Como é “sair do armário” no Sri Lanka

Tradução da Matéria de Craig Ryder publicada originalmente no Roar Life

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Ser gay no Sri Lanka ainda é ilegal.

Porém, no dia 15 de Novembro de 2017, o governo se comprometeu a proteger os direitos humanos da comunidade LGBTIQ. O vice-procurador geral Nerin Pulle disse que “o Sri Lanka se manterá comprometido na reforma legislativa e garantindo a não discriminação contra orientações sexuais e identidades de gênero”.

Apesar do gabinete se recusar a descriminalizar a homossexualidade no começo do ano, esse passo tomado tem sido bastante comentado pela comunidade LGBTIQ, que – pelo menos de acordo com a lei – receberão todos os direitos conferidos para pessoas não-LGBTIQ.

Dito isso, durante 2017 houve vários discursos de ódio proferidos por líderes religiosos e poderosos políticos. O ministro da justiça Wijeyadasa Rajapakshe descreveu a homossexualidade como uma doença mental – um posicionamento que claramente influencia, e reflete, a sociedade que compartilha diferentes visões sobre a liberdade das orientações sexuais já aceitas em muitas nações.

Como alguém “sai do armário”?

Sair do armário pode ser considerada uma parte intrínseca do que é ser gay ou lésbica, mas outros a percebem como apenas um detalhe. O escritor e blogueiro Brandon Ingran disse a Roar Media que ele sempre percebeu a “saída do armário” como um rito de passagem desnecessário para pessoas gays. “[Afinal de contas] pessoas heterossexuais não conversam sobre a sua sexualidade com amigos e familiares”.

Ingram adiciona que “eu tive que sair do armário para a minha família duas vezes [primeiro que ele tinha 29 e novamente quando ele tinha 31], porque nos primeiros anos eles escolheram acreditar que eu estava brincando”.

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Colombo Pride tem sido comemorada desde 2005

As vezes, parece que ações falam mais alto que palavras.

Umanga Samarasinghe, co-fundadora e artista na KINGS Co., não sofreu com nenhum drama em casa. Para se assumir lésbica, Smarasinghe disse, “Eu peguei a minha mãe para o Orgulho de Colombo e entreguei a ela toneladas de folhetos… ela entendeu a mensagem”.

Para Hash Bandara, parceira de Smarasinghe e co-fundadora de KINGS Co., a formatura da faculdade foi o momento de se assumir para sua mãe. Hash se recusou a vestir um Sari mas sua mãe não gostou dela vestir um tuxedo. Ela continua “Eu sai de casa com apenas uma sacola de roupas e dinheiro de amigos. Eu sai para me descobrir e entender minha vida” ela disse para a Roar Media.

Em cada caso, os entrevistados dizem que tinham reconciliado qualquer diferença que eles tinham com parentes e familiares. Hoje, Samarasinghe e Bandara vivem juntas na casa da família de Bandara.

Fugindo do casamento

Para muitos indivíduos LGBT, se assumir não é tão avançado, especialmente para aqueles de baixa renda e/ou aqueles que vivem longe do centro cosmopolitano de Colombo.

“Quando eu sai de Ratnapura, meus pais não sabiam que eu era gay” afirma o jornalista Manoj Thushara para o Roar Media.

“Eu me mudei para Colombo para estudar e estava em um longo relacionamento com meu parceiro de seis anos. Nesse tempo, nossas famílias colocavam muita pressão em nós, individualmente, para que voltássemos para casa e nos casássemos (com mulheres da região). Nós fugimos juntos para a Malásia e recebemos bolsas de estudos, mas eventualmente voltamos para Colombo em segredo. Quando nossas famílias descobriram que nós havíamos retornado, eles perceberam a seriedade do nosso relacionamento e nos aceitaram. Eles tiveram porque, nos olhos deles, eu sou o provedor da família. Seria muito perigoso, financeiramente, me deserdar”.

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Sri Lanka ainda não reconhece direitos para membros da comunidade LGBTIQ

Equal Grounds – uma das ONG LGBTIQ mais proeminentes do Sri Lanka – pesquisa e publicação “Lutas contra a violência homofóbica e crimes de ódio” (2015), aponto que suicídio, auto-mutilação, e violência doméstica como um dos inúmeros exemplos de violências sofridas por mulheres sendo forçadas a se casar. Além do estigma social de ser homossexual, em muitos dos casos mulheres se unem em matrimônio porque não existe outra alternativa, economicamente.

Por exemplo, o caso de “Sumanawathi” (Nome fictício) no distrito de Nuwara Eliya descreve como o irmão mais velho obrigou que ela concordasse em se casar com alguém da escolha dele:

“Ela foi ameaçada pelo seu irmão de que caso ela recusasse a proposta ele iria tomar toda a propriedade no nome dele. [Ele] insistiu que ela não deveria viver sozinha [e] então começou a mal tratar ela e a insultá-la; O irmão dela costumava repreendê-la e sujá-la todos os dias. Finalmente ela decidiu concordar com a proposta de casamento”.

