Choques elétricos, injeções forçadas: Por dentro das clínicas de conversão LGBT abusivas da China

Matéria de Emma Richards publicada originalmente na Asian Correspondent

Tradução: Gush

AVISO DE GATILHO: Descrição de técnicas abusivas e violentas contra pessoas LGBT durante o tratamento de conversão (Sem imagens gráficas).

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Enquanto o dia 15 de Novembro de 2017 foi uma benção para a comunidade LGBT da Austrália com um esmagador voto a favor da igualdade matrimonial, relatos preocupantes vindos da China deixaram um sabor amargo na boca ao expor que as práticas draconianas de terapia de conversão ainda estavam sendo usadas em hospitais públicos chineses e clínicas privadas.

Um relato da Vigilância dos Direitos Humanos (VDH) divulgado na quarta-feira (15/11) detalha o tratamento brutal de pessoas LGBT coagidas à terapia de conversão devido à pressão social ou da família. Enquanto a homossexualidade foi descriminalizada na China em 1997, histórias de pessoas sendo forçadas a se internarem em instituições para “tratamento” destinadas a mudar a orientação sexual de um indivíduo de homossexual ou bissexual para heterossexual são bem comuns.

Foram entrevistados 17 chineses – todos usando pseudônimos – que aguentaram tal tratamento, o relato detalhou os métodos bárbaros que ocorreram rotineiramente, incluindo detenção arbitrária, medicação forçada, uso de choque elétrico, e coerção e ameaças.

[Tradução do texto do tweet: “O doutor começou a me dizer: ‘você está doente. Você sabe disso, certo? Eu não estou mentindo para você. Se você sente vontade de fazer sexo com outro homem, você está doente” – Tian Xiangli,  da província de Hebei no norte da China]

As histórias em primeira mão expuseram a natureza desumanizadora do tratamento. Abuso verbal era algo trivial utilizando palavras como “doentio”, “pervertido”, “doente”, “anormal”, “sujo”, e “vadia” usadas pelos médicos e psiquiatras para descrever os entrevistados. Zhang Zhikun, uma mulher transgênera que foi à terapia de conversão em um hospital estadual em Shenzen em 2012, contou sobre uma conversa em que o médico disse:

“Se você não mudar isso em si mesma, você vai adoecer e morrer de AIDS. Você nunca terá uma família feliz… Você já parou pra pensar na felicidade dos seus pais?”

Mas assédio verbal foi só a ponta do iceberg, com 11 entrevistados contando à Vigilância dos Direitos Humanos que eles foram forçados a tomar pílulas e submetidos a injeções sem saberem o que era o medicamento nem quais efeitos teriam em sua saúde.

“Eles só diziam que eles (os remédios) deveriam ser bons pra mim e ajudar com o progresso do tratamento,” disse um homem gay que foi internado em um hospital na província de Fujian há três anos.

Zhang também detalhou como ela foi forçada a assistir pornô gay enquanto recebia injeção com um líquido desconhecido que a deixou enjoada.

“Eles me pediram para assistir e concentrar no pornô gay que passava na tela. E uma enfermeira injetou um líquido em mim com uma seringa,” ela disse.

“Logo, meu corpo começou a se sentir como se estivesse queimando. Meu estômago estava muito desconfortável, eu me senti muito enjoada e constantemente queria vomitar durante todo o processo… De minuto em minuto, o médico e a enfermeira pediam para me acalmar e focar no que estava sendo exibido na tela.”

 

Cinco desses entrevistados foram submetidos a choque elétrico enquanto exibiam-se vídeos ou imagens – ou eram dadas descrições verbais – de atos homossexuais.

Gong Lei, que passou por terapia de conversão na província de Fujian, descreveu sua experiência.

“O médico me pediu par relaxar porque eu ia praticar algum tipo de hipnose e pensar em cenas de sexo com o meu namorado – naquele momento eu senti dor em ambos os pulsos. Eu não sabia o que estava acontecendo”.

Outro entrevistado lembrou-se de ter passado por nove sessões de eletrochoque durante seu “tratamento” de dois meses.

“Meus pulsos estavam adormecidos, minha cabeça também estava entorpecida. Mas a parte mais dolorosa foi meu estômago.”

Enquanto há uma crescente conscientização das causas LGBT no país, com a comunidade gay ativa florescendo nas grandes cidades e paradas do orgulho começando a aparecer, a China não tem leis que protegem indivíduos da discriminação baseado em orientação sexual nem identidade de gênero. E grupos que lutam por direitos avisam que, em uma cultura que coloca um valor alto em uma piedade filial, milhões de pessoas LGBT ainda são forçadas viver em segredo com muitos casando com parceiros heterossexuais ao invés de se assumir.

Em um comunicado divulgado na quarta-feira (15/11), Graeme Reid, diretor da Vigilância dos Direitos Humanos LGBT, pediu ao governo chinês para parar com a prática “discriminatória e abusiva” de terapia de conversão.

“Se as autoridades chinesas realmente pretendem acabar com a discriminação e abuso contra pessoas LGBT, é hora de colocar um fim a essa prática em instituições médicas,” ele disse.

Enquanto a terapia de conversão é tecnicamente ilegal perante a lei chinesa, o grupo acusa o governo de não fazer o suficiente para acabar com as instituições que a praticam. Medidas como diretrizes claras proibindo terapia de conversão; monitoramento de instituições para determinar se está havendo terapia de conversão; e, onde fica, mantendo o número de tais instituições contável, foi sugerido como linha de ação.

“Já é hora da China se juntar ao consenso global: reconhecimento de que terapia e conversão médica forçada é abusiva e discriminatória e bani-la” disse Reid. “Somente então a descriminalização se tornará significativa legalmente e socialmente, e dará proteção legal contra esta prática cruel.”

 

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Links relacionados:

Matéria original (em inglês): Electric shocks, forced injections: Inside China’s ‘abusive’ LGBT conversion clinics

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Entrevista com o diretor Wang Yu-lin sobre o filme taiwanês “Alifu, o Príncipe/Princesa”, que estreou em outubro de 2017.

2 comentários em “Choques elétricos, injeções forçadas: Por dentro das clínicas de conversão LGBT abusivas da China

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