“Você pode fazer do seu jeito”: uma entrevista com Sally Tran e Coco Layne

Matéria originalmente postada no Project As[i]am

Tradução de Mariana Yumi Yamanaga

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Entram Sally Tran e Coco Layne.

As artistas asiático-estadosunidenses causaram furor no mundo do Tumblr e além com seu trabalho confrontando a maneira como narrativas de cabelo em espaços LGBTQ deixam de lado intersecções de raça. Sua arte e presença online resistem contra a invisibilidade de identidades asiático-estadosunidenses que não obedecem padrões de gênero e heteronormatividade associados a mulheres asiáticas e a expectativas embranquecedoras em relação à aparência de pessoas queer.

De “Alternative Lifestyle Haircut” (Penteado de um estilo de vida alternativo), um termo criado pelo site AutoStraddle, à popularidade do corte undercut em espaços queer metropolitanos, escolhas de corte de cabelo são quase um clichê na construção de uma identidade LGBQ. No ano passado, Layne e Tran produziram obras relacionadas a cabelo, padrões de gênero e identidades queer.

Layne criou uma série fotográfica chamada “Warpaint” (“pintura de guerra”) que explora a percepção de gênero associada ao seu corte de cabelo e às laterais de sua cabeça raspadas. Quando ela postou fotos suas no Tumblr, recebeu dezenas de milhares de comentários e foi notada por veículos de comunicação mainstream. A reação foi surpreendente, ela diz, rindo, pois uma das primeiras coisas que ela pensou foi “não acredito que estão me compartilhando. Eu não sou branca” .

O documentário de Tran, “API Hair and Queerness” (Penteados de asiáticos e identidades queer), abordou a questão do cabelo de outra forma: é uma série de entrevistas com pessoas de identidade asiática e das Ilhas do Pacífico (Asian and Pacific Islander ou API em inglês) sobre como o cabelo manifesta suas identidades queer e fora dos padrões de gênero. Tran tem apresentado o documentário em congressos/festivais na costa oeste dos Estado Unidos e pretende criar um curta-metragem de ficção sobre uma pessoa sudeste-asiática trans de baixa renda explorando percepções de gênero.

Recentemente o site As[I]Am teve a oportunidade de entrevistar as artistas. Pudemos criticar a misoginia, padrões de beleza e privilégios em espaços queer, a desvalorização da vivência em relação a teorias acadêmicas, e os “playgrounds brancos” enquanto mulheres femme* asiático-estadosunidenses fabulosas.

Sobre privilégio branco/da beleza e fama no mundo do Tumblr:

Sally: Então, Coco, você é famosa no Tumblr. E eu sou, tipo, um pouco famosa no Tumblr.

Coco: Eu não! Você é total famosa no Tumblr.

[todas riem]

As[I]Am: As duas são famosas no Tumblr, ok?

[todas riem]

Sally: Considerando a cultura do Tumblr, quem recebe muitos comentários e likes… [mulheres brancas] recebem bilhões de comentários!

Coco: Por serem brancas!

Sally: E muita gente apoia isso. Se você vê algo exatamente igual, mas asiático, não é tão atraente. Eu tenho culpa nisso. Tenho que trabalhar muito pra ser notada no Tumblr. Foi assim que consegui alguns dos meus seguidores. E sabe, novamente tendo culpa nisso, é interessante ver qual beleza é valorizada, especialmente quando você considera o aspecto racial. É um grande jogo.

O mundo do Tumblr, apesar de ser uma comunidade tão específica, reflete muito a sociedade como um todo. Mesmo que lutemos como “separatistas” ele reflete muito a comunidade. Para conseguir likes, tenho que parecer hipster. Ou fazer algo com minha gêmea (porque quem não ama gêmeas!). Tenho que estar à altura. Eu tenho que fazer muito mais do que precisaria se fosse uma pessoa queer branca padrão que consegue comentários facilmente. E tudo isso envolve privilégios de padrões de beleza. A raça tem um papel enorme porque é um tipo de corpo idealizado eurocêntrico.

