Entrevista com o diretor Wang Yu-lin sobre o filme taiwanês “Alifu, o Príncipe/Princesa”, que estreou em outubro de 2017.

Tradução do matéria de Olivia Yang para o Cinema Escapist

Tradução: Vinicius Chozo

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“A China não consegue produzir filmes como esse. É por isso que a gente precisa.”

O diretor cinematográfico Wang Yu-lin (王育麟) está brincando. Ou talvez não. É difícil dizer pela voz dele, o rosto escondido por detrás dos óculos retangulares escuros, vestindo uma camiseta com estampa asiática ousada, e Wang comendo a sua marmita estilo bento enquanto fala.

Nós estamos falando sobre o seu último filme: “Alifu, The Prince/ss” (“Alifu, o Príncipe/Princesa” – sem título oficial no Brasil).

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Diretor Wang Yu-lin (Fonte: Signpost

O trailer do filme foi divulgado no Facebook e no Youtube no dia 22 de maio, dois dias antes da Corte Constitucional de Taiwan anunciar a decisão favorável sobre o casamento homoafetivo. Desde então têm alcançado mais de 490 mil visualizações e 5 mil compartilhamentos no Facebook.

“Nós tínhamos o trailer pronto, mas estávamos pensando, ‘Cristo, o filme não vai estar nos cinemas até outubro. Será que não é um pouco cedo para soltar o trailer?’. No final, foi isso mesmo que fizemos”, disse Wang, 52 anos.

“Alifu, o Príncipe/Princesa” tem ganhado atenção por toda a ilha, não só porque discute questões LGBTQ, mas também pelos conflitos entre identidade de gênero e tradições indígenas de Taiwan.

Alifu (Utjung, 舞炯恩.加以法利得), é um homem de 25 anos da tribo Paiwan e que trabalha em um salão em Taipé/Taipei. Seu sonho é um dia realizar a cirurgia de redesignação sexual e se tornar uma mulher. Só que, sendo o primogênito do chefe da tribo, Alifu se vê entre a sucessão da posição do seu pai e a realização do seu sonho. As coisas ficam ainda mais complicadas quando a colega lésbica que mora com ela, Pei-zhen (Chao Yi-lan, 趙逸嵐), se apaixona por ele.

“Eu não acredito que muitos das gerações mais velhas gostariam de ver esse filme. Pode ser que eles fiquem realmente bravos. As pessoas mais velhas aceitam menos essas coisas, conflitos internos da tribo e entre gerações”, disse o diretor.

‘Não incomum’ dentro da tribo Paiwan

Wang começou a refletir sobre as questões de gênero nos seus vinte anos, quando ele “tinha tantos amigos inteligentes e talentosos que eram gays.”

“Isso foi em 1984 e 1985, quando esses assuntos ainda eram delicados. A United Daily [News] inclusive escreveu que [ser gay] era uma ‘pecado de Deus’ (‘curse from the heavens’)”, disse o diretor.

Foi só quando o diretor teve que servir no exército que ele começou a entender que as pessoas podem se apaixonar por pessoas do mesmo sexo. Um dos homens com quem Wang serviu era um xamã, e quando o diretor levantou essas questões sobre ser gay, o xamã simplesmente disse: “homens e mulheres carregam a mesma alma.”

Foi quando o diretor entendeu que “não importam as aparências, o que é importante é a alma da pessoa.”

Desde então Wang quis fazer um filme que abordasse questões de gênero. Foi por acaso que, há mais ou menos dois anos atrás, um amigo chegou nele com o roteiro de “Alifu, o Príncipe/Princesa”, baseado em uma história real.

A cultura Paiwan, na qual “Alifu, o Príncipe/Princesa” se insere, é a segunda maior comunidade indígena de Taiwan, com uma população de 96 mil pessoas. Em Taiwan, a população indígena gira em torno de 535 mil pessoas, ou 2% da população total de 23,5 milhões do país.

