Como é ser lésbica na China?

Transcrição e tradução do depoimento de Ashley Jiang para o The Advocate Magazine

Tradução: Vinicius Chozo

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Oi, meu nome é Ashley. Mas esse não é o meu nome verdadeiro. Mas eu sempre uso ele porque ninguém consegue pronunciar meu nome chinês corretamente.

Eles chegam falando “E aí Mongwen”… É Meng Jue. De qualquer forma, eu nasci em Xangai, na China, e agora moro em Los Angeles. E isso é o que uma chinesa lésbica se parece com. Mas antes da gente começar, eu devo dizer que a China é um lugar muito grande e complexo. São mais de 70 milhões de chineses LGBTs morando lá. Isso é quase 3 milhões a mais de pessoas do que a população inteira da França.

A experiência de cada pessoa é diferente e estas são apenas as minhas. Eu tive meu primeiro crush numa garota quando eu tinha 16 anos, e eu mantive isso em segredo por 3 anos, porque a época do vestibular é muito muito difícil. E pensa em como a China é populosa. A competição é surreal. Tudo o que eu fiz foi estudar duro, como muitas crianças chinesas. E é verdade o que eles dizem, eu sou muito boa em matemática. Depois de me formar (no ensino médio), eu disse para a garota que gostava dela. E aconteceu que no fim das contas ela gostava de mim também.

Mas… crianças chinesas quase não recebem educação sexual, e a homossexualidade é um tabu. E por isso a gente não gosta de dizer a palavra “homossexualidade”, mesmo em chinês “Tong Xing Lian” (同性恋), porque soa como se fosse algo muito “diferente/extremo/radical”. Ao invés disso, nós dizemos “Tong Zhi” (同志). A tradução literal é “camarada”, e as lésbicas por sua vez são chamadas de “nǚ tong zhi” (女同志), “nǚ” (女) de “mulher”, então “nǚ tong zhi” (女同志) significa “camarada mulher”. É o que vocês estados-unidenses diriam: “gal pal”. A gente ainda usa outra gíria para se referir às lésbicas, que é “la la” (拉拉), que foi derivada do som de “le/la” da palavra em inglês para lésbica (lesbian). Então, quando eu vi o título do filme La La Land, eu fiquei tipo, uou, a terra da mulher maravilha, uhul, quantas lésbicas.

Existem três tipo de lésbicas na China, “T”, “P” e “H”. “T” que significa “butch” e vem da palavra “tomboy”. “P” que significa “femme” e vem da palavra taiwanesa “po 婆”, que significa esposa. E “H” que vem de “half” (Metade) e seria algo correspondente ao “versátil”, essas garotas se veem em algum lugar nesse meio desses dois outros estereótipos. Quando falamos de lésbicas, a maioria dos chineses pensa imediatamente em “tomboys”. Mas nem todas as tomboys são lésbicas (mas a maioria delas são).

Como as lésbicas chinesas ficam/namoram? Como as pessoas ainda não se sentem confortáveis com demonstrações de afeto em ambientes públicos, nós usamos principalmente os apps de namoro para encontrar outras mulheres queer. Existem três principais apps: “rela” (热拉), “lesdo” (乐Do) e “lespark” (拉拉公园). “Rela” (热拉), pra começar, tem mais de 5 milhões de usuárias, mas devido a censura do governo, o app foi desativado em maio de 2017 porque apoiou um grupo de mães de filhos LGBTs a participarem de um mercado de casamento (“marriage market”, em inglês) em Xangai. As mães desses filhos LGBTs foram mais tarde retiradas do parque, e o app, então, bloqueado por um mês. Veja bem, a regra para sobreviver na China é “não vá para as ruas”, “não brinque com o governo”, “seja obediente”.

Casamento homoafetivo na China é ilegal. Nós ainda estamos na era do “não pergunte, não diga” (“don’t ask, don’t tell”, em inglês). O governo chinês está removendo qualquer tipo de conteúdo online que eles considerem “sensível”. E, sim, a China ainda não tem acesso a Facebook, Twitter, Instagram e Google. Existem inúmeras disputas internas, mas… há esperança. A nossa comunidade tem conseguido cada vez mais visibilidade. Por exemplo, a filha do Jackie Chan, que saiu do armário em outubro de 2017. E há boatos sobre essas outras personalidades também. A gente não quer forçar a saída do armário dessas celebridades, mas precisamos de mais representatividade e visibilidade.

E existem muitas organizações sem fins lucrativos e grupos fazendo um trabalho incrível a nível nacional. E pessoas também. Eu, por exemplo, ando filmando histórias interessantes de chineses LGBTs com o meu projeto OutChina. E estou aqui compartilhando a minha história também. “Porque ser você mesma é uma revolução”

Como o nosso grande líder Mao Tsé-Tung disse uma vez: “os camaradas precisam estar preparados para superar todas as dificuldades com uma garra indomável e de uma maneira planejada”. “As nossas dificuldades podem ser superadas porque somos jovens e e a força emergente, e nós temos um futuro brilhante”. Lutemos, “camaradas”, e vamos construir uma verdadeira “La La” Land.

Corta, isso tem direitos autorais (e eles são um casal hetero)

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Links relacionados:

Out China – China LGBT Stories (Em inglês e Mandarim)

A importância da presença asiática no movimento LGBT+: Integra da fala de Alex Tso na Câmara Municipal de São Paulo

O caminho que Taiwan tomou para a Igualdade Matrimonial

A história LGBT+ do Vietnã

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