Coco: Você tem que compensar e se esforçar mais.

… Eu sinto que preciso muito… levar em consideração que tenho que fazer algo a mais. Pra realmente prender a atenção das pessoas você tem que ser uma porra de um floco de neve. Porque você é asiática. Você precisa mesmo lutar um pouco mais pra ser levada a sério.

Por isso que eu fiquei muito, muito surpresa quando meu projeto recebeu tantos comentários. Porque sou asiática. Foi uma das primeiras coisas que pensei – “não acredito que estão me compartilhando. Eu não sou branca.” [risos]

Sobre sair do armário e a visibilidade de asiáticas Queer:

Coco: É muito importante falar sobre identidades queer de asiáticos porque praticamente não existe discussão sobre isso. Houve um apagamento ao longo da história porque ninguém trouxe isso à tona. O que é algo que tenho visto cada vez mais. É por isso que fico tão animada toda vez que vejo um asiático queer divulgando seu trabalho.

Sally: …Visibilidade é muito importante. Honestamente, se eu não visse outros asiáticos, eu provavelmente ainda estaria negando minha identidade. Não ter referências de comportamento é algo muito difícil. Eu não sei como era para as pessoas antigamente. Se eu não visse asiáticos queer, eu teria convencido a mim mesma de que sou hétero ou seria hétero por causa do fardo da bagagem cultural que meus pais e minha família representam.

Coco: Concordo com você, Sally. Acho que é muito importante ter referências de comportamento e ter visibilidade porque isso legitima a identidades queer de outras pessoas. Pessoas que estão em cima do muro ou indecisas em relação a aceitar ou explorar sua identidade. Apenas ter a visibilidade de estar ali – “ah, eles/elas são queer e são asiáticos/asiáticas. Talvez seja isso que eu deva explorar”. Eu realmente acho que é uma coisa boa e com certeza pode ajudar muitas pessoas que estão confusas.

Sally: Sair do armário não precisa obedecer essa ideologia predominante de branquitude… Você pode ser queer e asiático. Você pode fazer do seu jeito.

Coco: Os brancos criaram essa coisa cultural de que você precisa anunciar pra todo mundo quando você percebe que é gay. E eu nunca contei pra ninguém. Eu meio que apenas incorporei minha identidade. Eu nunca anunciei tipo, “Ei gente! Ei Facebook! Agora eu sou gay”

[todas riem]

Sally:  Aqui está um biscoito, Coco! Aqui está um biscoito! Você é gay agora!

Coco: Eu nunca fiz isso. Eu só tipo, sabe, silenciosamente me tornei gay. Ou não me tornei gay – eu construí minha identidade. Minha identidade amadureceu, acho.

Sally: Se eu saísse do armário quatro anos atrás, não teria toda essa cultura e comunidade. Comunidade é tão importante dentro de espaços não brancos porque é tudo o que realmente temos. Nós não temos a independência ou o poder de sair dela porque esse mundo é tão brutal que precisamos de uma comunidade. Comunidade é muito importante.

Se nós saímos do armário, podemos perder tudo isso. Portanto sair do armário é um privilégio. Ter visibilidade é um privilégio.

Sobre a academização e acessibilidade da identidade queer:

Coco: Pessoalmente sinto que eu não sou nem um pouco qualificada pra falar sobre gênero e sexualidade.

Sally: Do que você está falando?

As[I]Am: Espera aí, que?

Coco: Eu nunca fiz um curso sobre isso. Tipo, eu nunca…. eu sinto que muitas das vezes em que me sinto alienada é porque nunca tive aulas formais sobre gênero e tal. E esse é um dos grandes problemas que enfrento o tempo todo. Como você torna essa conversa acessível pra pessoas fora do meio acadêmico, que não sabem todos os termos? Como você evita que isso seja uma coisa de elite?

