Faculdades de mulheres do Japão lidam com mudanças nas concepções de gênero

Matéria de Mizuho Aoki publicada originalmente no The Japan Times

Tradução: Nassim

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No fim de 2015, uma escola de ensino médio para meninas, filiada à Universidade das Mulheres do Japão (Japan Woman’s University), recebeu um pedido de uma mãe de uma aluna do ensino fundamental, pedindo para a filha ser aceita para matrícula.

A mãe disse que sua filha foi diagnosticada com Transtorno de Identidade de Gênero (TIG) e é registrada como sendo do sexo masculino nos documentos de família.

Após poucos meses de consideração, os oficiais da escola concluíram que a criança não poderia ser admitida por conta da instituição não possuir um sistema ou um conhecimento para fornecer assistência adequada às pessoas diagnosticadas com TIG.

Mas o pedido imprevisível promoveu na Universidade das Mulheres, neste ano, o começo de grupos de trabalho para considerar pela primeira vez abrirem suas portas para estudantes que foram designadas do sexo masculino ao nascer, mas se identificam com o sexo feminino.

“Será uma tarefa desafiadora. Mas, também acredito que essa será uma chance para pensarmos no significado de sermos uma Universidade de Mulheres… é uma oportunidade de atualizarmos o nosso campus enquanto um lugar para verdadeiramente pensar sobre equidade de gênero no âmbito da diversidade sexual” disse Satoko Oyama, uma professora da universidade e cabeça dos grupos de trabalho, ao Japan Times em entrevista recente.

As Universidades das Mulheres que têm permanecido rigidamente unissex estão em um divisor de águas, deparando-se com mudanças de concepções de gênero e ampliando sua consciência para a diversidade sexual.

Seguindo a iniciativa da Universidade das Mulheres do Japão, uma da mais antigas universidades para mulheres, algumas das mais importantes instituições integralmente femininas têm oficialmente começado as discussões há poucos meses para elucidar seus critérios de admissão sobre gênero, dizendo que é hora de se pensar em ampliar suas definições de mulheres.

“Eu acredito que levará um longo tempo (para chegar a um consenso)” disse Oyama, explicando que o grupo se depara com oposições de algumas ex-alunas. A pauta foi também alvo de tantos comentários negativos nas mídias sociais que foram obviamente embasados em mal entendidos e preconceitos.

Sabendo que pessoas têm diferentes conceitos de gênero, Oyama disse que os grupos de trabalho querem assumir as coisas lentamente para ganharem aceitação das estudantes e suas famílias, assim como das ex-alunas.

Atualmente, as universidades das mulheres aceitam somente pessoas registradas como mulheres em seu documento familiar.

Sob a Lei de Registro Familiar, o gênero registrado pode ser mudado, mas os obstáculos são muitos. As condições de mudança de gênero incluem ausência de órgãos reprodutivos funcionais após passar por uma cirurgia de transgenitalização. somente pessoas com 20 anos ou mais podem se submeter à cirurgia, assim uma aplicante usual para a universidade – em geral em torno dos 18 anos de idade – pode não conseguir se submeter à cirurgia de transgenitalização e mudar o registro de seu sexo a tempo de entregar os critérios para seleção.

A Universidade de Ochanomizu, uma das duas universidades nacionais somente de mulheres, também formou um comitê neste ano para avaliar suas políticas para as mulheres trans que desejam estudar na instituição. A iniciativa se deu após receberem um pedido de uma pessoa trans no ano passado que disse que a escola era a única que oferecia o curso que ela gostaria de fazer.

“Considerando os aspectos da diversidade, eu acredito que precisamos pensar de maneira ampla, ao em vez de nos prender a uma perspectiva estreita sobre a natureza de uma Universidade para Mulheres” disse Yayoi Izaki, vice-presidenta da Ochanomizu.

Há muitas coisas para considerar e superar antes da escola poder ampliar as políticas de admissão para gênero, disse Toru Miura, outro vice-presidente da Ochanomizu.

Além das questões de como julgar o gênero das aplicantes e do uso de registros familiares oficiais, a escola precisa ganhar a aceitação de outros estudantes e seus pais assim como de ex-alunas. Outras questões para se considerar incluem se devemos adicionar mudanças especiais nos vestiários ou em banheiros com gêneros discriminados ou neutros, disse Miura.

Ele disse que devido à longa lista de fatores a se considerar, levará pelo menos até 2019 para a Ochanomizu poder mudar as políticas de admissão.

Kimiko Murofushi, presidente da Universidade de Ochanomizu, disse que a escola quer trabalhar na questão cuidadosamente para evitar futuras dificuldades.

“Seria uma pena para estudantes trans se elas entrassem na universidade enquanto nossas opiniões sobre a questão oscilam” disse Murofushi. “Mas eu pessoalmente penso que o escopo de mulheres pode ser ampliado para incluir aquelas pessoas que não estão registradas como mulheres mas se identificam como tal”.

Discussões semelhantes sobre admitir mulheres trans têm surgido nos Estados Unidos nos últimos anos. Desde 2014, a então chamada Faculdade de Mulheres das Seven Sisters, um consórcio de faculdades de prestígio na costa leste, mudou suas políticas de admisão para permitir mulheres trans.

A presidenta da Universidade de Tsuda, Yuko Takahashi, que conduziu uma pesquisa nos Estados Unidos em cinco das faculdades das Seven Sisters entre 2013 e 2014, disee que a maioria das escolas decidiram aceitar mulheres trans com base nos próprios pedidos das aplicações e não em certificados médicos.

“Mas no Japão, se os registros familiares dizem que são homens, mesmo que se identifiquem como mulheres, não importa” disse Takahashi. “Essa é a situação atual. Isso não reflete as necessidades de estudantes TIG”.

Seguindo as mudanças nos Estados Unidos e as decisões da Universidade das Mulheres do Japão de iniciar seu grupo de trabalho, Tsuda, uma das primeiras universidades particulares para mulheres, levou à cabo discussões em maio sobre suas políticas para estudantes trans.

“Estamos ainda em processo de discutir a que tipo de consenso conseguiremos chegar” disse Takahashi. “Nós também precisamos ouvir as vozes das ex-alunas e das estudantes, assim como de seus pais. Então deve levar um longo tempo”.

A Universidade das Mulheres do Japão foi fundada para fornecer oportunidades de educação páreas para mulheres que foram marginalizadas por conta de seu gênero. Hoje, muitas instituições colocam seu foco em fortalecer mulheres líderes e empoderar aquelas que ainda são minoria em muitas áreas da sociedade, incluindo políticas e negócios.

A experiência de aprender num ambiente somente de mulheres pode também ser algo valioso para mulheres trans, disseram oficiais da universidade, porque se elas devem viver as suas vidas como mulheres elas passaram pelas mesmas questões que mulheres cis enfrentam num mundo dominado por homens.

 

 

“Por um longo tempo, fomos ensinadas que há homens e mulheres e nada mais. Mas o binarismo de gênero não é mais um verdadeiro reflexo da realidade” disse Takahashi.

“Isso é algo não somente para as universidades das mulheres. Precisamos aprender como entender gênero de modo que reflita a realidade… Eu acredito que estamos em processos de estabelecer consensos”.

 

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Texto original (Em inglês) – Japan’s women’s college grapple with shifting views on gender

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