A ilha de Taiwan reconhece hoje 16 grupos indígenas, três dos quais tem uma estrutura de hierarquia social particular, no qual o chefe detém a maior posição – os Paiwan, Rukai, e Amis. A sociedade Paiwan é dividida em quatro classes – o mamazangilan (chefe), nobres, guerreiros e pessoas comuns – os primogênitos herdam a posição social dos seus pais, independente do gênero. O nome “Alifu” é também um dos 12 nomes que somente os da classe mamazanglian são permitidos de ter.

O roteiro foi reescrito cinco vezes e Wang tinha preocupações sobre o que os indígenas iriam pensar da história.

Quando o diretor e a sua equipe estiveram em Taitung, no sudeste de Taiwan, procurando por lugares para gravar em uma tribo Paiwan, alguns membros da tribo perguntaram para Wang sobre o que era o filme, e ele (Wang) teve que “respirar fundo” antes de responder.

Para a sua surpresa, um professor do jardim de infância, também da tribo Paiwan, disse para o diretor, “Ah, isso não é nada incomum. Eu ensino no jardim de infância aqui há 20 anos e descobri que um em cada seis meninos Paiwan é mais feminino.”

O professor ainda disse para Wang que as pessoas tem um nome na língua deles para meninos assim, algo que soa parecido com “Adu”.

Enquanto questões de gênero não são incomuns na tribo, Utjung, que fez o papel de Alifu no filme, disse que as gerações mais velhas da tribo Paiwan em Pingtung, no sul de Taiwan, ainda veem os gays e trans como pessoas de “espécies diferentes.”

Gay e de 23 anos, Utjung teve que lidar com discriminações enquanto crescia, e a sua família teve que “respirar bem fundo” quando ele disse para eles que faria o papel de uma mulher trans no filme.

“Eu não fingi ser outra pessoa ou forcei a mim mesmo a me tornar a pessoa que queriam, porque eu sabia que estava fazendo a coisa certa”, Utjung disse. “Eu disse para a minha família que existem muitas pessoas assim, então não era nada que eles precisavam ter medo.”

Wang, o diretor, acrescenta que eles não encontraram qualquer forma de resistência enquanto filmavam na tribo, e muitas das 12 mil curtidas em “Alifu, o Príncipe/Princesa” na página do Facebook são de indígenas.

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Cena de Alifu (Fonte: facebook)


Desafios psicológicos

Mesmo que convencer os indígenas a aceitarem o filme tenha sido mais fácil do que se esperava, um desafio maior foi encontrado pelos dois atores principais.

 

“Eu pensava que existiam similaridades entre ser gay e ser trans, mas a verdade é que não”, disse Utjung.

Transgênero é um termo utilizado para descrever pessoas que a identidade de gênero difere do sexo com o qual foram designados no nascimento, de acordo com a GLAAD, um órgão não governamental dos Estados Unidos de monitoramento da mídia.

Algumas pessoas trans se preocupam em ter o corpo alinhado com a sua identidade de gênero – seja por meio de hormônios ou de cirurgia. Mas nem todas as pessoas trans conseguem ou farão isso, e ser trans não depende de procedimentos médicos.

Para melhor entender como uma mulher trans pensa e age, Utjung conversou com muitas amigas trans e começou a usar maquiagem em casa para “sentir como é que era ser mulher.”

“Eu não conseguia pensar em Alifu sobre uma perspectiva masculina”, disse Utjung. “A grande diferença entre Alifu e eu é que ela é uma pessoa muito atenta. Ela pensa duas vezes antes de agir. Passar pela cirurgia de redesignação sexual é o sonho dela e ela pensou mais do que uma única vez sobre realizar esse sonho.”

O ator indígena também viu dificuldades em ajustar a sua mentalidade para entender a personagem Pei-zhen – a amiga lésbica de Alifu que se apaixona por ele. Utjung “simplesmente não conseguia compreender como isso era possível”, e não foi até Wang dizer a ele para ignorar o aspecto de gênero que ele (Utjung) conseguiu se soltar nas cenas mais íntimas.

“Estar no set de filmagem, eu consegui sentir como é que era esquecer sobre o gênero ou a aparência e focar no que é que você realmente gosta em uma pessoa”, disse Chao Yi-lan, que faz o papel de Pei-zhen. “Lidar consigo mesma com sinceridade é muito mais importante.”

