Quando você é velho, chinês e LGBT

Tradução do texto de Fan Yiying originalmente postado no Six Tone.

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Zhang Guowei, um veterano bissexual de 76 anos, está saboreando os seus anos crepusculares. “Eu não poderia estar mais feliz com a minha vida como aposentado” diz Zhang, que foi médico do exército até o ano de 1994.

Como ex-oficial do exército, a pensão mensal de Zhang é de 10.000 yuan (aproximadamente R$4900,00) – cinco vezes mais que a pensão média em Changde, a pequena cidade na província chinesa de Hunan, onde ele mora com o seu namorado. Zhang se divorciou em 2003 e encontrou o amor da sua vida – Wu, que é 40 anos mais novo – um ano depois pela internet. “Eu espero que ele me acompanhe pelo resto da minha vida” conta Zhang para o Sixth Tone depois de terminar os seus exercícios diários.

Zhang afirma ser bissexual com preferência por homens. Ele ganhou o apoio e compreensão da sua ex-esposa e das suas duas filhas quando se assumiu em 2003. Quando ele falecer, os seus bens serão divididos igualmente entre as suas filhas e o namorado dele. “Minhas filhas não tem problema nenhum em dividir a herança com Wu porque elas sabem que ele é a pessoa que está cuidando de mim durante minha velhice” disse ele.

Esse casal intergeracional moram juntos desde 2005 em um apartamento dado pelo governo para oficiais aposentados e seus familiares. O prédio de dez andares abriga dezenas de veteranos em seus 60 até os 90 anos, alguns morando sozinhos e outros com seus cônjuges.

Quando Wu se mudou, Zhang contou aos seus vizinhos que Wu seria o seu gan erzi, ou filho adotivo, que ele havia conhecido online (O conceito chinês de gan erzi permite um tipo de adoção informal de adultos, sem nenhuma implicação legal ou religiosa). “Eu tive uma ideia vaga de que eles poderiam ser gay” disse Lu Shize (74 anos) que mora no andar de baixo. “Mas isso não é da minha conta perguntar sobre a vida pessoal deles” afirma Lu.

Ano passado, seguindo os passos de outros veteranos, Zhang escreveu uma autobiografia de 2018 páginas – incluindo a sua experiência de reconhecimento da sua sexualidade – e compartilhou com seus colegas militares. Seus vizinhos foram bastante compreensíveis. “Todos sabem sobre nós, e ninguém fofoca ou causam problemas conosco” diz Zhang.

Lu, que nunca tinha conhecido um homem gay ou bissexual, diz que admira a coragem de Zhang. “Sendo gay ou não, isso não muda a maneira como eu vejo ele” afirma Lu. “Nós estamos nos nossos 70; o que é mais importante que sermos felizes e saudáveis?”

A população da China está envelhecendo rapidamente. A proporção da população com mais de 60 anos formava mais de 16% da população em 2015, de acordo com o Ministério de Assuntos Civis, e esse número está aumentando. Essa mudança na demografia da nação tem trazidos novos desafios na manutenção da previdência e do sistema de saúde, especialmente porque poucos idosos podem contar com o apoio de familiares.

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Dois homens realizam uma cerimônia  simbólica em Beijing no dia 30 de Janeiro de 2013 (Foto: ChinaFotoPress)

Décadas de restrições no planejamento familiar causaram que até mesmo idosos que tiveram filhos devam se tornar auto-suficientes, já que filhos nascidos sob a política do “um filho” não conseguem sustentar sozinhos dois pais e quatro avós. Como resultado, para muitos idosos, não ter filhos não é uma preocupação ou uma ocorrência anormal.

Wen Xiaojun, 56, é solteiro e não tem filhos. Logo depois de se aposentar em Novembro do seu trabalho como funcionário público, ele alugou um apartamento em Sanya, nas ilhas sulistas de Hainan, onde ele passa seis meses fugindo do frio de sua cidade natal na província de Zhejiang. “Eu ainda me sinto jovem e cheio de energia” conta Wen para o Sixth Tone. “Não ter filhos tornou mais fácil que eu viajasse depois da aposentadoria”.

Assim como outras pessoas idosas, idosos LGBT também querem ter vidas financeiramente estáveis, felizes e independentes. Eles esperam que a aposentadoria os deem a oportunidade para focar em quem eles realmente amam.

Wen aproveita a sua vida calma em Sanya. Ele vai para exibições, faz caminhadas pela praia, joga voleibol com vizinhos, e algumas vezes se encontra com outros homens que ele conhece pelo Blued – um aplicativo gay, onde ele espera encontrar um namorado.

Mas namorar não é algo fácil para homens gays idosos. “Gerações mais novas podem montar um relacionamento rapidamente se beijando e tendo sexo logo depois de se conhecerem offline” explica Wen. “Mas nós queremos algo mais estável e íntimo”.

Do mesmo modo, Ah Shan de 62 anos, como é chamado dentro da comunidade gay, diz que encontrar um parceiro é o seu maior problema. Ele está financeiramente seguro, e tem o seu próprio apartamento em Guanzhou – capital da província chinesa de Guangdong – e recebe uma aposentadoria de cerca de 5.000 yuan, mas ele está solteiro há quatro anos e está pronto para mudar isso. Enquanto isso, ele está alugando um dos quartos para amigos gays para que assim tenha alguma companhia em casa.

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Ah Shan pousando para uma foto em Guangzhou, na província de Guangdong, 2013. (Foto: Ah Shan)

Muitos gays, lésbicas e bissexuais da geração de Ah Shan sabiam muito pouco sobre as suas sexualidades até que o acesso à internet se tornou acessível no começo do milênio. Mesmo quando Ah Shan estava trabalhando nos Estados Unidos no final dos anos 80,k ele se recusava a se considerar gay porque a única informação que ele tinha na época sobre a comunidade gay na China eram relacionadas à AIDS ou que a homossexualidade era algo vergonhoso e imoral. “Eu acho que sofri uma lavagem cerebral” afirma Shan rindo.

Nos últimos dois anos, Ah Shan tem trabalhado em um projeto de história oral da comunidade gay, gravando histórias de idosos gay de Guanzhou. Ele conversou com mais de 60 homens entre 60 e 90 anos, que viveram durante os períodos mais críticos da historia chinesa, da Revolução Cultural até a era de abertura nacional. “Se nós não as registrarmos agora, parte importante da história LGBT da China irá desaparecer” ele afirma.

Muitos desses homens são casados e escolheram não se assumir para suas famílias. “Eles vão para esse parque para conversar com outros homens gays durante o dia para expor as suas emoções, mas quando o sol se põe, eles tem que voltar para casa e cumprir com as suas responsabilidades familiares” diz Ah Shan suspirando.

Os pais de Ah Shan faleceram antes dele conseguir ter coragem de contar a verdade sobre a sua orientação sexual. Sua mãe morreu em 2000, um ano antes da homossexualidade ser retirada da lista de doenças mentais na China.

Em comparação com homens gays e bissexuais, mulheres idosas encontrão ainda mais dificuldades para se abrir e conversar sobre suas orientações sexuais. Desde 2010, Yu Shi de 45 anos de Chengdu, capital da província de Sichuan, tem trabalhado em um projeto de recuperação de histórias orais de mulheres que sentem atração por outras mulheres ao redor de toda China, mas ela conta que o processo de localizar participantes e persuadi-las a compartilhar suas histórias é complicado.

“Mulheres chinesas estão em uma posição vulnerável nas famílias, que não as permitem falar de si mesmas” afirma Yu, adicionando que das aproximadamente 30 lésbicas que participaram do projeto nos últimos seis anos, somente uma havia se assumido para a sua família. Muitas não pedem divórcio dos seus maridos, mesmo se elas estiverem se relacionando com outras mulheres. “Chineses se preocupam muito com as aparências, e eles pensam que é ruim para as aparências se você se divorcia quando já se tem netos” ela diz.

Yu e sua namorada de 40 anos moram juntas por mais de uma década, mas apesar do seu relacionamento forte e amoroso, elas não podem usufruir da segurança de uma união formal, já que o casamento homoafetivo ainda não é legalizado na China. Alguns problemas podem ser resolvidos com a confecção de um testamento, mas outros – como poder legal ou médico de representação – continuam sem solução.

De acordo com Yu, alguns idosos LGBT que são solteiros e sem crianças tem considerado a construção de um asilo próprio onde eles possam morar juntos e tomar conta um dos outros. Apesar de eles não serem recusados em asilos comuns, Yu afirma que “eles preferem viver em um lugar onde eles podem abrir seus corações e compartilhar as suas experiências com outros que compartilham das mesmas experiências”.

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Um casal de lésbicas se beijam durante um evento em Shanghai no dia 22 de Dezembro de 2013 (foto: Sun Zhan)

Mais e mais idosos vivem separados de suas crianças, e asilos na China tem sofrido com o aumento da demanda. O governo encoraja que a população invista em asilos particulares, mas até o momento nenhum foi criado para atender exclusivamente indivíduos LGBT.

Pouca atenção pública é dada para as necessidades de idosos LGBT, mas para Wang Anke, uma mulher bissexual de 50 anos de Beijing, esses mesmos indivíduos também não fazem muito para serem notados.  “Nós somos praticamente invisíveis” ela diz.

Wang casou com seu marido em 1990 e pretende passar o resto da sua vida com ele. Apesar de Wang se considerar feliz, ela diz que a maioria das idosas lésbicas e bissexuais que ela conhece são pessimistas sobre os anos da velhice. “Elas são solitárias e carentes de cuidado emocional” afirma Wang, e adiciona que muitas prefeririam viver sozinhas do que se mudarem para um asilo onde elas temessem não poder ser elas mesmas. “A solidão irá acompanhá-las ao túmulo”.

Porém, enquanto alguns ativistas idosos LGBT se dedicam na construção de asilos, Ah Shan se opõe a ideia de serviços separados: “A longo prazo, pessoas LGBT não deveriam se trancar em chamados ‘espaços seguros'”, ele diz. “O que nós realmente precisamos é que toda a sociedade permita que nós vivamos confortavelmente em comunidade”.

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Links relacionados:

Matéria original (em Inglês): When you are old, chinese, and gay

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4 comentários em “Quando você é velho, chinês e LGBT

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