Sally: Estou bem feliz que você tocou nisso. Sou formada em estudos feministas, mas antes disso fiz quatro graduações diferentes, e entrei nessa comunidade queer que tinha essa linguagem – tipo “heteronormatividade” ou “orientalismo”. Me senti muito burra. E com certeza existe uma hierarquia dentro da comunidade queer radical. Se você não domina essa linguagem, você é menos. A mesma coisa vale para a feminilidade.

Coco: Quem sabe mais? Isso.

Sally: Eu me senti muito idiota o tempo todo. Isso é… o motivo pelo qual amo cinema, eu pego toda essa teoria feminista e queer e a torno acessível pra pessoas que não dominam esse tipo de linguagem. Que maneira melhor do que cinema e arte?

Coco: Através da linguagem visual.

Sally: Isso é muito importante pra mim. O que você disse – você sente que não conhecia essa linguagem ou que não se sentia qualificada o suficiente. Mas você está falando dessa luta. Esse tipo de feminismo teórico deveria ressoar nossas lutas. E se isso não acontece, se não tem efeito na prática, então nem deveria ser uma teoria.

 Você está falando disso, essa é a linguagem. Quem criou a teoria normalmente são essas pessoas queer brancas acadêmicas, mas temos pessoas como Audre Lorde ou Bell Hooks. Quando você lê seus textos, você entende. Enquanto outros exemplos como Judith Butler são super difíceis de entender. É denso. É feito para um público específico.

…Aconteceu essa fase de pessoas hierarquizando os outros por causa de gramática. Acho isso muito problemático porque sabe, ainda tenho péssima gramática. É difícil quando não é a sua língua materna. Mesmo se fosse, eu usei muito o Vietnamita. Odeio quando criam uma hierarquia baseada na língua… Eles – todos esses brancos da teoria feminista e queer – sempre se consideram melhores do que pessoas queer não brancas que se formam em biologia.

As[I]Am: …Essa teoria deveria sistematizar para explicar experiências vividas. Tudo isso tem essa fetichização esquisita da filosofia europeia, e tipo, o que Foucault realmente tem a dizer sobre eu andar na rua e vivenciar violência e assédio sexual? Eu sinto muito o que você estava dizendo.

Sally: Com todo esse poder e nomes e títulos, eles podem falar disso o tempo todo. Mas no fim das contas, eles nunca serão pessoas não brancas. Eles nunca serão asiáticos. Eles nunca serão negros. Tudo isso. Eles sempre serão brancos com esse poder.

O privilégio opera com essa cegueira e eles nunca vão entender o que é esse contexto histórico de tanto ódio e discriminação.

Eu sou muito privilegiada por ter me formado, mas até hoje luto pra conseguir um emprego. Não dá pra fazer de tudo com formação em estudos feministas a não ser que você escolha o caminho acadêmico. Mas mesmo esse caminho, meus colegas não brancos dizem que é um mundo dominado pela branquitude. É por isso que eu não escolhi estudos feministas, porque fiquei muito nervosa com essa competição. Mas obviamente nós vivemos nesse playground branco em todo lugar. Mesmo dentro do mundo da arte, mesmo dentro do mundo da computação. Estamos sempre seguindo as regras deles. E isso é uma merda, mas temos que lutar.

Sobre criar espaços queer não brancos

Coco: Pessoas queer não brancas têm seus próprios espaços e quando brancos tomam o controle, isso contamina esses espaços. Você tem que ir em frente e encontrar outro espaço. Você nunca pode ter seu próprio espaço. E aí os brancos ficam bravos porque você quer seu próprio espaço.

[todas riem]

Sally: “Porque fomos excluídos”. Me desculpe, o seu mundo está me excluindo! [risos]

Coco: Nós não podemos ocupar nem esse lugarzinho. Os brancos precisam chegar e falar tipo “Porque não fomos incluídos?”. Tipo, você está me excluindo.

