Conheça Sevdaliza, a artista irani-holandesa que representa a diversidade de corpos de identidades.

Texto de Nassim Golshan

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Sevdaliza, nome artístico de Sevda Alizadeh, nasceu em Teerã (Irã) e aos cinco anos de idade deixou seu país de origem com sua família como refugiados para morarem na Holanda, país em que viveria seus próximos anos. Quando criança cantava as músicas holandesas em gibberish, uma vez ainda não familiarizada com o idioma local. O fato de ser imigrante fazia se sentir diferente dos demais e se defrontar com a solidão.  Aos sete anos de idade, ela consegue encontrar seu refúgio na música de fato, através do rap. Mesmo tendo obtido posteriormente um mestrado em comunicação e tendo feito parte de um time de basquete holandês, a música retorna em sua vida como forma de lidar com seus dilemas bem como profissão. Em 2017 a artista lança dois EPs entitulados The Suspended Kid (A criança suspensa) e Children of Silk (criança de seda). Em 2017 lança seu primeiro álbum ISON.

Conheci o trabalho de Sevdaliza com amigos da comunidade LGBT e ao compartilhar as músicas com colegas percebi que era nesse mesmo grupo social que suas músicas já eram conhecidas ou eram melhor recebidas. Embora não fale de modo explícito da liberdade sexual e de gênero, fiquei intrigada com o fato da artista gerar esse tipo de repercussão. Não somente pela vocalização que dá ao corpo, mas também pela origem persa, Sevdaliza representa uma minoria étnica marrom que ainda luta nos dias de hoje por visibilidade, seja em movimentos sociais, bem como para ter representatividade nas mídias de modo que não seja pejorativo, exotizado e fetichizado. Ao ouvir sua discografia, foi ficando cada vez mais evidente o quanto o trabalho de Sevdaliza é relevante não só à comunidade LGBT, mas em específico para a comunidade LGBT asiática.

Em entrevista dada a outro veículo (The Faded), a artista discorre sobre o seu processo criativo. Menciona que em um primeiro momento não tinha pretensões de fazer um resgate de suas raízes. Contudo em suas músicas, mais especificamente em seu álbum ISON, podemos constatar referências da música persa, seja no som do violino, como de outros instrumentos que acompanham o som eletrônico. A própria artista comenta que mesmo de modo não intencional estas referências acabaram por se revelar em seu álbum.

De modo geral, a discografia de Sevdaliza perpassa as temáticas da identidade e da relação com a pele e das diferentes texturas (vidro, pele, seda) explorando conflitos internos das diversas formas de identidade, rumo a uma estética universal própria da artista que afirma se debruçar na temática da pele por conta desta revelar muitos das pessoas, e, ao mesmo tempo que revela muitos dos sujeitos, oculta muito, tal como uma máscara. O que seria a máscara? A brecha que fica a cada letra de música deixa uma interrogação para o ouvinte, mas de outro lado essa mesma brecha permite que aquele que desfruta da arte complete-a com a sua própria história. Qual seria essa história? Aquela que tomamos consciência da nossa própria singularidade, mas sempre refletida do e para o social a que pertencemos. A medida que crescemos, ao não nos vermos refletidos nas histórias contadas sobre a humanidade, nas músicas e filmes dentre outros veículos vamos nos alienando do nosso próprio lugar no mundo. Mesmo sendo tão sutil, a violência está nesses detalhes, dizendo a todo momento que corpos não brancos, corpos não binários e orientações não heteronormativas não existem e continuarão sendo tratadas como inexistentes, pois se não veiculadas onde estariam? E é em trabalhos como o de Sevdaliza que eu e muitos colegas podemos nos encontrar dizendo que nossos corpos, nossa história, etnia, gênero existem, não como seções justapostas, mas conectadas de modo interseccional, produzindo a diversidade de vidas que tornam a humanidade tão diversa e bonita. Vejamos algumas das letras da artista e considerações que podemos fazer. Não se tratam de interpretações da própria artista, mas feita por nós ouvintes que ressignificam sua arte ao tomar contato com esta.