O diretor também encontrou várias pessoas trans como parte da “sua pesquisa” para o filme. Uma delas era uma amiga de Utjung, uma mulher trans que agora trabalha como comissária de bordo.

“Eu admiro o tanto de esforço que elas (pessoas trans) precisam passar antes de enfrentarem a cirurgia de redesignação de sexo. Eu tenho muito respeito por isso”, disse Wang.

Taiwan requer a remoção cirúrgica de órgãos sexuais específicos e dois laudos psicológicos antes de permitir que uma pessoa solicite a redesignação de gênero. O Legislativo Yuan, Parlamento de Taiwan, mudou essa regra em 2015, mas o Ministério do Interior ainda está revisando essa lei.

Ainda que a cirurgia de redesignação de sexo seja considerada um tipo de cirurgia cosmética em Taiwan, os pais ou responsáveis precisam consentir à sua realização. A cirurgia não é coberta pelo seguro de saúde público. Em Taiwan, a cirurgia de homem para mulher custa entre 250 mil e 300 mil dólares taiwaneses (8,2 mil a 9,8 mil dólares americanos). Mulher para homem é dividida em dois estágios: o primeiro já sendo elegível para quem queira trocar legalmente o gênero registrado (remoção de mamas, ovários e útero), e o segundo sendo o procedimento de reconstrução genital. O primeiro estágio custa por volta de 300 mil dólares taiwaneses e o segundo varia entre 500 mil e 600 mil dólares taiwaneses. (n/t: para transformar em real aproximado é só cortar um zero, então 300 mil dólares taiwaneses são 30 mil reais)

História não terminada

Enquanto “Alifu, o Príncipe/Princesa” recebeu ampla atenção em Taiwan, o filme também ganhou a atenção da Reel Suspects, uma distribuidora de filmes de Paris, no Mercado do Filmes de Cannes (“Cannes Film Market”) no começo desse ano. A Reel Suspects ficou então responsável pelas vendas do filme nos Estados Unidos, Europa, Japão, Coreia do Sul e China.

Mas o filme teve problemas para encontrar investidores no começo por causa da sua narrativa. Wang precisou produzir o filme somente com os 3 milhões de dólares taiwaneses (100 mil dólares americanos) recebidos do Ministério da Cultura e um pouco mais que ele conseguiu emprestado “aqui e ali”.

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Cena de Alifu (Fonte: Reel Suspects)

“Pessoas ricas tem a tendência de ficarem velhas e mais conservadoras. Nós terminamos de editar o filme e rodamos o DVD no nosso escritório para potenciais investidores, coisa que é raramente vista nessa indústria”, disse o diretor. “Foi só quando fizemos isso que três pessoas estiveram dispostas a financiar.”

 

“Alifu, o Príncipe/Princesa” estreou nos cinemas de Taiwan neste outubro, e Wang disse que eles estão trabalhando para também conseguir lançar o filme em Hong Kong.

“Eu espero que a gente veja um resultado de bilheteria okay, porque a história ainda não acabou”, disse Wang, dando dicas de uma possível continuação.

Existem contos que a verdadeira Alifu passou pela cirurgia de redesignação sexual e está agora morando como esposa de um médico. Mas nada disso foi confirmado, e o diretor ainda há de encontrar a protagonista na qual a história desse filme foi baseada.

Brincadeiras e gargalhadas aparecem na mesa com os três se recusando a compartilhar sobre qual seria a história da continuação.

“Você só precisa continuar antenada”, disse Chao, e Wang se levanta para fumar um cigarro na janela do seu escritório, com os óculos escuros na cara.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Interview: Wang Yu-lin on Taiwanese aborigines and gender identity in “Alifu, The Prince/ss”

Página do Facebook do Filme: 阿莉芙ALIFU, THE PRINCE/SS

Como é ser lésbica na China?

Onde nós estamos? A visibilidade LGBT+ nas produções cinematográficas do ano de 2016

O caminho que Taiwan tomou para a Igualdade Matrimonial

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