Sobre performane de identidade, femmephobia, e o mito do gaydar:

As[I]Am: Sinto que você pode se identificar como X, Y ou Z. Mas especialmente em espaços queer, percebi que especialmente em relação a quem escolhe não se identificar como algo – seja não se identificar como queer ou hétero, ou com gênero binário, ou… eles estão apenas tipo “eu não me identifico em termos de gênero” – as pessoas realmente surtam. Sinto que me fechei em muitas conversas que criticam a hiper-performance de identidade em espaços queer porque se você diz que é femme, então você tem que arrasar como femme. Ou se você diz que é butch, tem que arrasar como butch. Senão as pessoas irão te questionar mais do que vejo na sociedade em geral.

O que vocês acham disso?

Coco: Se identificar como femme é mais como representar um papel. Eu concordo, você tem que ser super femme se você quer ser femme. Mas feminilidade é mais uma estética do que uma identidade.

Me sinto pressionada pra sempre ter uma aparência “super feminina”. Só porque digo que sou femme. Então se eu não me apresentar como femme, sinto que não sou eu. Sinto que não estou sendo eu mesma. Sinto que existe uma pressão na comunidade queer de ser verdadeiro com o que você diz que é. O que é algo muito errado…

Sally: E contraditório. Falamos em fluidez e aí quando você está explorando gêneros, você ouve merda.

Concordo com o que você falou sobre feminilidade como uma estética. Kyla, você nos pediu pra mostrar o que diferencia femme de feminilidade. Primeiro fiquei angustiada de responder isso, mas acho que pra mim, novamente concordando com Coco, feminilidade é uma estética. Qualquer um pode exercer feminilidade, mas femme é uma identidade. É uma afirmação política. Sim, uma afirmação política. Essa é a melhor resposta pra mim.

As[I]Am: Como assim uma afirmação política? Só pra te incentivar a ser mais específica.

Sally: …Machismo/Misoginia (Femmephobia). Sentir-se realmente invisível na comunidade queer porque você parece “hétero”.

Coco: Isso, invisibilidade da femme.

Sally: Essa hierarquia da masculinidade sempre acima da feminilidade. Mesmo se o corpo é feminino, mulheres masculinas estão sempre acima de mulheres de corpo feminino. Mesmo mulheres de corpo masculino, elas sempre estão embaixo porque não são masculinas, elas não operam nessa identidade masculina que é sempre valorizada como essa coisa de símbolo queer.

Então quando falamos em “afirmação política”, se apropriar dessa identidade feminina é dizer “não, não vamos aceitar suas merdas. Somos assim. Me aceitem como eu sou”.

Coco: Somos queer como qualquer um. Se apresentar como femme não muda isso. 

Sally: É essa coisa heteronormativa, homonormativa. Não sei se você vê essa dinâmica butch-femme que é frequentemente valorizada. Por ser mulher, só saio com pessoas masculina? Mas não é o caso.

Coco: …Sinto que se eu sair, quiser conhecer alguém, eu tenho que tomar a iniciativa. Porque pareço hétero.

Sally: Tipo uma hipster.

Coco: Isso! Ela é gay ou descolada?

[todas riem]

Coco: Não sei! História da minha vida. Aquela mina é gay ou hipster? É muito difícil de saber. E por que eu preciso saber? Toda essa coisa de gaydar – isso não existe. Não mesmo.

Sally: É muito problemático.

Coco: Tipo, “eu tenho um gaydar”. Não, não tem.

[todas riem]

*N.E. Mantivemos o termo femme em inglês que é a descrição de mulheres queer que performam uma feminilidade mais tradicional, em contraposição ao termo butch (fancha, caminhoeira) que são mulheres queer que performam uma feminilidade mais masculinizada.

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Links relacionados:

Matéria orignial (Em inglês): “You can do it your own way”: An interview with Sally Tran and Coco Layne

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