Em Clear Air vemos uma manifestação de sentimento de perda que não cabe somente no sujeito, mas de ordem social. Podemos na nossa leitura remeter aos processos de colonização e opressão de minorias? Talvez. No clipe desse vídeo podemos observar pessoas que não correspondem aos padrões de beleza brancos tendo protagonismo.

From time to time

Building empires

Please don’t trust in mankind

You took what’s mine

The sweetest pair

For some clear air

(tradução: de tempos em tempos\ construindo impérios\ por favor não confie na humanidade\ você pegou o que era meu\ o mais doce par\ de certo ar limpo)

Em backseat love, a artista faz apologia à quebra de regras para seguir os próprios desejos, mesmo indo contra o padrão. Seria a rebeldia em destoar algo bom, já que causa alegria? Podemos refletir aqui no movimento de destruição e reconstrução constante que é a identidade humana. Entregar-se ao que é ensinado como errado é uma primeira postura de afronta aos padrões aos quais uma mulher marrom é colocada desde que nasce. A artista personifica relações afetivas com homens e com uma mulher andrógina.

I know we lost our focus

Singing those sweet lies in our name

Who is this stranger

Suckling ‘round my thoughts and rides?

Got me acting fateless

Reckless state-of-joy in mind

(Tradução: Eu sei que perdemos o foco\ Cantando aquelas doces mentiras em nossos nomes\ quem é o estranho\ mamando meus pensamentos e dando voltas por eles\ pegou-me agindo sem rumo\ desorientada em um estado de alegria.)

As músicas The Inside, The Other Girl, Amandine Insensible e Marilyn Monroe, mesmo sendo obras separadas dialogam no que diz respeito à confusão, dor, sofrimento de não se sentir aceita por outro e consequentemente resistir em aceitar a si própria. Temos aqui a figura da máscara que tanto oculta todas essas dores se confundindo com o próprio ser a ponto de não compreender de onde vem toda a dor que carrega, assim como o fato de que não passa de um véu, logo, que oculta algo que urge por sair na dicotomia entre entregar-se à loucura e escondê-la para se preservar. Quando se está numa posição social desprivilegiada, ter consciência de que todo o desconforto carregado tem uma carga histórica que antecede o nosso nascimento acaba se perdendo, deixando o sujeito alienado no próprio desconhecimento de suas origens. Por mais que se esforce por ser “a outra garota”- quer seja branca, heterossexual, etc, nunca haverá a realização plena do sujeito. As falhas com a constante insistência de satisfazer essas exigências para satisfazer familiares, parceiros, amigos, humanidade ao em vez de mostrarem que há algo de muito errado com o mundo para não aceitar a diversidade de seres vão colocando o sujeito num lugar solitário em estar cada vez mais convencido que é a sua pessoa que não está bem, pois não encontra espaço para expressar quem é de fato. Nas constantes metamorfoses de tentar atingir essa forma perfeita pautada numa história de imperialismo e patriarcado, vamos chegando a múltiplos lugares possíveis, seja a dor de uma carga histórica que não escolhemos carregar bem como de nos transformarmos em tudo aquilo que podemos ser e não se colocar os limites impostos por fora, assumindo a forma mais forte que à revelia de toda a recriminação resiste em existir como é.

 The inside

Why do I break?

when I bend?

Why do I stay?

Why not stand?

Why do I mask

When I seal?

Why do I ask

What I feel?

Why do I hide

Hide

Hide

The inside

(Tradução: Por que eu quebro?\ quando me curvo?\ Por que eu fico?\ E não me levanto? Por que eu me mascaro?\ Quando eu me marco?\ Por que eu me indago?\ Sobre o que eu sinto?\ Por que eu me escondo?\ Escondo\ Escondo\ Dentro de mim)

The other girl

He never knew what I was made of

Heat couldn’t melt me, cold couldn’t waver me

He never knew my form of shape

His heart couldn’t melt me, water couldn’t bathe me

caught him gambling with a snare

He took me all the way in despair

Operating from another world

I want to be that other girl

(Tradução: Ele nunca soube do que sou feita\ O calor não poderia me derreter e o frio não poderia me tirar do lugar\ Ele nunca soube minha silhueta e forma\ Seu coração não podia me derreter, a água não poderia me banhar\ Peguei-o montando uma armadilha\ Ele me levou ao desespero\ Operando de outro mundo\ Quero ser aquela outra garota)

Em Human temos uma significativa menção à objetificação do corpo feminino. Mesmo expressando de modo contundente que é humana em cada parte, o seu corpo é tomado como exótico pelos espectadores do clipe ainda é passível de animalização.

