Violência e estupro corretivo de mulheres LBT do Timor Leste

Matéria de Shannon Power originalmente postada no Gay Star News.

Tradução de Gush

AVISO DE GATILHO: Texto sobre violência e estupro, sem imagens.

________________________________

Uma alarmante maioria de lésbicas, bissexuais e trans (LBT) do Timor Leste já sofreram violência alguma vez na vida.

Muitas mulheres e homens trans relataram sofrer violência homofóbica extrema, frequentemente de familiares.

As preocupantes descobertas foram reveladas em um “Relatório de Investigação das Vidas de Lésbicas, Mulheres Bissexuais e Homens Transgêneros no Timor Leste”.

O ASEAN SOGIE Caucus divulgou o relatório em Dezembro de 2017. E é o primeiro relatório deste tipo a documentar as vidas de pessoas LBT no Timor Leste.

“Eu fui amarrada no porta malas do carro e fui arrastada pela rua para que todos vissem” disse uma das pessoas entrevistadas.

Alguns lembraram da violência praticada por seus próprios irmãos.

“Por muito tempo, eu sofri nas mãos do meu irmão mais velho e da minha irmã. Eu fui parar no hospital três vezes. Meu peito estava sangrando devido a um pontapé que a minha irmã me deu usando salto alto” disse uma mulher.

“Eu fui amarrada e arrastada pelo carro do meu irmão, estrangulada com uma mangueira, e empurrada para dentro de um tanque de água por horas. Eu tentei acabar com a minha vida algumas vezes. Meu maior sonho é continuar os meus estudos.”

“Eu levei golpes de facão das minhas irmãs. Eu ainda tenho cicatrizes no meu rosto” disse outra pessoa.

TIMOR LESTE

Timor Leste é uma jovem nação que se localiza entre a Austrália e a Indonésia.

O país realizou sua primeira parada do orgulho em julho (2017), o que chamou atenção internacional.

Nos preparativos da parada, o primeiro-ministro Rui Maria de Araujo se tornou o primeiro líder do sudeste asiático a apoiar publicamente os direitos LGBTI.

“Discriminação, desrespeito e abuso contra pessoas por causa de suas orientações sexuais ou identidades de gênero não traz nenhum benefício à nossa nação” disse Araujo.

Os autores do relatório disseram que apesar do Timor Leste ter um histórico de votar a favor do término da discriminação contra pessoas LGBTI, ainda há um longo caminho a ser percorrido.

“Embora existam esforços para garantir os direito de pessoas LGBTQI, nós percebemos que mulheres lésbicas, bissexuais e queer e homens transgêneros são marginalizados” disse Ryan Silverio, coordenador regional da ASEAN SOGIE Caucus.

ESTUPRO CORRETIVO

Muitas mulheres no estudo descreveram formas nas quais suas famílias tentaram convertê-las à heterossexualidade ou ao gênero que lhe foi atribuído no nascimento.

Frequentemente as táticas eram cruéis e incomuns. Algumas mulheres eram forçadas a beber sangue de galinha para “purifica-las”. Muitas mulheres deram à luz depois de sofrer estupro corretivo.

“Eu fui estuprada pelo meu próprio tio que acreditava que pode mudar a minha orientação sexual me forçando a uma relação heterossexual. Eu engravidei, mas eu abortei através da medicina tradicional. Depois disso, eu saí de casa e agora moro com amigos” disse uma mulher.

Estupro corretivo é uma forma de assédio sexual contra uma pessoa LGBT para fazer essa pessoa se tornar hétero ou se conforme com o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento.

“Eu fui forçada pela minha família a fazer sexo com um homem, isso aconteceu um dia quando eles me enfiaram num quarto e me trancaram com ele” disse outra mulher.

“Ele me agrediu sexualmente. Minha família acreditava que isso ‘corrigiria’ a minha orientação sexual”.

DISCRIMINAÇÃO EDUCACIONAL

As mulheres na pesquisa contavam muito com as suas famílias para apoio financeiro.

Até entre as mulheres que tinham empregos, 66% delas ganhavam menos que US$100. Muitas queriam uma chance de melhorar sua educação para encontrar trabalhos melhores. Mas quase todas encontravam barreiras em sua educação.

Algumas afirmaram que familiares as desencorajavam a ir para a escola. Suas famílias argumentavam que não havia sentido em estudar porque ninguém as contrataria.

Um professor até se recusou a assinar os créditos escolares de uma das entrevistadas porque ele não gostou do “corte de cabelo curto” dela.

O QUE VEM A SEGUIR?

O relatório inclui um número de recomendações ao governo e sociedade civil do Timor Leste. Incluindo facilitar a construção de lideranças e grupos de apoio.

Também pediu por “oportunidades para melhorar suas próprias capacidades para ajudar a fazê-las ativas e capazes de defender seus próprios direitos”.

“Espera-se que as descobertas em várias plataformas nacionais e regionais aumentem a consciência sobre os problemas dos direitos LBT” disse Irma Saeed, uma das autoras do relatório.

“Isto nos ajudará na iniciação da defensoria de direitos … a apoiar membros a viver uma vida digna sem medo de violência, discriminação e preconceitos contra elas devido a sua identidade de gênero e orientação sexual”.

*N.E. Como o foco da matéria original recaia sobre mulheres cis, utilizamos como padrão pronomes femininos. Porém, algumas dessas falam podem (ou não) ser de homens trans, infelizmente, por limitações linguísticas, não foi possível determinar o gênero de alguns dos intrevistados.

____________________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Violence and corrective rape common for East Timor’s LBT women

Jornal Malaio é criticado por publicar lista de “Como identificar um gay”

Resistência e subversão: movimentos queer pela Ásia – Singapura

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: