Filmes de Arthur Dong destacam a história asiático-americana e queer

Texto de Jasmine Lee Ehrhardt originalmente postado no The Establishment

Tradução de Henrique Ikeda

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Quando eu era uma impressionável garota de 14 anos, o meu lado materno da família foi a um cinema independente assistir a “Hollywood Chinese” (2008, sem tradução no Brasil) do Arthur Dong. Minha família sempre fez questão de ver filmes que apresentassem proeminentes atores asiáticos – por exemplo, lembro que assistimos a “Memórias de uma gueixa” juntos (que foi, compreensivelmente, uma decepção para todos nós). Mas a obra de Dong foi diferente; era um documentário, um dos primeiros que tinha visto.

O trabalho de Arthur Dong como cineasta e historiador tem sido fundamental para a minha própria compreensão do cinema, do trabalho e da identidade asiático-americana. Levou um tempo para que eu percebesse que todos os grandes documentários que recomendava para amigos sino-americanos – que, como eu, estavam decepcionados com a falta de representatividade asiático-americana no cinema e a perceptível falta de cineastas asiático-americanos – foram criados por Arthur Dong. Enquanto “Hollywood Chinese” me ensinou que a indústria cinematográfica não apoiava e nunca poderia realmente apoiar artistas sino-americanos ou asiático-americanos ou se importar conosco enquanto frequentadores assíduos de cinemas, também me mostrou que havia progresso a ser feito observando o passado. Isso me deu o quadro histórico que eu precisava para entender o que significa whitewashing e por quê a representação é importante.

Esse documentário foi o trampolim para o meu interesse na história do cinema, na história asiático-americana e na mídia popular através da lente da teoria crítica da raça (que eventualmente levou a uma tese de mestrado sobre a atriz Anna May Wong). “Hollywood Chinese” parece especialmente pertinente hoje, dada a conversa em curso sobre a branquitude de Hollywood e o que deve ser feito sobre isso. É fácil sentir-se desencantada com o que falta na mídia que consumimos; sentir-se cansada da evolução e repetição de estereótipos baseados em raça, cultura, gênero e classe. É por causa desses problemas que volto repetidamente ao trabalho de Arthur Dong, especialmente a “Hollywood Chinese” e a “Forbidden City, USA” (1989): seus filmes me fazem lembrar os artistas que vieram antes de nós, o trabalho que eles empreenderam.

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O objetivo original de Dong era ser um historiador do cinema. “Um amor pela história do cinema influenciou meus filmes, [que] são baseados em arquivos [e] baseados em histórias”, ele me diz em uma entrevista por telefone. “Quando eu era mais jovem (e até hoje), eu assistia filmes vintage. Eu seria transportado para um período de décadas antes de eu ter nascido. Isso é fascinante. É mágico.”

O tratamento respeitoso de Dong a documentos históricos, bem como seu claro deleite em incluí-los, é mais impressionante em “Hollywood Chinese”, que inclui um segmento no primeiro filme mudo sino-americano. “A Maldição de Quon Gwon” (1916-17), dirigida por Marion Wong, foi inteiramente produzida por sino-americanos em Oakland. Embora esteja apenas parcialmente preservada, Dong usa muitos clipes do filme para dar uma sensação geral do enredo enquanto mostra suas conquistas estéticas e formais. O peso histórico do trabalho de Marion Wong – e o próprio trabalho de Dong para levá-lo à luz para uma audiência mais contemporânea – não estava perdido em mim, mesmo com meus 14 anos. Como nativa de Oakland, cuja vó mora na Chinatown de Oakland, lembro como era afirmativo para mim aprender a história de uma mulher sino-americana que escreveu, dirigiu e estrelou seu próprio filme na minha comunidade.

Ainda encontro conforto e inspiração extraordinários no fato de que, há um século, os cineastas sino-americanos se esforçavam para criar conteúdo especificamente para nós e sobre nós. Uma queixa que você costuma ouvir de alguns na comunidade asiático-americana é que “eles” não nos “deixam” ter papéis protagonistas em filmes e programas de televisão; que, em suma, não há opções para nós. Em “Hollywood Chinese”, Dong nos mostra a importância de lembrar e preservar a história, mídia e arte asiático-americana. O trabalho que ele fez para escavar e compartilhar essa história deve nos lembrar que não podemos confiar em estúdios de grande orçamento para nos dar os papéis que queremos: temos que nos envolver e estar atentos à nossa própria história e contar nossas próprias histórias.

