A humanização do asiático LGBT em “OKAMA – Vozes LGBT nipo-brasileiras”

Texto de Hugo Katsuo

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Em uma entrevista para o canal Yo Ban Boo, o fundador do Coletivo Asiáticos Pela Diversidade, Rodrygo Tanaka, falou sobre a principal diferença entre LGBTs brancos e LGBTs racializados: “O LGBT branco tem permissão para ser um indivíduo, a gente não”. Ao realizar o documentário OKAMA: Vozes LGBT nipo-brasileiras, Felipe Higa tenta reverter este cenário.

Okama é “uma palavra japonesa usada para se referir a homens gays, particularmente aos muito afeminados”, explica o filme, ela “era usada de modo ofensivo, mas foi apropriada pela comunidade LGBT como sinônimo de Drag Queen”. O título do documentário por si só já possui muita força: um título sobre resistências, ressignificações. E isso diz muito sobre sua proposta.

De início, somos apresentados a questões pertinentes à comunidade LGBT como um todo: desde a descoberta da própria sexualidade e identidade de gênero até as relações familiares marcadas pela não-aceitação. Todos os entrevistados que, até então, aparecem em Okama, entretanto, possuem narrativas distintas, por mais que alguns pontos se assemelhem. Ivan e Flávia, por exemplo, não se assustaram ao se descobrirem homossexuais porque sempre perceberam algo diferente em relação aos outros. Eduardo desde criança teve influências de bandas góticas japonesas que trabalhavam com androginia, o que fez com que ele despertasse um interesse em trabalhar com arte e maquiagem. Masao, por sua vez, foi se descobrir homem trans já na casa dos 40, devido ao pouco acesso à informação que havia na sua infância e juventude.

As relações familiares, nesse caso, possuem também semelhanças: não ser aceito, ser expulso de casa, precisar se esconder em respeito à família. Vale, inclusive, mencionar uma belíssima fala de Masao sobre ter percebido a necessidade de entender, até certo ponto, o porquê dos pais não o aceitarem enquanto homem trans. Ele menciona o quanto é difícil chegar para sua mãe, com seus quase 80 anos, e cobrar que ela entenda que a menina que ela criou se descobriu um homem. Para ele, apesar da dor, é necessário também ter um olhar mais benevolente sobre isso.

Contudo, por mais que estas sejam narrativas parecidas com as de grande parcela da comunidade LGBT (independente de raça), elas possuem suas particularidades por estarem inseridas num contexto cultural distinto. Eduardo, em dado momento, explica que, por mais que o pai dele não fosse tão próximo da cultura japonesa, alguns aspectos culturais ainda estão muito enraizados nele.

A partir daí, o recorte racial começa a se mostrar mais presente, com a introdução de um novo entrevistado: Lucas Abe. Após contar sobre seu empoderamento através da dança, ele aponta que há uma diferença entre ser uma pessoa LGBT branca e uma pessoa LGBT asiática e que isso reflete muito a problemática da fetichização racial. Por outro lado, Eduardo coloca que há também o oposto extremo: a total rejeição por homens asiáticos no meio LGBT. O asiático LGBT, consequentemente, encontra-se num lugar em que ou é desejado dentro de uma esfera de fetichização ou não é desejado em nenhuma outra.

Para mulheres asiáticas, o peso da fetichização é maior porque recai também a questão do gênero, para além da raça. Flávia conta sobre suas experiências em que foi abordada por pessoas que diziam coisas como “eu adoro uma japinha”, “japonesas são gostosas” e, até mesmo, “queria ver duas japas juntas”.

A fetichização racial configura-se enquanto uma micro-agressão racista no momento em que, a partir de estereótipos, reduz um indivíduo a um objeto de desejo – nestes casos, qualquer pessoa asiática serviria para alimentar as fantasias sexuais da pessoa branca. Abe, inclusive, lembra que a fetichização não está restrita somente a asiáticos, mas a todos os grupos não-brancos.

A questão da representatividade asiática recai também sobre a fetichização, pois muitas vezes alimenta um imaginário que não condiz com a realidade – e não sendo vistos como indivíduos e sim como uma massa homogênea, asiáticos acabam sendo reduzidos também às poucas referências que possuem. O k-pop, por exemplo, tornou-se um fenômeno não só no Brasil, como em todo o Ocidente, e alimentou o “yellow fever” (fetiche por asiáticos). Ao encontrar com pessoas asiáticas, fãs dessa cultura esperam que elas estejam dentro do que consomem dela.

Não há espaço midiático para pessoas racializadas – e quando há, ela acaba por reproduzir estereótipos ou repercutir de forma negativa. Dentro desse contexto, Eduardo, em uma das falas mais fortes do documentário, diz: “A solução que eu encontrei é fazer eu, eu faço o meu; se esse espaço não existe, eu crio o meu”. Kiyomi Hayashi, também entrevistada, fez o mesmo: se não existia quem soubesse maquiar rostos asiáticos, ela mesma descobriu maneiras de fazê-lo e, a partir disso, passou a usar a maquiagem como uma armadura social.

O documentário Okama é também parte da construção de um espaço inexistente – é a afirmação do asiático LGBT enquanto indivíduo. Se o asiático nunca é visto como alguém detentor de uma identidade própria, Felipe Higa, ao viabilizar vozes nipo-brasileiras e suas vivências, nos obriga a vê-los como pessoas únicas: indivíduos com suas próprias histórias, afetos e angústias. A entrevista que encerra o documentário é a de Rubens Tomotani em que conta a história de seu primeiro relacionamento. Além da sutileza descontraída em que ele a narra, há muito a se aprender a partir desse depoimento: é sobre pensar em Rubens não somente como um asiático LGBT – que é também parte dele –, mas como uma pessoa.


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