Uma das maiores bandas do Oriente Médio tem um vocalista Queer

Tradução da matéria de David Artavi originalmente postada pelo Advocate.

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No clima politizado de hoje em dia, a representatividade tende a ser uma virtude. Se levantar como você mesmo, para você mesmo e com você mesmo, em essência, invoca como resposta que outros façam o mesmo. A questão é que isso nunca acontece sem uma onda de controvérsias.

Uma das maiores bandas de rock do oriente médio é a Mashrou’ Leila (“Projeto Noite” em libanês), e o seu vocalista, Hamed Sinno, é abertamente queer. Como todas as músicas da banda são cantadas em árabe, a banda libanesa – com suas mensagens contra a homofobia e pró-feministas – está criando uma onda em prol de um discurso mais livre e desafiando as normas sociais e tradições da região.

Em seus primeiros trabalhos eles miraram na homofobia e nos predadores sexuais, e questionaram a pressão social de pessoas casarem dentro da própria religião. Em nos seus 10 anos de existência, desenvolveram uma quantidade de seguidoras massiva que cruza todas as fronteiras (Mais de meio milhão de seguidores no facebook)

O último albúm de Mashrou’ Leila, Ibn El Leil (filhos da noite), é uma evolução clara dos seus primeiros sons, tendo o que o The New Yorker chamou de “ranhuras luxuosas de baixos escorregadios, sintetizadores cinemáticos e uma melodia assombrosa de violinos” – muito longe de quando eles eram apenas uma banda universitária.

“Nós nos conhecemos na faculdade” compartilha Sinno. “Nós estávamos todos estudando no mesmo departamento: Design de Arquitetura. Eu acho que nós já havíamos participado de bandas antes, mas nós nunca levamos isso a sério. Algumas pessoas do departamento espalharam panfletos de que queriam que acontecesse um workshop (de música)”

O workshop rapidamente se transformou em algo realmente especial, mas depois de perceberem o quanto de tempo isso tomava dos estudos, o grupo diminui bastante – de 10 para sete, e então para os cinco membros de hoje: o vocalista Sinno, o violinista Haig Papazian, o tecladista e guitarrista Firas Abou Fakher, o baixista Ibrahim Badr, e o baterista Carl Gerges.

Sinno tem sido chamado um dos musicos gay mais proeminente do mundo árabe, mas, apesar da mensagem óbvia da banda de tolerância e liberdade e tolerância, Sinno admite que a mensagem “não foi muito consciente”.

“No começo, quando nós chegamos no estúdio, os únicos requisitos era de que nós não fizéssemos covers, e que escreveríamos em árabe” ele explica. “Era algo que estávamos fazendo de brincadeira. Não tínhamos a intenção de transformar isso em uma carreira. Nós estávamos escrevendo de maneira muito orgânica sobre qualquer coisa que estivéssemos pensando na época”.

A razão de escreverem as músicas em árabe, afirma Sinno, era sua própria declaração de que as pessoas do Leste entendessem que a mensagem da banda não havia sido importada da cultura ocidental, mas de dentro da comunidade árabe. “Eu nunca imaginei que nós iriamos tocar nos Estados Unidos, na Europa” ele afirma. “Eu imaginava que se uma luta acontecesse em minha cabeça, seria uma luta para voltar para casa. Era importante dizer as coisas em árabe”.

Cantar em árabe também foi uma forma de reivindicação:  “O problema da música árabe é que os seus arquivos foram profundamente manipuladas” Sinno explica. “(a manipulação) permite que as pessoas meio que reescrevam a história da música árabe e considerada completa – eu não sei qual palavra usar… essa versão estranha da música e história árabe, pensamentos árabes, e políticas árabes selecionadas a dedo para servir um quase-nacionalismo com o propósito de definir que ‘Isso é o que nós somos como árabes”

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Para ter uma ideia de quão grande Mashrou’ Leila é, a banda se apresentou para mais de 35.000 pessoas ao lado de dois outros grupos de rock no Music Park Festival em Cairo. Durante a sua performance, a Rolling Stone escreveu, “Fãs foram fotografados balançando a bandeira do arco-íris em solidariedade ao grupo”. Mas essa solidariedade nem sempre é bem vinda nessa região.

Uma das músicas da banda, “Tayf” (Fantasma), era um tributo ao bar gay de Beirute que foi fechado em 2013 pelas autoridades libanesas. No verão de 2017, os membros do parlamento da Jordânia protestaram sobre a sexualidade de Sinno e no final proibiram a banda de se apresentar no pais. Atitudes como essas tem assombrado Sinno na maior parte da sua vida.

“Eu já era assumido bem antes da banda começar” afirma Sinno “Nós viemos de vários espaços de privilégio. O que o privilégio masculino significa em espaços como Beirute quando você é claramente queer é uma história completamente diferente”

Mesmo assim, Sinno argumenta, a experiência de ser abertamente queer no oriente médio se assemelha com a experiência de ser uma pessoa racializada nos Estados Unidos. (Ele sofreu com xingamentos racistas durante toda a sua carreira nos Estados Unidos).

Em uma noite, Sinno estava caminhando de volta para o seu hotel em Minneapoli quando ele passou por um grupo de homens. Primeiro, alguém o xingou com a palavra nigger (N.T. palavra extremamente ofensiva que significa “negro/preto”), e depois falaram “Porque você está usando esse casaco? Você está escondendo uma arma aí?” ele se lembra. “Eu estava com muito medo de olhar para trás… eu continuei andando e eles começaram a me seguir pelo quarteirão. Eu estava morrendo de medo e então eu comecei a correr feito um louco”.

Apesar das críticas, Sinno e seus colegas de banda continuam a escrever, cantar e a falar a verdade. E eles não vão se calar tão cedo.

“Agora, nesse momento específico, quando nós vemos que o mundo é tão desfavorável ao globalismo, quando todos estão se acomodando nesse nacionalismo inerentemente intolerante, homofóbico e patriarcal” ele afirma firmemente “eu não tenho certeza se eu estou a favor desse tipo de isolamento linguístico”

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Leia mais:

Matéria original (Em inglês): One of the Middle East’s Biggest Bands has a Queer Front Man

Nós somos muçulmanos, somos queer e nós existimos

Homossexualidade e criminalização na Índia: As artes contra-atacam

Como é “sair do armário” no Sri Lanka

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