Uma outra vez que fui exposta ao trabalho de Arthur Dong foi em uma aula que tive sobre os asiáticos americanos e a mídia da UC Santa Cruz. Meu professor nos mostrou um clipe do filme de Dong, “Forbidden City, USA”, o qual também tive a sorte de ouvir Dong falar durante um painel no CAAMFest do Centro para Mídia Asiática Americana em 2015. Uma das primeiras casas noturnas chinesas da Chinatown de São Francisco, Forbidden City era singular em seus atos de swing music e revistas com artistas sino-americanos. Além do grande prazer em ver fotos vintage glamour de rostos sino-americanos neste filme, há algo bastante curioso – mesmo agora – ao ver os sino-americanos sapatearem ou cantarem como Frank Sinatra com uma grande banda.

Enquanto o filme de Dong conta as histórias de um punhado de artistas sobreviventes, em nossa entrevista ele me contou que narra uma pequena fatia da história sino-americana gay e lésbica também. Embora este filme se dirija apenas a um breve capítulo da história sino-americana, Dong me diz que alguns estudiosos queer também retomaram os artistas gays e lésbicas do filme. “Em seções que refletiam uma sensibilidade gay [no assunto do filme], eu encontraria uma maneira de projetar isso, mesmo sem dizer a palavra ‘gay’”, ele me diz. Houve momentos, ele explica, quando um entrevistado pedia a Dong que não incluísse a discussão de sua sexualidade no filme: “Eles desligavam o microfone, você sabe, e diziam ‘isso é só para você’. E eu tive que honrar esse pedido. Quando eu crio a história de alguém na tela, eu preciso ter em mente que eles me honraram se abrindo para mim”.

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O filme foi especialmente importante para Dong como um diretor gay sino-americano da Chinatown de São Francisco. Dong pediu que a estréia de “Forbidden City, USA”, que se realizaria no Palácio das Belas Artes de São Francisco, fosse co-organizada pela CAAM (antiga Associação Nacional Asiática Americana de Telecomunicações) e uma organização LGBTQ. “Eu queria juntar essas duas comunidades”, diz ele, “então [CAAM] concordaram, e eles trabalharam com uma organização [local] contra a AIDS, e foi maravilhoso.”

Dong dirigiu mais tarde o filme de 1994, “Coming Out Under Fire” (“Saindo do armário sob fogo”, sem tradução no Brasil), que conta a história dos soldados gays e lésbicas que serviram na Segunda Guerra Mundial. Quando foi exibido no Teatro Castro em San Francisco, Dong estimulou as organizações de mídia asiática a apoiá-lo. Era muito importante para ele que os cinéfilos asiático-americanos vissem “um filme gay feito por um cineasta asiático gay” – porque, como diz Dong, “eu carrego essas duas comunidades”. Várias de suas outras obras, como “Licensed to Kill”, “The Question of Equality”, e “Family Fundamentals”, mostraram o foco na história queer e questões que afetam a comunidade LGBTQ.

Em 2015, o filme mais recente de Arthur Dong, ”The Killing Fields of Dr. Haing S. Ngor”, foi lançado, e também recebeu reconhecimento de destaques da CAAM, Visual Communications e Asian CineVision. 

Num momento em que o whitewashing nos movimentos de justiça social, na história cinematográfica e nos filmes contemporâneos são tão comuns, revisitar o trabalho de Arthur Dong oferece conforto e alimento para o pensamento. Seus filmes reanimam diferentes partes da história e encorajam os espectadores contemporâneos a examinar nosso presente. O que Dong nos mostrou ao longo de sua carreira como cineasta e historiador é que nosso desejo de representação de mídia para nossas comunidades não precisa necessariamente começar ou terminar com filmes de Hollywood. Há uma abundância de material, muitas estórias e muita história que já podemos acessar.

“A história me dá uma sensação de onde estamos hoje, e também nos dá uma perspectiva”, diz Dong. “Então, para ser um progressista, para ser um lutador pela mudança, é importante conhecer a sua história”. Quando pensamos em quão longe ainda temos que ir em termos de representação no cinema, talvez possamos encontrar um pouco de consolo na importante história historiográfica O trabalho que Arthur Dong já fez por nós – e deixe-o inspirar-nos a lutar por melhor.

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Imagem principal: Cartão postal, Forbidden City Nightclub.

Outras imagens: Arthur Dong e cameraman Allan Barrett filmando em locação em Londres; Mai Tai Sing, Jade Ling, Larry Ching, Diane Shinn, e uma performer não-identificada no Forbidden City Nightclub na década de 1940.

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Matéria original (Em inglês): Arthur Dong’s Films Spotlight Asian American And Queer History

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