Gírias chinesas LGBT

Tradução do texto de Jack Smith originalmente postado no Time Out.

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Qualquer um que gaste mais de alguns minutos navegando através do WeChat ou Weibo, ou lendo a seção de comentários de sites chineses saberá que gírias em mandarim são bestas em constante evolução  e que é crucial para entender aqueles que usam esses termos. Em poucos lugares a importância das gírias é tão profunda na comunicação entre indivíduos da comunidade LGBT. A necessidade de discrição e de uma maneira sutil de se identificarem em situações públicas resultou em uma torrente de terminologias que não somente tornaram-se parte do discurso gay, mas também se tornou uma ferramente valiosa na visibilidade de minorias sexuais da China.

A fonte mais antiga de um vocabulário que descreve o amor entre duas pessoas do mesmo sexo vem da dinastia Han, quando a escrita chinesa como nós conhecemos hoje foi codificada. Dois termos famosos desse período, ambos se referindo à relação romântica entre dois homens, são fentao (“pêssego fatiado”, 分桃) e duanxiu (“manga cortada”, 断袖). Ambos ainda são usados de maneira limitada pela população queer dos dias de hoje.

O termo “pêssego fatiado” é uma referência à Long Yang, um homem que supostamente dividia a fruta com o seu amante, o duque de Ling, um gesto aclamado por escritores da época como romântico e filial. “Mangas cortadas”, por sua vez, é em referência ao imperador Ai da dinastia de Han, que escolheu cortar as mangas da sua roupa do que acordar o seu concubino que dormia sobre elas. O termo voltou hoje graças à popularidade do filme Brokeback Mountain de Ang Lee. O filme foi chamado Duanbei Shan (断背山) que, em chinês, usa o mesmo duan de duanxiu.

Vários outros termos históricos para o amor gay estão presentes em textos antigos. Um epiteto comum, nanfeng (南风), ou “ventos do sul”, foi usado frequentemente na dinastia Ming (1368-1644) quando comparavam os sulistas “estéreis” em comparação com os seus irmãos másculos do norte. Alguns termos eram ainda limitados a algumas regiões. Durante as dinastias Ming e Qing, homens gays de Fujian eram chamados de xiao tuzi (小兔子) “pequenos coelhos” – aparentemente devido ao seu acentuado libido.

Doutrinas morais conservadoras euro-americanas chegaram no século XVIII e XIX e trouxeram valores para a China sobre a homossexualidade de acordo com as suas normas homofóbicas. Mas com o passar do tempo, gírias gays lentamente voltaram para a sociedade.

O surgimento da internet e das mídias sociais fez com o léxico gay explodisse, e a invenção de uma terminologia chinesa única deu aos chineses queer numerosas opções para discutir as suas identidades e inclinações.

Hoje, tongxinglian (同性恋 – literalmente “amor homossexual” mas também usado para “homossexualidade” na China) é praticamente um termo científico que pertence ao mundo hétero. Indivíduos LGBT majoritariamente preferem tongzhi (同志) e sua contraparte ku’er (酷儿) – uma transliteração da palavra inglesa “queer”.

Traduzido como “camarada” mas literalmente significando “mesmo interesse”, tongzhi  (同志) foi cunhado inicialmente na década de 80 em Hong Kong como um cumprimento ofensivo para a clara opressão sexual dos continentais pelo governo comunista. Ele se tornou um termo inclusivo de gênero neutro que poderia significar gay, lésbica, trans, intersexo ou até mesmo um aliado da comunidade LGBT.

Essa flexibilidade também mostra a tradição chinesa de encarar a sexualidade nos termos do que a pessoa faz, ao invés de uma “identidade” inata.

Dito isso, numerosos termos usados constantemente pelos LGBT chineses são emprestados diretamente do vocabulário inglês que surgiu depois de Stonewall: “gay” é gei  (给); “sair do armário” é chugui (出柜).

Crucialmente, essa revolução linguística também tem dado voz as mulheres, enquanto gays cunhavam sua própria armada de termos e frases que enriqueceram gradualmente o dicionário moderno do mandarim gay. Por exemplo, lala (拉拉) ainda é o termo preferido por lésbicas e mulheres bissexuais, que normalmente se descrevem como “T”, de “tomboy” (Butch/Fancha) ou “P”, de “pretty” (Femm/Boneca)

Uma situação parecida existe para homens gays. É inevitável as classificações em ling (zero), yi (um) ou ling dian wu (0,5). Que correspondem aos termos “passivo”, “ativo” e “versátil” respectivamente e que continua sendo uma maneira de homens gays chineses de encontrar parceiros compatíveis.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Chinese Queer Slang

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