Como o resultado inovador de pesquisas como essas, Equal Grounds está oferecendo empregos bem assalariados e bolsas de estudos para mulheres lésbicas e bissexuais para que elas possam fazer escolhas independentes em suas vidas.

Como ser “assumido” afeta os seus direitos humanos?

De acordo com o relatório de 2016 sobre o Sri Lanka pelo Human Rights Watch, “pessoas LGBT, normalmente, irão enfrentar o estigma e a discriminação em imobiliárias, empregos e sistema de saúde, tanto nos setores públicos e privados”.

E no Sri Lanka, o nível de estigma e discriminação que um indivíduo está sujeito depende da sua classe social. Além disso, o estigma real que as pessoas podem experimentar pode ser bem diferente do esperado.

Por exemplo, Samarasinghe e Bandara estão tendo um desafio particular de encontrar um lugar para alugar juntas. Samarasinghe explica que “Senhorios são céticos sobre duas mulheres morando juntas e presumem que nós iremos ter vários homens em nossa casa”.

Elas não estão sendo discriminadas por que elas estão em um relacionamento homoafetivo per si, já que ele está fora da visão de mundo do senhoris. Em vez disso, aparentemente, a discriminação começa pelo fato de serem duas mulheres. Mulheres, de acordo com as regras sociais, deveriam estar casadas e, portanto, socialmente e financeiramente, ligadas a um homem.

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Hash Bandara [esquerda] e Umanga Samarasinghe [direita] na primeira edição da Equality Magazine.

A discriminação que Bandara e Samarasinghe enfrentaram em um hospital, novamente, não foi necessariamente um ataque direto à homossexualidade delas: elas não tiveram serviços recusados por médicos ou tratadas de maneira injusta. Em vez disso, foi a violência estrutural do lugar que as inibiu dos seus direitos ao sistema de saúde.

“Quando Manga [Samarasinghe] foi aceita no hospital, eu não podia assinar como responsável porque nosso relacionamento não era reconhecido pela lei” explicou Bandara. “Isso significou que tivemos que chamar nossos pais e eles tiveram que vir ao hospital… não foi um grande problema para nós já que nossos pais estão bem com o nosso relacionamento, mas para muitas pessoas [LGBT] isso teria causado um grande conflito”.

Pregando para convertidos

Terapias de conversão e tratamentos de cura para a homossexualidade podem desagradar a visão da Organização Mundial de Saúde de que a homossexualidade não é uma doença, mas eles ainda existem em toda Sri Lanka.

Lakmali Kathalawla, Oficial de projetos da Equal Grounds, disse para a Roar Media que tratamentos Ayuveda e ocidentais são abertamente divulgados pela mídia local (jornais e televisão). “Por Rs3.000 a seção”, explica Kothalawla, “um pai pode colocar o seu filho sob intensa terapia, ou até mesmo optar por terapia de choque elétrico”.

Bandara e Samarasinghe tiveram uma experiência em um cenário semelhante:

 

“Uma de nossas amigas mais próxima estava namorando uma garota por sete anos. Os pais dela não gostaram disso, e a menina se mudou. Os pais levaram a filha para casa e deram a ela o tratamento. Nós não sabemos o que aconteceu com ela. Ela não tem permissão de falar com a gente. Tudo o que nós sabemos é que ela está namorando um homem agora”.

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O roteirista e diretor Arun Welandawe-Prematilleke fala pela comunidade LGBT

Indivíduos de baixa renda na comunidade LGBTQ

Devido ao extremo preconceito que a comunidade LGBTQ recebe, especialmente aqueles que vivem em comunidades de baixa renda que ficam longe do centro cosmopolitano de Colombo, a realidade de suas situações e extremamente insustentáveis.

O roteirista de Colombo, Arun Welandawe-Prematilleke, falou para a Roar Media:

“Eu não posso começar a imaginar como é para a maioria de meus irmãos e irmãs da comunidade LGBTIQ; aqueles cujos obstáculos não são só emocionais, mas bem literais. Quando encaram as ameaças de serem condenados ao ostracismo, a violência e até a morte, eu me pergunto se eu poderia ser corajoso o suficiente para viver honestamente e abertamente. Eu esperaria que eu tivesse a coragem de fazer isso, mas eu com certeza iria me encolher sob tamanha pressão”.

É por isso que é vital que grupos LGBTIQ como o Equal Ground continua seu trabalho e tem a liberdade de trabalhar, publicar e colocar em exercício o direito deles de apoiar pessoas.

Sriyal Nilanka, oficial de comunicação e mídia da Equal Grounds contou para a Roar Media que “apesar das constantes chantagens e ameaças de morte vindas de grupos religiosos extremistas, nós estamos vendo um pequeno progresso [político] já que estamos sendo convidados para eventos governamentais e do ministérios”

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Links relacionados:

Matéria original (em inglês): What is really like to ‘come out’ in Sri Lanka

Descolonização e Práxis Queer: As perguntas irrespondíveis para “Ásia queer”

Nós somos muçulmanos, somos queer e nós existimos

Homossexualidade e criminalização na Índia: As artes contra-atacam

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