci em Flushing, no Queens e nunca fui para a Coréia, mas por causa da minha aparência, eu sou obrigado a responder pela minha coreianicidade, ao invés de ser tratado como um ser humano estados-unidense que, por acaso, não é branco. É um absurdo porque essa é uma das maneira que pessoas brancas usam para se certificar que asiáticos se sintam como cidadãos de segunda classe. O meu favorito é quando eles descobrem que eu sou coreano e resolvem perguntar “Do norte ou do sul”? Eu sempre digo “Norte” e encaro com um olhar vago o rosto deles se contorcerem e explodirem de vergonha.

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Quais são as concepções erradas mais irritantes que você já ouviu sobre homens asiáticos gays?

Pessoas supõem que nós todos somos passivos, e isso não é verdade. Alguns de nós somos passivonas! E ativos, e versáteis, e assexuais, e pequenos porcos gulosos. O que eu estou tentando dizer é que obviamente asiáticos gays são sexualmente tão diversos quanto gays brancos, mesmo que você não os veja representados na mídia. E por “mídia” eu falo de “pornografia gay”.

E aqueles caras que escrevem “não curto asiáticos” nos seus perfis? Porque dizer como essa é discriminatória? E o que dizer das pessoas que insistem em dizer que não é sobre raça, mas uma mera “preferência”?

Você pode chamar do que quiser, mas isso é claramente um desrespeito e eu não vou tolerar isso. Pessoas pensam que elas podem ser casualmente discriminatórias contra asiáticos e que tudo bem porque você não nos vê respondendo de volta. Bem, aqui estou eu te respondendo: Se você não se pergunta porque você tem determinadas preferências, então você não passa de gado.

Ignorantes que dizem “não curto orientais” são os mesmos lixos que dizem “não curto gordos, afeminados, só machos” e outras baboseiras básicas como essas no Grindr. Normalmente são gays brancos (surpresa!) que estão acorrentados em noções heteronormativas de humilhar a feminilidade e adorar a masculinidade, o que é insano porque, oie, NÓS SOMOS GAY!

Você está namorando um homem branco de Minnesota (de onde eu sou, aliás). Você já enfrentou algum desafio por formar um casal inter-racial?

Primeiramente, parabéns por ser de Minnesota. Eu já viajei pelo Meio Oeste, e vocês parecem estar fazendo essa “coisa branca” do jeito certo. Eu tive momentos incríveis visitando a família e amigos do meu namorado em Minneapolis. As pessoas aparentam ser conscientizadas, sem serem auto-complacentes, o que é um balanço difícil de alcançar.

Honestamente, o único obstáculo que nós encontramos foi a minha mãe, que é amável, mas não fala uma palavra em inglês, e ela já mora nos Estados Unidos há 35 anos. Eu acho que ela imaginava que eu aprenderia inglês, ficaria rico e cuidaria dela… então o que eu estou tentando dizer é que é melhor ela começar a aprender algumas palavras, rápido.

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Como que nós, a comunidade LGBTQ, podemos começar a desafiar o problema da supremacia branca na nossa cultura?

Nós devemos desafiar a supremacia branca em nossa cultura aprendendo pelos erros das feministas brancas. Nós temos que acordar e nos posicionar contra todas as opressões, interseccionar, começando pelas mulheres. Se o sexismo e a supremacia masculina não for derrubada antes, então nós não teremos esperança para nenhuma outra desconstrução. O oprimido se vira e oprime aqueles que são mais vulneráveis, esquecendo rapidamente das lições que aprendemos como oprimidos.

Especialmente durante os tempos confusos e instáveis da atual presidência, nós devemos nos unir e lutar contra o ódio e o medo como uma frente unida. E eu acredito que a maneira de conseguir isso é através da comunicação e visibilidade. Se você se importa por alguém que é um homem gay asiático, ou uma mulher trans latina, ou um negro bissexual, você está mais inclinada a votar na proteção deles contra o ódio institucionalizado.

Existe algo que você gostaria de adicionar?

Privilégio, em todas as suas formas não é algo ruim. Nós todos somos mais privilegiados do que alguém de diferentes formas. É como nós decidimos nos envolver com ele que define a nossa personalidade. Algumas pessoas estão desejando tanto acreditar que elas são as vítimas de suas histórias que elas deliberadamente escolhem ignorar o quanto elas têm privilégios em comparação a outros no país, ou até no mundo. Não é um crime ter privilégios, mas é um crime ignorar a existência deles.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): If your dating profile says “No Asians” then you’re a “trash gay,” Korean comedian says

“Você pode fazer do seu jeito”: uma entrevista com Sally Tran e Coco Layne

A humanização do asiático LGBT em “OKAMA – Vozes LGBT nipo-brasileiras”

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