A Revolta da Lâmpada – Fervo também é luta

Texto de Rodrigo Ken

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No dia 14 de novembro de 2010, um rapaz foi agredido com lâmpadas fluorescentes. O motivo do ataque? Os agressores leram o rapaz como homossexual… em outras palavras, HOMOFOBIA!! Assim, a lâmpada virou um símbolo de opressão às pessoas LGBT+, aos corpos percebidos como inadequados para a sociedade. E em resposta a isso, surgiu A Revolta da Lâmpada, ato organizado pelo coletivo de mesmo nome e que luta contra a opressão dos corpos.

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Tema da Revolta da Lâmpada 2017: “Corpo livre é a cura! Meu koo para a censura!” (Foto: Alexandre Nakahara)

No último sábado, dia 25 de novembro de 2017 (7 anos após o ataque), aconteceu a Revolta da Lâmpada em seu quarto ano consecutivo. E neste ano, nós, o coletivo Asiáticos pela Diversidade, fomos convidados a somar ao ato. Assim, gostaria de deixar meu relato sobre este evento incrível:

A Revolta já começou de maneira simbólica ao promover a concentração no local exato do ataque de 2010 (logo em frente ao Clube Homs na Avenida Paulista, 777). Passado algum tempo, chegou o trio elétrico que nos acompanharia até o fim do percurso (largo do Arouche). E conforme o tempo passava, mais e mais pessoas apareciam para somar ao ato. Foi muito interessante e bonito ver pessoas tão diversas e de diferentes coletivos se unirem num mesmo local por um propósito comum. E quando digo diversas, me refiro não somente a homens brancos, gays e cisgêneros, mas um conjunto de pessoas LGBT+ de diferentes etnias, identidades de gênero, condições físicas e sociais. Aliás, nesse momento que eu comecei a perceber que a Revolta da Lâmpada tinha alguma coisa de diferente comparado a Parada LGBT.

Após um número significativo de pessoas terem se reunido, foi dado início a manifestação. As primeiras falas foram feitas pelo grupo Mães pela Diversidade, que falaram sobre o Corpo das nossas mães e o Corpo velho, e pelo nosso coletivo Asiáticos pela Diversidade. Para nos representar, subirem no trio o Alex Tso e o Masao Hikaru, sendo que o Alex, como representante também do coletivo Primavera Bissexual, falou do Corpo bissexual, e o Masao falou do Corpo asiático, cuja fala deixo aqui:

“Boa tarde!

É com muito orgulho e alegria que hoje estou aqui para representar o Coletivo Asiáticos pela Diversidade.

Queridos da Revolta da Lâmpada, gratidão pela empatia, solidariedade e oportunidade.
Iniciamos aqui uma união de forças contra o conservadorismo, a discriminação e a censura dos corpos. E falando em corpos… Ser asiático não é ser um corpo uniforme. Somos diferentes povos, diferentes etnias, diferentes cores. Um grupo que abraça desde os sírios e libaneses no oeste, até os chineses e coreanos no extremo leste. É impossível falar em poucos minutos de todas as particularidades de nossas vivências. Porém, é possível falar daquilo que nos domina, daquilo que nos oprime, daquilo que nos censura. Estamos aqui porque O CORPO LIVRE É A CURA!

Nos apagam dizendo que “asiático é tudo igual”
“Ha ha ha, deve ser pequeno o seu pau”
“Ei japinha, sua vagina é horizontal?”
“Você é até que bonito pra um oriental”

Não somos indivíduos. Não temos nomes, não temos rostos, não temos dores. Somos os turcos, os chinas, os japas. Os sujos, os estrangeiros, os indesejados.
A mulher asiática é passiva e subserviente, ou então é a gueixa tarada, dançarina exótica do Oriente.
ENTENDAM que a Ásia não é só China, Coréia e Japão. Tem muito mais, como Síria, Índia e Paquistão.
Não somos a minoria modelo a serviço da hegemonia branca heteronormativa, pelo contrário, não nos encaixamos nesse padrão que eles definem, com o qual nos oprimem.

Asiáticos LGBT+ presentes!”

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Membros do coletivo Asiáticos pela Diversidade. (Foto: Rafael Silva)

Percebi que as pessoas ficaram quietas após a nossa fala, será que demos uma chacoalhada nelas? Espero que sim! Após os meninos voltarem à multidão, algumas pessoas vieram elogiar suas falas e outras ainda disseram que nunca haviam parado para pensar nessas microagressões e falas carregadas de estereótipos que elencamos.

Dali em diante, foram feitas mais falas e manifestações artísticas no trio até ser dada a largada para a caminhada rumo o Arouche. O trajeto foi carregado de atos políticos, muito fervo e mais falas, além da presença de pessoas que admiro muito, como: Amara Moira, Danna Lisboa, Diego Moraes, Juana de Mattos, Leandrinha Du Art (se você não conhece essas pessoas, recomendo procurar pelo trabalho delas, são pessoas incríveis dentro do nosso cenário LGBT+).  Acho que só depois disso tudo que eu entendi a frase “o fervo também é luta”. Pessoas marginalizadas e/ou invisibilizadas ocupando as ruas e ganhando um espaço de fala, mostra que elas (r)existem e vão continuar lutando contra a censura de seus corpos.

Esse foi o relato de uma pequena parte da Revolta da Lâmpada, evento que me proporcionou uma experiência incrível e que me mostrou que juntos conseguimos lutar, sim!

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Links relacionados:

A importância da presença asiática no movimento LGBT+: Integra da fala de Alex Tso na Câmara Municipal de São Paulo

Nossa luta pela vocalização de pessoas asiáticas LGBT+

A semana do orgulho LGBT+ da Mongólia termina com uma grande parada

 

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