It’s passing me by

Been in and out

And in front of my judgmental eyes

My precious disguise

Business so cold

Can’t cope with my own

How to not fail

I am flesh, bones

I am skin, soul

I a human

nothing more than human

(Tradução: Passa por mim\ Por dentro e por fora\ defronte meus olhos julgadores\ meu disfarce precioso\ os negócios são tão frios\ não posso lidar por conta própria\ como não falhar\ eu sou carne, ossos\ eu sou pele, alma\ eu sou humana\ nada além de humana)

Brincar com os sons explorando suas infinitas possibilidades é um modo que Sevdaliza encontrou para expressar os seus sentimentos. Podemos aqui refletir sobre o papel da arte como veículo para resignificar a vida e superar condições postas. Do mesmo modo que na arte mexe-se com as possibilidades concretas rumo a uma abstração ideal seja de mundo, seja de sujeito, podemos com a arte aprender tais movimentos e generalizá-los em nossas vidas. Reconhecer as forças e fraquezas remontam as nossas origens, permitindo-nos entender quem realmente devemos ser.

Sevdaliza com suas músicas desafia as normas impostas sobre os corpos uma vez que traz à consciência a possibilidade de gestão de nossos próprios afetos e corpos. Entender nossas maiores forças e fraquezas, ter contato com a dor e o desespero não só nos coloca diante de nós mesmos, mas do nós que atua e recebe influências de fora. Apropriar-se da arte como recurso para formar nossa própria identidade e poder reverberar quem somos é luta humana e com sua devida especificidade na comunidade LGBT e com maior singularidade ainda na comunidade LGBT asiática. Se tão pouco vemos nas mídias os conteúdos que representem minorias de gênero, quem dirá de minorias étnicas e de gênero? Quantos de nós não se deparam com o conflito de não se verem refletidos nas mídias posto os personagens que carregam seus conflitos sejam reprodutores da hegemonia branca e heteronormativa? E quanto a intersecção de condições minoritárias não recai na construção das identidades ao não se verem representadas, não tendo possibilidades de verem quem são como parte do mundo?

Em Bebin (Veja), música cantada em farsi, Sevdaliza se posiciona contra as restrições que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, à entrada de refugiados do Oriente Médio. Ao falarmos de uma militância LGBT asiática temos que ter em vista o produto final que queremos atingir com a luta por direitos humanos. Falar de opressão de minorias étnicas e de minorias de gênero sem levar em conta os múltiplos recortes que as intersecções levam é desconsiderar a própria raíz das opressões, sujeitas a um mesmo projeto de sociedade que restringe livre expressão e circulação de corpos tomados como ameaça. Mesmo que a letra não revele em específico de qual opressão fala, deixa no ar a dúvida de quais vozes poderiam ser contempladas pela música. Por que não seríamos nós também? E quando falamos nós, de qual nós falamos? Estando unindo diversidades ou segregando-as? Essas questões devem continuar sendo postas pela arte para que não percamos de vista o rumo da sociedade que queremos construir.

(Tradução:esse sentimento\ faz você se sentir grande\ e esse mesmo sentimento\ faz-me sentir pequena\ não me obrigue o que sentir\ Se não o sinto\ você me pergunta como me sinto\ e ainda fecho meus olhos\ para que a verdade seja dita\ contemple\ qualquer se seja sua demanda para mim\ meu amor por esse mundo\ minha personalidade de amor\ é maior que a vida\ essa é a minha história)

REFERÊNCIAS

Sevdaliza Talks Texture ‘Obsession’ While Transforming the Ordinary on ‘Children of Silk’

Iranian-Dutch Singer Sevdaliza on How Immigration Ban Inspired Her Reflective Song ‘Bebin’

Sevdaliza on motherhood, mystery and metaphor

Conheça Sevdaliza

Resenha: “ISON”, Sevdaliza

Meet Sevdaliza, A Dutch-Iranian Roamer Finding A Spiritual Home In Music

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